Qual o impacto da visita de Obama na África?

Obama em discurso na União Africana, na última terça-feira (AP) Direito de imagem AP
Image caption Obama levou também 'mensagens incômodas' a líderes africanos

O momento em que o presidente dos EUA, Barack Obama, desceu de seu Air Force One em solo queniano, na semana passada, foi visto por muitos como uma oportunidade de, usando as palavras do americano, "pedir ao mundo que mude sua abordagem em relação à África".

Em geral, o continente africano depende menos de assistência estrangeira hoje em relação a décadas passadas. E muitos países africanos são cada vez mais vistos como parceiros globais, e não como agentes minoritários na geração de riqueza, no combate ao terrorismo e às mudanças climáticas.

Obama - cujo tour pela África terminou nesta quarta-feira - deixou claro que tal parceria exige reconhecimento, dignidade e respeito.

O presidente americano argumentou que, em troca, países africanos precisam abraçar os princípios da igualdade, meritocracia e oportunidade para todos - mesmo que isso desafie antigas tradições ou o "jeito antigo de fazer as coisas".

As 54 nações da África são muito ricas em diversidade. Ao mesmo tempo, é um continente de potencial e contradições.

A marca África

Vejamos, por exemplo, o Sudão do Sul: o país mais novo do mundo tem apenas quatro anos de existência e já está paralisado pela guerra civil.

Obama se queixou que, após 18 meses de hostilidades, os líderes do país não demonstraram "nenhum interesse em evitar o sofrimento de sua população".

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Simultaneamente às reuniões que realizou na Etiópia, Obama elevou a pressão sobre aliados regionais e pediu que um acordo de paz seja assinado até 17 de agosto - caso contrário, sanções internacionais podem ser impostas.

Na fronteira com o Sudão do Sul estão o Quênia e a Etiópia, em contrapartida, países deliberadamente escolhidos por Obama para sua turnê africana porque mostram o potencial dinâmico do continente.

Em temas como segurança global e comércio, Obama endossou a chamada "marca África", que segundo ele está se tornando uma força a ser reconhecida, à medida que tropas africanas são cada vez mais convocadas para conter conflitos regionais ou ameaças extremistas - dos militantes do Al-Shabab na Somália ao coflito sectário na República Centro-Africana.

O avanço na cooperação com os EUA será recompensado com laços mais estreitos em inteligência e treinamento. E tal relacionamento só tende a "se aprofundar" com os anos, disse o presidente.

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Image caption Americano falou sobre o 'poder da juventude' e instou países a estimular empreendedorismo juvenil

Em comércio e empreendedorismo, Obama falou do "poder da juventude", instando líderes locais de ambos os países a criar oportunidades para jovens aproveitarem o progresso econômico.

Ele sabe que a juventude é como uma bomba-relógio demográfica - e milhões de jovens desempregados não beneficiariam nem a economia nem o processo de paz continental.

Mensagens incômodas

O bem-sucedido empresário queniano Vimal Shah disse à BBC que a mensagem principal que ficou da visita de Obama é que a África precisa assumir o controle do cabo de guerra travado entre EUA e China no continente.

"É importante controlarmos nosso próprio destino e nos tornarmos confiáveis com governança e investimentos", opinou, acrescentando que Obama restaurou a filosofia do "somos capazes" existente no Quênia.

Mas o presidente dos EUA também usou o tour africano como oportunidade de fazer pronunciamentos incômodos. Tanto que chamou a atenção a ausência de diversos chefes de Estado nos discursos feitos na sede da União Africana em Adis Abeba.

Com pouco mais de um ano sobrando em seu mandato, Obama sabia que podia falar com mais dureza, apesar das sensibilidades diplomáticas (como o fato de o vice-presidente queniano William Ruto enfrentar acusações no Tribunal Penal Internacional e a preocupação com as liberdades democráticas na Etiópia).

Quando Obama declarou aos líderes etíopes que opositores políticos não podem ser tratados como terroristas e que jornalistas não devem ser detidos, milhões de pessoas escutaram.

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Ao falar tão abertamente, Obama pode, com seu discurso, "empoderar" jovens e estimulá-los a fazer o mesmo - sobretudo em países onde a liberdade de expressão não é garantida.

No entanto, a cada crítica efetuada, Obama trazia também aliviava o golpe: disse que suas palavras eram ditas como "amigo", e não como um forasteiro julgando assuntos alheios.

Assim, para quenianos como Ory Okolloh, que é especialista em governança e tecnologia, a fala de Obama foi revigorante, e a turnê do presidente americano o fez pensar "no que poderíamos ser ao darmos o nosso melhor".

Muitos observadores temiam que o combate ao extremismo ofuscasse as mensagens de governança de Obama e que sua visita desse credibilidade a Estados mal-governados.

Mas Obama também levantou críticas a governantes que prolongam sua estadia no poder, citando o Burundi como exemplo de país onde líderes "se sentem acima da lei".

Ao mesmo tempo, grupos de direitos humanos creem que o sucesso de Obama só ocorrerá se mudanças políticas de longo prazo surgirão na África.

"Caso contrário, a visita dele pode ter simplesmente endossado a liderança de dois países com situação preocupante em termos de direitos humanos", disse Leslie Lefkow, vice-diretora para a África da ONG Human Rights Watch.

Obama afirmou que os EUA não carregarão consigo aliados africanos que se distanciem do caminho da democracia e disse esperar que outros países do continente façam o mesmo, por intermédio da União Africana - órgão criticado por muitos por ficar restrito a discursos inflamados.

Talvez o teste do êxito de Obama seja justamente como o organismo responderá à tensão crescente no Sudão do Sul.