Comunidade de gregos no exterior se une para ajudar país

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Image caption Ajuda de expatriados se intensificou nos últimos meses, quando a crise na Grécia se acentuou

Enquanto os políticos da Grécia e da Europa continuam a discutir os termos de um possível resgate, os cidadãos gregos comuns viram seus salários serem cortados pela metade e suas economias definharem.

Mais recentemente, muitos gregos passaram a ter apenas acesso restrito a saques em caixas automáticos, e alguns aposentados não estão mais recebendo sua pensão integral.

Metidos em uma confusão da qual sabem que não vão sair tão cedo, vários gregos estão recorrendo a seus parentes no exterior para obter apoio emocional e financeiro.

Os gregos que emigraram e seus descendentes ainda são bastante ligados à terra natal. Por isso, estão encontrando maneiras criativas para ajudar parentes e amigos no país europeu, oferecendo suas propriedades, terrenos ou simplesmente dinheiro vivo.

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Crise no auge

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Image caption Moradores de Melbourne, na Austrália, demonstraram apoio ao referendo realizado na Grécia

A ajuda se intensificou nos últimos meses, quando a crise iniciada em 2009 chegou a um ponto crítico.

Segundo Connie Mourtoupalas, diretora de assuntos culturais do Museu Nacional Helênico de Chicago, dedicado à cultura grega, muitos de seus compatriotas que vivem nos Estados Unidos estão viajando à Grécia com dinheiro na mão para socorrer parentes que perderam acesso ao sistema bancário.

Peter Jasonides, codiretor do Conselho Helênico Australiano, em Melbourne, diz conhecer expatriados que repassaram casas de veraneio ou terrenos na Grécia para familiares.

“Muitas vezes são propriedades herdadas que são emprestadas aos parentes, geralmente pessoas que perderam seus empregos e não conseguem mais pagar aluguel ou hipoteca”, explica Jasonides.

Além disso, muitos desses terrenos podem ser cultivados, o que reduz os gastos com alimentos.

Para Jasonides, até mesmo gregos que se estabeleceram de vez no exterior mantêm laços com o país e sentem que têm a responsabilidade de ajudar.

“As conexões não aparecem apenas com a primeira geração de emigrantes, mas também na segunda, na terceira e na quarta gerações de gregos”, diz Jasonides.

As igrejas gregas ortodoxas no exterior também mencionam a situação da Grécia em seus sermões.

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Famílias separadas

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Image caption Expatriados dizem que querem melhorar a imagem da Grécia e dos gregos no exterior

Stefanos Livos, de 31 anos, escritor e coordenador de cursos online radicado em Londres, conta que tem ajudado a família a pagar sua hipoteca desde que ele deixou a ilha de Zakynthos, há mais de quatro anos.

“Posso não estar lá fisicamente, mas minha alma nunca deixa minha família e meus amigos”, afirma Livos, que se comunica com a Grécia diariamente.

Para ajudar a manter o astral dos entes queridos, Livos diz que conta a eles o que a imprensa estrangeira tem falado sobre a Grécia – algo que a população das menores ilhas do país nem sempre sabe. “Converso com eles na tentativa de acalmá-los e dar algum insight sobre o que está sendo dito”, conta.

Georgia Lachanidou, 44, funcionária de um hotel na cidade grega de Perdika, conta que muitos de seus amigos e colegas se viram obrigados a deixar o país para poder sustentar a família. “Muitas famílias tiveram que se separar para tocar a vida”, diz.

Mas nem todos estão prontos para receber uma ajuda financeira, mesmo neste momento tão duro.

“Meus parentes ou são orgulhosos ou realmente não precisam de dinheiro – e não quero insultá-los”, conta Mourtoupalas. Ela então procurou organizações da comunidade grega em Chicago para arrecadar fundos que são doados para escolas na Grécia onde as crianças são especialmente vulneráveis.

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Melhora da imagem

Além de ajudar financeiramente, muitos expatriados dizem que sentem a obrigação de melhorar a imagem do país no exterior. Muitos anseiam por mostrar um lado pessoal para o que tem acontecido durante a crise, enquanto tentam acabar com estereótipos.

Mourtopalas recentemente foi curadora de uma exposição que mostra como artistas de rua de Atenas estão reagindo à crise.

“Queremos reconhecer e mostrar como os gregos estão se sentindo e a quantidade de emoções em jogo”, afirma. Segundo ela, a exibição está fazendo sucesso até entre americanos que não têm relação alguma com a Grécia.

Nos últimos anos, muitos expatriados têm organizado projetos para tentar causar um impacto maior na economia da Grécia. Em 2012, diretores de várias das maiores empresas do mundo fundaram a Hellenic Initiative, uma organização global que atua para ajudar a comunidade empreendedora grega.

O grupo trabalha com organizações sem fins lucrativos para oferecer ajuda emergencial, além de financiar jovens empresários gregos. Em junho, a iniciativa realizou seu primeiro evento em Atenas para apresentar ideias de start-ups gregas para cerca de cem investidores americanos e europeus.

Livos acredita que o fato de ter se mantido ativo no Twitter e se comunicando com sua rede de contatos em Londres ajudou a revelar o lado mais humano do que está acontecendo em seu país.

“A melhor coisa que os expatriados podem fazer pelos gregos que estão em casa é destruir os estereótipos que os europeus fizeram de nós”, conta.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital.