Quem são os sírios que conseguiram refazer suas vidas no exterior

Direito de imagem Dina Saadi
Image caption Há três anos em Dubai, Dina Saad espera abrir seu próprio negócio de design de joias

Diariamente, imagens de cidadãos sírios deixando seu país devastado pela guerra nos fazem esquecer que, há apenas cinco anos, a Síria era um lugar próspero e estável. A nação abrigava uma bem-sucedida classe de profissionais liberais, como médicos, advogados, engenheiros e artistas.

Aquela prosperidade é difícil de ser imaginada hoje em dia. Mais de 200 mil sírios morreram desde os protestos pró-democracia, em 2011, e mais de 11 milhões foram obrigados a deixar suas casas. Desses, quase 4 milhões saíram do país.

Mas um pequeno grupo conseguiu escapar da grave situação e restabeleceu suas carreiras em outros lugares do Oriente Médio. Eles conseguiram ter sucesso inclusive em países onde é difícil para novatos formar novos contatos, obter visto de trabalho ou até permanecer por um longo período.

Com uma boa formação e experiência, esses sírios estão trazendo seus talentos e experiências para o resto da região. Conheça aqui algumas dessas histórias:

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Designer em Dubai

A artista e designer Dina Saadi tinha acabado de abrir um estúdio na capital síria quando os manifestantes antigoverno começaram a tomar as ruas, em 2011. Da janela de seu escritório, no centro de Damasco, ela assistiu à dura repressão aos ativistas.

O timing para começar um negócio não poderia ter sido pior. “Eu tinha alguns bons clientes, mas aí a revolução começou”, conta. Quando recebeu a oferta de uma vaga de diretora de arte em Dubai, Saadi aproveitou a chance e foi embora.

Ela está em Dubai há três anos. “Primeiro você sai do lugar que conhecia, depois é obrigado a descobrir tudo do zero. Era duro viver o dia a dia de quem ficou na Síria e ainda me concentrar no trabalho”, lembra.

Em seu segundo ano, Saadi encontrou um novo emprego com um salário melhor e conseguiu trazer sua família, que agora já está estabelecida.

Atualmente, ela se dedica à pintura e espera abrir estúdio de design de joias. “Posso finalmente fazer o que gosto e não o que preciso fazer para sobreviver”, afirma. “Tenho economias e finalmente sinto que sou o que sempre quis ser.”

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Técnico em informática em Amã (Jordânia)

Direito de imagem Mohanad Ghashim
Image caption Ghashim abriu empresa em Amã e hoje emprega mais de 25 pessoas

Quando o técnico em informática Mohanad Ghashim viajou para a Jordânia para um treinamento de dois meses, em dezembro de 2012, ele esperava voltar e retomar o trabalho em Aleppo.

No entanto, as notícias sobre a violência cada vez mais intensa na Síria o fizeram perceber que sua cidade já não era mais um lugar seguro. Decidiu, então, se mudar para Amã e começar do zero.

Ghashim acredita que a melhor maneira de lidar com a mudança foi projetar o futuro. “Decidi que estava começando uma nova vida e aceitei a realidade. Isso me ajudou a me adaptar mais facilmente”, diz.

Ele encontrou um sócio e abriu a empresa de e-commerce ShopGo, que já conta com mais de 25 funcionários. É ele também quem administra operações em Dubai e em Londres.

Agora que sua carreira está de volta aos trilhos, ele tenta ao máximo ajudar outros sírios na Jordânia, contratando-os ou colocando-os em contato com outras empresas de seu setor.

Desenvolvedor de celulares em Istambul (Turquia)

Direito de imagem Zaher Ghaibeh
Image caption Ghaibeh manteve empresa em Damasco até conflito derrubar energia e internet

Zaher Ghaibeh, que saiu da Síria há três anos, já tinha tentado começar uma vida nova no Egito antes de chegar à Turquia.

Dono de uma empresa de desenvolvimento de sites em Damasco, Ghaibeh manteve o negócio funcionando mesmo depois do início da guerra civil. Mas em abril de 2012, “tudo começou a ruir”. A internet ficou bem mais lenta, as quedas de energia eram frequentes e, por causa das sanções econômicas aplicadas ao governo sírio, ele não podia mais receber remessas de dinheiro de clientes estrangeiros.

Desde que deixou a Síria, Ghaibeh trabalha para uma empresa britânica de desenvolvimento de celulares.

“Eles confiaram em mim, mesmo eu não estando em uma situação estável. Me deram uma chance e eu provei que era possível cumprir com as expectativas”, afirma. “A maioria dos sírios precisa dessa chance. Quando eles a têm, provam do que são capazes.”

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Analista financeira em Istambul

Direito de imagem John Wreford
Image caption De origem palestina, Abu Zahra já conhecia a realidade dos refugiados na Síria

Quando os confrontos internos da síria se intensificaram, em 2012, a executiva do mercado financeiro Hadil Abu Zahra notou sinais preocupantes. Cada vez mais pessoas sacavam seu dinheiro e trocava-o por dólares no mercado negro. Outras simplesmente pararam de pagar suas dívidas. “Os cidadãos e as empresas não tinham esperanças de que a confusão acabasse”, diz.

Ela, então, decidiu sair da Síria para tentar fazer um mestrado no exterior, indo primeiro para o Líbano e depois para a Turquia. Sua família, refugiados palestinos de 1948 que passaram a maior parte de suas vidas no campo de Yarmouk, nos arredores de Damasco, permaneceu.

Já em Istambul, percebeu que teria dificuldades para conseguir um visto para outro país. Desistiu do curso e se dedicou a aprender turco. Dez meses depois, já dominava o idioma. As portas, então, começaram a se abrir.

Hoje, Abu Zahra trabalha como analista de investimentos no Banco Mundial. “Estou economizando para fazer minha pós-graduação, e estou muito feliz”, conta, apesar de admitir que ainda não se sente em casa na Turquia.

“É claro que tenho saudades da Síria, mas se eu voltar, vou fazer o quê? Os lugares que eu frequentava foram destruídos e meus amigos foram embora”, afirma.

Pesquisador em Beirute (Líbano)

Direito de imagem Brooke Anderson
Image caption Cirurgião há 20 anos, Fouad Mohamad foi para o Líbano para dar aulas

Fouad Mohamad Foud trabalhava como cirurgião geral há 20 anos em Aleppo quando sua cidade se tornou violenta demais para ele e sua família.

Em 2013, ele conseguiu um emprego como professor de pesquisa em saúde pública na Universidade Americana de Beirute, no Líbano. Sua mulher, engenheira, e os dois filhos adolescentes, se uniram a ele dois meses depois, relutantes em deixar para trás a bela casa histórica que a família tinha acabado de comprar e reformar.

“Tive sorte em conseguir um trabalho, porque muitos sírios não têm tido sucesso nisso por causa das leis de cada país”, afirma. Ele espera que as nações do Oriente Médio possam reconhecer como os sírios podem contribuir positivamente, e relaxem as restrições sobre os vistos de trabalho.

“As pessoas só se concentram no fardo dos refugiados, mas ninguém fala da classe média. O que eles podem fazer com suas capacidades? E os bens e serviços que eles consomem?”, lembra. “Sem uma chance de contribuir, muita gente vai perder as esperanças. Muitos podem acabar marginalizados. É uma questão de autoestima.”

Ele se inquieta quando pensa que seu contrato acaba dentro de cinco anos, apesar de ter saudades da Síria. “Agradeço por ter tido essa oportunidade, ainda mais conhecendo outros sírios qualificados que não tiveram a mesma sorte. Mas o futuro está incerto por enquanto”, conclui.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital.