O banquete gratuito dos monges budistas da Coreia do Sul

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Image caption Guinsa chega a receber milhares de visitantes por dia nos feriados budistas

As montanhas se desdobram em torno do Templo de Guinsa como as pétalas de uma flor de lótus. Construções pintadas em cores vibrantes interrompem os brancos e cinzas do inverno.

O lugar está lotado de visitantes com suas roupas de trekking, o que, aqui na Coreia do Sul, significa um nylon chamativo. Muitos vieram para praticar sua fé budista; outros estão aqui apenas pelo passeio e pela vista. Eu, provavelmente, sou a única a vir por causa da comida.

O vestido cinzento da minha guia não disfarça sua energia contagiante. O íngreme caminho para a cozinha percorre praticamente metade da montanha. Começo a me arrastar ao notar os infinitos e tortuosos degraus de cimento.

“Faz de conta que esta escada está indo para baixo”, sugere minha guia.

“Para baixo, Heyonduk Seunim?”, pergunto. “Seunim” significa “monge” em coreano e a ocasião pede respeito à minha anfitriã.

“Sim, a mente controla o corpo”, afirma.

Tento, mas meu cérebro não está convencido. O templo é uma rede de escadarias e, de onde eu estou, todas elas parecem levar montanha acima.

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Simples e vegetariana

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Image caption Visitantes são convidados para um almoço típico oferecido como expressão de gratidão

Fundado há 70 anos, no último ano da ocupação japonesa na Coreia, Guinsa é um templo relativamente novo se comparado a outros locais religiosos. Inicialmente serviria como uma cabana de pernoite, mas logo se tornou em um destino para turistas e peregrinos. Os visitantes deixavam doações e isso ajudou o templo a se expandir.

Hoje, o enorme complexo ocupa todo um vale na Cordilheira de Sobaek, a 150 quilômetros a sudoeste de Seul.

Todos os dias, os monges servem um almoço grátis a todos os visitantes. Pergunto a Hyeonduk Seunim sobre essa tradição. Ela me conta que a refeição é uma expressão de gratidão, um reconhecimento à fé e às doações que permitiram a construção do Templo de Guinsa.

Ela destaca que todos são bem-vindos, budistas ou cristãos, coreanos ou estrangeiros. O templo alimenta a todos.

Enormes gamelas de barro enchem o pátio da cozinha, guardando molho de soja, feijões fermentados e pasta de pimentão. Os monges cultivam e conservam toda a comida consumida aqui, de repolhos a castanhas.

Itens básicos como soja fermentada, folhas de gergelim marinadas e kimchi – prato típico coreano à base de verduras em conserva – também têm o seu lugar.

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Image caption Caldeirões esquentam comida suficiente para pelo menos 500 pessoas

Lá dentro, a cozinha está forrada com gigantescos caldeirões. Cada um contém arroz suficiente para 500 pessoas ou sopa para 3 mil.

Eles são tão profundos que os monges mexem a comida com pás. Em um canto, uma jovem coberta com um lenço rosa lava o arroz. A água rica em amido vai direto para outra panela para formar a base de uma sopa.

No andar de cima, onde estão as mesas, devemos nos servir apenas daquilo que vamos comer. Trata-se de uma refeição vegetariana simples: arroz com kimchi, sopa de soja, batatas assadas. Peregrinos e turistas se sentam lado a lado.

Centenas de pessoas dividem as longas mesas. Mas o local chega a abrigar milhares de visitantes em alguns feriados, principalmente o Ano Novo lunar, que cai em janeiro ou fevereiro, e o aniversário de Buda, em maio.

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Parte da mesma família

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Image caption Salão Dharma recebe fiéis para ritos em celebração a entes queridos

Compartilhar comida é um costume profundo da cultura coreana. As pessoas comem do mesmo prato e brindam com as mesmas taças. A comida é uma expressão do senso de comunidade. Ao receberem a todos em suas mesas, os monges de Guinsa fazem com que sejamos todos parte de uma mesma família, pelo menos durante uma refeição.

E, como familiares, eles esperam que comamos tudo o que tivermos em nossos pratos. Hyeonduk Seunim dá uma bronca em três rapazes que tentam ir embora sem terminar a refeição. Como garotos de colégio, eles voltam a seus lugares e comem. Ela também nota uns grãos de arroz no meu prato, junta-os com uma colher e enfia na minha boca.

Depois do almoço, Hyeonduk Seunim me convida para uma cerimônia. Voltamos escadaria abaixo para o salão principal, onde um Buda dourado domina o local, ladeado por outras estátuas. Diante delas, bandejas com frutas são dispostas como oferendas.

O local é decorado com faixas, e as paredes pintadas como as páginas de um livro infantil. Os monges batem tambores e entoam cânticos, com suas vozes coordenadas.

Hyeonduk Seunim me leva a uma almofada vermelha aos pés de Buda. “Você é nossa convidada”, diz.

À minha direita, duas mulheres bem vestidas e com cara de serem irmãs se ajoelham. Elas não olham para mim, mas sim para Buda. Pergunto-me se não estou invadindo um ritual importante.

Na hora que se segue, fazemos uma procissão entre os altares, nos curvando em saudação várias vezes. Só quando chegamos ao último altar, enterrado sob vasilhas de legumes, pilhas de maçãs e vidros com doces, reconheço a cerimônia.

Trata-se de um ritual fúnebre: um pedaço de papel branco colocado bem no centro do altar representa alguém que morreu. O chão vibra com o som dos tambores e nós nos curvamos mais uma vez.

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Comunhão entre mortos e vivos

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Image caption Templo de Guinsa fica na Cordilheira de Sobaek, a 150 km de Seul

Pela tradição coreana, há alguns dias do ano em que os espíritos dos mortos voltam para suas famílias. Eles são cumprimentados e festejados.

No Ano Novo lunar e no feriado outonal de Chuseok, quando se festeja a colheita, todo o país participa de rituais ancestrais. Mas hoje, eram apenas essas duas mulheres marcando o aniversário de morte de um ente querido.

A cerimônia acaba e vamos para fora para queimar o papel. Enquanto ele se despedaça em cinzas, as irmãs se viram para mim pela primeira vez. Elas me agradecem por ter vindo homenagear seus ancestrais. Minha presença não é vista como uma intrusão, mas como uma conexão.

Sou convidada a participar da última parte do ritual. Hyeonduk Seunim nos conduz a uma sala vazia, com uma mesa baixa ao centro. As vasilhas de frutas e legumes estão ali, ao lado de café e chá. As oferendas aos mortos agora são compartilhadas pelos vivos. Isso simbolicamente une os dois mundos para uma refeição.

Todos nós nos sentamos para comer: os espíritos, as irmãs, a monja e eu, a estranha que talvez não seja estranha. Juntas, somos uma família.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Travel.