'Racismo da polícia ajudou a matar Jean Charles', diz ex-superintendente

BBC
Image caption Ex-superintendente Leroy Logan diz que a subrepresentação de minorias induz a erros

Que a morte do brasileiro Jean Charles de Menezes por agentes armados da Polícia Metropolitana de Londres (Scotland Yard), em 22 de julho, foi causada por uma sucessão de erros, já consta em uma série de investigações. Mas para o ex-superintendente para o distrito de Hackney, Leroy Logan, a tragédia ocorrida na estação de metrô teve também a influência do que ele define como racismo institucionalizado.

Logan, um dos mais graduados oficiais negros que já passaram pela corporação, se refere especificamente a um problema crucial na operação que resultou na morte do brasileiro com sete tiros na cabeça no interior de um trem do metrô na estação de Stockwell: o momento em que agentes da Scotland Yard confundiram o eletricista mineiro com Osman Hussain, um imigrante etíope que, na véspera, participara de um atentado frustrado ao metrô de Londres - uma tentativa de repetir os ataques de 7 de julho, que mataram 56 pessoas e feriram mais de 500 na capital britânica.

"O racismo institucionalizado da polícia ajudou a matar Jean Charles. O erro de identificação que foi cometido jamais teria ocorrido se mais policiais de minorias étnicas fizessem parte da corporação. Sobretudo, dos esquadrões de operações especiais, como os que estavam a cargo da operação em que ele morreu. É muito mais fácil aderir a estereótipos e fazer especulações quando um órgão com tanta responsabilidade como a polícia não está inserido na realidade de sua sociedade. Confundir aquele rapaz com um africano é o maior exemplo disso", afirma Logan, em entrevista a BBC Brasil, por telefone.

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Relação espinhosa

Direito de imagem Scotland Yard
Image caption A polícia apresentou esse retrato composto para justificar o erro de identificação

Membro fundador e ex-presidente da Associação de Chefes Negros de Polícia, o britânico, que foi o comandante da operação de segurança de Londres durante as Olimpíadas de 2012, diz ainda que o desequilíbrio na corporação é um obstáculo para que novas mortes de inocentes sejam evitadas.

"Uma polícia que não representa a comunidade em que opera vai ter menos condições de acumular inteligência e evitar erros", explica Logan, que é patrono de ONGs de monitoramento de jovens de minorias étnicas e que já foi condecorado pela rainha Elizabeth 2ª por sua militância em prol da igualdade racial.

Na Scotland Yard, 11% dos 31 mil policiais são de minorias étnicas. Entre a população de Londres, o índice é de 40%.

A questão das relações raciais na Scotland Yard é espinhosa, sobretudo depois de, em 1999, um inquérito público sobre a morte de Stephen Lawrence, um adolescente negro assassinado na região leste de Londres, denunciar uma "cultura institucional de racismo na força" pela maneira como agentes lidaram com o caso - foram constatadas falhas nos primeiros socorros a Lawrence e irregularidades na investigação.

No mês passado, em uma entrevista para um documentário da BBC, o comissário da Scotland Yard, Bernard Hogan-Howe, admitiu haver "alguma justificativa" nas acusações de racismo contra a força.

"Se as pessoas pensam que somos racistas, então somos. Não adianta eu dizer que não somos e que você precisa acreditar em mim. Nossa sociedade é institucionalmente racista e você vê a falta de representação em muitos setores. A polícia é apenas um deles", afirma Hogan-Howe, que assumiu o cargo em 2011.

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'Campanha de difamação'

Logan também mostra preocupação com o desfecho judicial do caso Jean Charles, em que a Scotland Yard escapou de ações criminais e teve apenas que pagar uma multa por violações à legislação de segurança pública. Na opinião do ex-policial, que se aposentou, em 2013, o resultado reforçou uma cultura de impunidade, apesar de a polícia também ter sido criticada em pontos específicos como versões desencontradas dos fatos apresentados após a morte do brasileiro.

"Houve uma campanha de desinformação e de difamação de Jean Charles. Refiro-me especificamente ao relato de que ele tinha entrado correndo na estação de metrô e pulado as roletas para fugir da perseguição de policiais. É o mesmo padrão, por exemplo, que marcou a versão da polícia para a morte de Mark Duggan, seis anos mais tarde", ataca Logan, aludindo ao caso que, em agosto 2011, foi o estopim para os violentos distúrbios que aterrorizaram Londres.

Image caption Mark Duggan foi morto pela polícia em 2011, e a versão dos eventos também apresentou inconsistências

Ao contrário de Jean Charles, Duggan, morto pela polícia, tinha ligações com gangues do norte da capital. Em comum, os dois casos resultaram em vereditos sem punições a policiais, apesar de depoimentos terem expostos várias irregularidades.

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"Nenhum caso de morte pelas mãos da polícia termina com condenações no Reino Unido. Nenhum tribunal parece querer punir policiais. Ao mesmo tempo, os próprios policias protegem uns aos outros quando algo grave acontece. E isso só contribui para que a confiança nas corporações diminua, sobretudo para discutir se novos erros como a morte de Jean Charles poderão ser evitados".

Logan endossa as alegações de outro oficial graduado da Scotland Yard, o ex-comissário assistente Brian Paddick, de que a Scotland Yard descobriu rapidamente que tinha matado o homem errado, mas só divulgou a informação 24 horas depois da morte do brasileiro. Isso apesar de a maior autoridade policial do Reino Unido, o comissário Ian Blair, ter ido à TV elogiar o trabalho dos policiais.

Image caption A conduta do então comissário da Scotland Yard, Ian Blair, recebeu diversas críticas

"Foi a aparição de Blair que me deu a impressão de que algo errado tinha acontecido, pois ele não costumava participar dos comunicados para a imprensa. A versão de que eles demoraram tanto para perceber que tinham matado o homem errado não poderia jamais se sustentar, e foi o que ficou provado".

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Logan também critica o comando da Scotland Yard pela maneira como lidou com seus agentes após os atentados de 7 e 21 de julho. O ex-superintendente acredita que faltou passar tranquilidade para os policiais que atuavam em operações de maior sensibilidade, como a Kratos, criada para lidar com atentados suicidas.

"Sei que era um momento de tensão e emocionalmente forte, mas quando a polícia deixa de agir com frieza, as chances de erro aumentam. Durante o período dos atentados eu conversei várias vezes com os policiais de minha jurisdição para que tivessem calma e respeitassem as pessoas. Mas os policiais de modo geral me pareceram muito tensos, e com o estresse você tende a fazer ainda mais suposições. E suas preconcepções se intensificam", afirma Logan.

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