Em meio à guerra, irmãos realizam sonho de pai com último vinhedo da Síria

Foto: Domaine de Bargylus Direito de imagem John McGill . Bargylus
Image caption Mais de 30 famílias sírias dependem do trabalho no vinhedo para sobreviverem em meio à guerra

Em agosto, a cada três dias, um táxi deixa a região de Latakia, no noroeste da Síria, em direção ao Líbano levando uma carga preciosa: um cacho de uvas.

Cuidadosamente embaladas em gelo, essas uvas representam os sonhos e as esperanças dos irmãos Saade.

Karim e Sandro são donos do único vinhedo comercial da Síria, chamado Domaine de Bargylus, que produz vinho de qualidade apesar de o país estar mergulhado em uma guerra civil. Produzir vinho em território sírio sempre foi o sonho do patriarca dos Saade.

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Desde que a guerra começou, em 2011, é muito perigoso para eles visitarem o vinhedo pessoalmente. Assim, as uvas viajam mais de 200 quilômetros até o escritório deles em Beirute, no Líbano. De lá, eles as experimentam e decidem se elas já estão prontas para a colheita.

E esse é apenas o primeiro dos muitos desafios logísticos enfrentados pelos irmãos sírio-libaneses.

Direito de imagem John McGill . Bargylus
Image caption Karim (esq.) e Saade no vinhedo deles no Líbano; eles não podem ir até a Síria por temerem ser sequestrados

As garrafas de vinho, as rolhas e os rótulos precisam ser importados da França – e os produtores das garrafas acabaram de anunciar que não vão mais enviá-las para a Síria.

Uma vez que o vinho está pronto, ele é transportado para um galpão na Bélgica, via Egito. "Precisamos passar os vinhos por Port Said (no Egito), antes de eles chegarem na Antuérpia (Bélgica). Então, é uma viagem de 45 dias", conta Sandro.

Ajuda francesa

Ironicamente, o pai deles, Johnny, havia rejeitado a opção de comprar uma vinícola em Bordeaux, na França, porque não queria produzir vinho à distância.

Ele começou a procurar terras no Líbano, mas foi na Síria que encontrou a melhor opção.

E voltar para a Síria era um sonho antigo dele. Os Saade, uma família cristã ortodoxa, costumavam ter indústrias e terras na Síria. Mas em 1958, quando o Egito e a Síria se uniram por um período criando um país que ficou conhecido como República Árabe Unida, uma série de nacionalizações ocorreram no país.

Direito de imagem John McGill Bargylus
Image caption Com vendas em torno de 45 mil garrafas por ano, vinho está se tornando símbolo de resistência para sírios que vivem fora do país

"Um dia, meu pai foi até uma de nossas fábricas e não deixaram mais ele entrar", diz Sandro. "Disseram que aquela fábrica não era mais dele, que agora pertencia ao governo."

Foi então que a família se mudou para o Líbano, onde vivem desde então. Eles também têm uma vinícola no país, Chateau de Marsyas, no vale do Bekaa. Mas a Bargylus vem em primeiro lugar.

O pai ainda é bastante envolvido no processo, mas passou o negócio para os filhos.

Mesmo antes da guerra, a ideia já era ambiciosa. Com a ajuda de um especialista famoso de Bordeaux, Setephane Derenoncourt, eles encontraram uma região com um solo interessante na costa montanhosa de Jebel Al-Ansariye, conhecida como Monte Bargylus nos tempos romanos, quando os vinhedos eram abundantes.

Eles não sabiam nada sobre o negócio, então começaram a construir a vinícola do zero. "Tivemos inclusive que levar a cultura do vinho para a Síria", conta Sandro, contando que isso incluía educar as pessoas a manter a terra limpa e livre de lixo.

A família também contratatou funcionários que viviam nos vilarejos ao redor. "As pessoas que trabalham em Bargylus são extremamente comprometidas", afirma.

"Por isso que, para nós, continuar com o negócio é uma missão, não apenas porque é um desafio, mas principalmente por as mais de 35 famílias que dependem desse projeto."

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Chardonnay, merlot, syrah...

Os vinhedos foram plantados em 2003, com uvas chardonnay e sauvignon blanc para o vinho branco e cabernet sauvignon, syrah e merlot para o tinto.

Os Saade produziram a primeira garrafa em 2006. "Quando a primeira gota de vinho branco saiu do tonel, foi um momento muito emocionante. Era um vinho muito poderoso, com um sabor muito interessante... ficamos muito impressionados", relembra Sandro.

Direito de imagem John McGill Bargylus
Image caption Vinhedo já sofreu com algumas bombas, mas nenhum funcionários foi atingido

Mas, em 2011, a guerra estourou. Apesar de a área de Latakia ainda ser relativamente tranquila, e sob o controle do presidente Bashar Al-Assard, rebeldes islâmicos já se fazem notar.

"Todo ano, temos instabilidades tais como algumas bombas caindo no vinhedo. Graças a Deus até agora nenhum dos nossos funcionários foi atingido", afirma.

"Mas duas vezes bombas caíram no campo de chardonnay. Não sabemos exatamente de onde elas vieram, mas com certeza foi de um vilarejo próximo onde há extremistas."

Os irmão dizem não ter certeza se eles eram o alvo. "Não devemos imaginar o pior."

Karim é mais direto: "Infelizmente, na situação atual, o pior é sempre possível. Então a primeira coisa a ser escolhida como alvo seria o vinhedo, porque dali sai o vinho e vinho é proibido para essas pessoas."

Sucesso

No momento, a vinícola Domaine de Bargylus é um sucesso. Os irmãos estão conseguindo produzir 45 mil garrafas por ano.

Elas são vendidas em várias partes do mundo, e novos mercados e importadores estão sendo prospectados – o Brasil é um deles.

Direito de imagem John McGill Bargylus
Image caption As circunstâncias excepcionais em que o vinho é produzido acabam ajudando a divulgar o produto

"Estamos criando uma paixão", conta Sandro, que afirma que vinho é popular entre sírios vivendo fora do país.

Ele justifica isso não apenas ao sabor do vinho, mas também às circunstâncias excepcionais em que ele é produzido.

"Eu diria que Bargylus é hoje um símbolo de produção de qualidade em tempos muitos difíceis", conta Sandro. "A maioria dos sírios que que hoje vive fora da Síria afirma isso e conta que gosta de beber nossos vinhos porque ele está virando um símbolo de orgulho."

"É um ato de resistência", diz Karim. "E ao mesmo tempo, é um símbolo de perseverança já que o vinho mostra que estamos lá e vamos continuar lá."