Do folclore de camponeses à TV: como o vampiro conquistou nossa imaginação

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Image caption 'The Strain' adapta elementos da fórmula vampiresca de Stoker

No fim da primeira temporada do seriado americano The Strain, exibida pelo canal a cabo FX, o grande anti-herói – um dos mais velhos vampiros do mundo, que atende pelo nome de O Mestre – consegue escapar dos humanos "bonzinhos" mais uma vez em plena luz do dia, algo que as histórias sobre esses personagens dizem ser impossível.

Nós, espectadores, agora nos perguntamos que outros mitos sobre esses seres fantásticos serão derrubados na próxima temporada.

The Strain se baseia nos romances escritos a quatro mãos pelo roteirista Chuck Hogan e pelo cineasta mexicano Guillermo del Toro, especialista em cinema de ficção científica de terror.

A série faz uma elegante atualização de Drácula, de Bram Stoker, inserindo novidades aqui e ali: em vez da chegada do Conde Drácula a Londres a bordo de um navio-fantasma, temos um avião lotado de mortos-vivos que aterrissa misteriosamente em Nova York; ou enquanto o personagem de Stoker é perseguido pelo caçador de vampiros Van Helsing, temos agora o mal-humorado Abraham Setrakian, que conheceu o Mestre em um campo de concentração nazista durante a Segunda Guerra Mundial; e no lugar da irmandade cristã que se reúne para expulsar o Mal, temos um grupo de imigrantes típicos nova-iorquinos, formado por homens e mulheres de várias origens e credos.

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The Strain é apenas a mais recente versão da fórmula dos vampiros estabelecida pelo romance de Bram Stoker, lançado no ano do Jubileu de Diamante da rainha Vitória, em 1897.

A primeira adaptação realmente famosa dessa história foi o filme Nosferatu, de 1922, uma obra-prima do cineasta expressionista F. W. Murnau.

Crenças populares

Na época, a viúva de Stoker processou o estúdio por quebra de direitos autorais. Mas Drácula não é a única fonte de mitos sobre vampiros. The Strain deve muito de seu sucesso a uma série de fábulas ao redor desses seres que datam de quase 400 anos atrás.

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Image caption 'Nosferatu', de 1922, é uma obra-prima do cineasta expressionista F. W. Murnau

A palavra "vampyre" apareceu pela primeira vez em inglês no semanário literário London Journal em 1732. O estranho termo tinha sido transportado diretamente de relatos conflitantes sobre um incidente bizarro ocorrido em um dos rincões da Monarquia de Habsburgo (que englobava os territórios da Áustria e de alguns atuais países do Leste Europeu).

A história que correu naquela época foi de que moradores do vilarejo rural de Medreyga, no interior da Hungria, assustados com uma misteriosa praga que deixava seus animais sangrando até a morte, pediram às autoridades que desenterrassem o corpo de um vizinho falecido um mês antes, chamado Arnold Paul.

Os camponeses acreditavam que era o cadáver quem estava ameaçando a comunidade, referindo-se a ele como "vampyre", uma criatura ambivalente, presa entre a vida e a morte.

Ao abrirem a sepultura, o corpo de Arnold Paul não estava decomposto, enquanto sangue fresco corria por sua boca. Os camponeses então enfiaram uma estaca em seu coração, prendendo-o ao caixão, e atearam fogo a tudo.

Poucos anos depois, um monge beneditino, Augustin Calmet, reuniu relatos semelhantes em um grande livro chamado Sobre os Vampiros da Hungria, Boêmia, Morávia e Silésia.

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Não é por acaso que as histórias fantásticas relatadas por simples camponeses vinham dessas regiões do Leste Europeu. O castelo do Conde Drácula na Transilvânia, uma região da atual Romênia, fica em uma das últimas fronteiras da Europa – um local onde a luz do Cristianismo brilhava sem muita força frente à escuridão desconhecida do Império Otomano, do outro lado.

Vampiro aristocrata

No século 18, no entanto, as lendas sobre vampiros passaram a servir para zombar das superstições dos camponeses tidos como ignorantes. Isso dava uma certa segurança à sofisticada sociedade urbanizada, que circulava essas narrativas em seus jornais e revistas, e mostrando que Londres, Paris ou Viena haviam superado a tirania das crenças medievais. As cidades eram repletas de pessoas racionais e bem informadas que não acreditavam mais nessas coisas.

Aos poucos, o folclore camponês deu lugar a histórias mais sofisticadas. O vampiro aristocrático, sedutor e transgressor chegou em 1819 com um conto publicado por John William Polidori com bastante sucesso na imprensa de Londres.

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Image caption The Strain se baseia nos romances escritos a quatro mãos pelo roteirista Chuck Hogan e pelo cineasta mexicano Guillermo del Toro, especialista em cinema de ficção científica de terror

Lord Ruthven era o nome do protagonista de The Vampyre, um monstro vaidoso e lascivo que se alimentava de jovens moças nos mais exclusivos recantos da alta sociedade. O vampiro deixava o folclore popular para se misturar à imagem do aristocrata libertino.

A grande ironia está no fato de Polidori ter sido, por um curto período de tempo, o médico pessoal do mais famoso aristocrata da Grã-Bretanha, Lorde Byron.

O lendário poeta, exilado por causa de sua escandalosa vida sexual, teria passado longas noites em uma casa na Suíça na companhia do casal de escritores Percy e Mary Shelley, nas quais se divertiam contando histórias de terror. Polidori também participava dos jantares, e o vampiro literário nasceu junto com Frankenstein.

Alguns fofoqueiros da época chegaram até a achar que The Vampyre, inicialmente publicado anonimamente, seria uma confissão do lorde. A história aumentou a notoriedade de Byron e fez as vendas dispararem, mas Polidori raramente recebia os créditos.

Ansiedade apocalíptica

A imagem do vampiro como um demônio sórdido que corrompe as pessoas através do sexo e do dinheiro, além de suas mordidas, é duradoura. Foi essa visão que inspirou a série Varney, o Vampiro, nos anos 1840, e que por sua vez serviu de base para a obra de Bram Stoker.

The Strain mostra que o vampiro ainda assombra os centros de poder do mundo. No século 19, era a capital do Império Britânico. Hoje é Nova York, o motor financeiro e político global, onde a invasão do Mestre é facilitada por uma corporação gerenciada por executivos de Wall Street que buscam a vida eterna.

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Image caption Lendário poeta, Byron teria passado longas noites em companhia de Mary Shelley, nas quais se divertiam contando histórias de terror

Na primeira temporada, vimos a cidade americana decair gradualmente para o caos e a barbárie, com seus esgotos tomados pelos mortos-vivos e suas ruas servindo de palco para assassinatos. Em um país que atualmente ferve com tensões raciais e teme as consequências da crescente desigualdade social, é claro que os produtores de The Strain capitalizam uma ansiedade apocalíptica que paira no ar.

Se há uma preocupação com o fato de a série às vezes abusar de uma tradição de demonizar os imigrantes pobres, a trama também reúne um bando multicultural de heróis que vai restaurar uma visão dos Estados Unidos como um caldeirão de culturas.

Essa visão de um grupo de indivíduos diferentes se unindo para derrubar um inimigo implacável também está enraizada nestes séculos de histórias de vampiros.

Talvez por isso as lendas perdurem. Nos cantos escuros onde essas criaturas se escondem, há um rastro de destruição, mas também de esperança.

*Roger Luckhurt é professor de Literatura Contemporânea no Birkbeck College, em Londres, e autor de ensaios sobre personagens fantásticos clássicos

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Culture.