Como vilarejo conseguiu reduzir pobreza em 83% com enfoque inovador

Image caption Cidade em Uganda foi palco de projeto do economista Jeffrey Sachs, que integra saúde, educação e pequenos negócios

Subindo a estrada de cascalho para Ruhiira, passando as densas plantações de banana, pode-se ficar com a impressão de que nada mudou em relação à primeira vez que estive em Uganda há quase 50 anos.

Bananas eram fundamentais naquela época e ainda são, seja para o consumo das famílias ou para a economia local.

Mas as cerca de 50 mil pessoas que moram nesse distrito montanhoso fazem parte, há nove anos, de uma importante iniciativa de ajuda humanitária.

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Ruhiira é uma das localidades escolhidas pelo economista americano Jeffrey Sachs para instalar uma das chamadas Millennium Villages – que pretendem ser um modelo na busca por formas de acabar com a pobreza mundial.

O projeto tem o apoio da ONU e está ligado aos Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODM) para reduzir a pobreza.

O relatório 2015 da ODM, publicado nesta segunda-feira, diz que o número de pessoas vivendo em extrema pobreza diminuiu em mais da metade, passando de 1,9 bilhão em 1990 para 836 milhões neste ano.

Ruhiira é apontada como um bom exemplo desse cenário. Entre 2006 e 2011, a proporção da população vivendo com menos de US$ 1 por dia caiu de 58% para 10%.

Lojas e restaurantes

"(As Millennium Villages) são um exemplo de como pode ser bem-sucedida uma estratégia integrada, que reúna educação, saúde, agricultora e pequenos negócios", afirmou o secretário-geral da ONU, Ban Ki-Moon.

Quando você chega ao topo do morro onde agora há um pequeno centro comercial é que você percebe o quanto a área mudou.

Agora, agrupadas perto de um cruzamento, há várias lojinhas vendendo de ferramentas a remédios, além do pequenos restaurantes. Também há um bar com uma mesa de bilhar na varanda.

Também há locais onde você pode sacar dinheiro usando seu celular. E há um banco que funciona em um esquema de cooperativa.

Há poucos anos, mal havia eletricidade nessa área. Agora, há energia solar. Também há reservatórios de água, abastecidos por encanamentos, mostrando que também houve progressos no acesso à água limpa.

Segundo Sachs, o projeto investiu, em seu auge, cerca de US$ 60 por pessoa por ano, incluindo gastos com educação, saúde, saneamento básico e agricultura.

Image caption Para Sachs, mesmo valores modestos, se bem direcionados, podem fazer uma "imensa" diferença

E esse investimento deve chegar a zero no fim desse ano – Sachs acredita que mesmo valores modestos, se bem direcionados, podem fazer uma "imensa" diferença.

Muitos moradores relatam uma mudança drástica em suas vidas durante o projeto.

Robert Nkunda, por exemplo. O agricultor de 35 anos conseguiu construir uma casa para sua família e um abrigo para o gado. Agora, ele planta banana, café, feijão e milho. Antes, ele achava que não tinha futuro em Uganda.

"Meu pai morreu quando eu ainda era muito novo. Não tínhamos terra o suficiente", conta. "Foi por isso que não consegui terminar meus estudo. Mas eu trabalhei duro para conseguir comprar essa terra que agora estou cultivando."

Robert agora espera que seus filhos valorizem a terra.

Longas caminhadas

Na escola local, a diretora fala dos avanços, mas não esquece do desafio que é manter os 580 alunos frequentando as aulas.

"A maioria deles tem de andar muito para chegar aqui. Eles não têm luz em casa para fazer a lição. E a maioria também não tem comida o suficiente em casa", conta Florence Kakiiza, diretora da escola primária Nyakamuri.

"Ainda há muitos problemas e é uma luta diária, mas estamos caminhando no que diz respeito à educação. Quase todas as crianças agora estão na escola."

Image caption Próximo desafio é manter as meninas na escola secundária; casamento precoce é um dos empecilhos

Florence diz que um dos maiores desafios agora é fazer com que mais meninas entrem no ensino secundário – e permaneçam na escola.

"A maioria das meninas nas áreas rurais ainda abandona a escola secundária", diz. "Elas se casam cedo e têm filhos ainda muito novas, como 14 anos."

Funcionários de uma das organizações que integra o projeto viajam de bicicleta para as áreas rurais, visitando famílias e conversando sobre planejamento familiar.

Mas a ONG Community Health Workers parece estar tendo mais sucesso em outra área, na redução da mortalidade materna e de bebês.

Seus funcionários usam smartphones com um aplicativo especial para registrar dados da mãe e do recém-nascido.

Desigualdade

Uganda investe cerca de US$ 8 por pessoa na área da saúde, afirma David Siriri, um especialista em desenvolvimento que trabalha no governo.

"Agora temos a proposta de subir esse valor para US$ 30. Isso pode ser viável se o governo mobilizar fundos e priorizar esse setor."

Segundo David, algo que já está sedimentado nas diretrizes do governo é a decisão de pagar mais para médicos que trabalham em zonas rurais, difíceis de serem acessadas.

Ele explica que isso ajuda os médicos a permanecer na área – e já está rendendo frutos em áreas como Ruhiira.

Críticos das Millennium Villages afirmam que elas obtiveram poucos avanços no que diz respeito a redução de desigualdade – que normalmente é exacerbada pela quantidade de terra que uma pessoa tem.

Os diretores do projeto afirmam que ele está mostrando o caminho para reduzir a desigualdade – e que o progresso é muito mais na mudança da mentalidade sobre o que é ajuda humanitária.

O número de pessoas agora vivendo em extrema pobreza diminuiu em mais da metade, passando de 1,9 bilhão em 1990 para 836 milhões em 2015.