Por que há uma crise de imigração entre França e Reino Unido?

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Image caption Governo francês estima que 3 mil imigrantes vivam em Calais

Os governos da França e do Reino Unido se encontram sob crescente pressão para enfrentar a crise migratória em Calais, na França, de onde milhares de pessoas tentam diariamente cruzar o canal da Mancha para chegar à Inglaterra.

A situação se agravou nesta semana depois que um homem morreu enquanto pelo menos 1,5 mil imigrantes tentavam atravessar o túnel sob o Canal da Mancha.

As tentativas de chegar ao Reino Unido ocorrem de diversas formas: enquanto alguns tentam entrar em embarcações, outros já chegaram até a pegar uma carona sem autorização em carros particulares cruzando o canal em balsas.

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Mais recentemente, as investidas se deslocaram para o Eurotúnel. Os migrantes tentam se esconder em caminhões que pegam a via submarina que faz a ligação entre França e Inglaterra, ou saltar as cercas de seguranças para se esconder nos trens que atravessam o túnel.

São, principalmente, incursões noturnas, com grupos de centenas de migrantes tentando furar a segurança ao mesmo tempo.

A BBC responde abaixo questões que ajudam a entender a crise.

Desde quando isso ocorre?

Apesar de o número de migrantes estar atualmente em um ponto alto, o fenômeno não é novo.

Em 1999, foi aberto em Calais o polêmico campo de refugiados de Sangatte, que atraiu milhares de aspirantes ao asilo e, também, traficantes de pessoas.

Seu fechamento, em 2001 e 2002, por ordem do então ministro do Interior francês Nicolás Sarkozy, provocou distúrbios. Desde então, os migrantes continuam chegando a Calais, onde construíram acampamentos improvisados perto do porto.

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Image caption Acampamentos de migrantes são chamados de 'selva'

As autoridades francesas estimam que cerca de 3 mil pessoas vivem atualmente nos campos conhecidos como "a selva". Mas há estimativas bem mais altas.

O tema voltou a ser notícia em setembro do ano passado, depois que um ferry com destino ao Reino Unido foi ocupado por 235 imigrantes sem documentação.

O Ministério do Interior britânico calcula que os agentes fronteiriços de seu país e as autoridades francesas, juntas, impediram mais de 39 mil tentativas de cruzar o canal ilegalmente entre 2014 e 2015, mais que o dobro do número do ano anterior.

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No Eurotúnel, foram bloqueadas 37 mil tentativas desde janeiro passado, segundo o governo britânico.

A Câmara de Comércio de Calais é a encarregada da segurança do porto. No último trimestre do ano passado, o governo britânico prometeu mais de US$ 19 milhões nos próximos três anos para ajudar a França a lidar com o problema.

No início deste mês, o Reino Unido anunciou cerca de US$ 3 milhões adicionais para estabelecer em Calais uma nova zona de segurança para os caminhões que cruzam o canal.

Semanas depois, confirmou que daria mais US$ 11 milhões para medidas de melhoria da segurança em Calais e na entrada do túnel.

O Reino Unido também está enviando uma cerca, conhecida como "National Barrier Asset", para ser colocada ao redor do terminal em Coquelles.

O porto é protegido por uma cerca de cinco metros coberta com arame farpado e câmeras de segurança. As portas e a área externa são vigiadas por agentes fortemente armados da polícia antidistúrbios da França.

O Eurotúnel já gastou mais de US$ 14 milhões em segurança nos primeiros seis meses de 2015, incluindo o dinheiro para cercas, câmeras, detectores infravermelhos e guardas adicionais.

O que a polícia francesa está fazendo?

A polícia francesa foi muito criticada por tirar os migrantes dos caminhões, conduzi-los a poucos quilômetros de distância e os liberar, o que permite que voltem a Calais.

Mas muitos imigrantes ilegais são detidos. Estima-se que foram mais de 18 mil no primeiro semestre de 2015.

O problema, segundo a polícia, é que eles são muitos para que todos sejam detidos.

A polícia também afirma que seu foco na rodovia que conduz ao Canal da Mancha é a segurança, e por isso tirar pessoas desta via é a prioridade. Em todo caso, cerca de 120 policiais adicionais foram empregados em Calais para fazer frente ao volume de imigrantes.

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Image caption Não há números oficiais sobre número de migrantes que chega ao Reino Unido

As autoridades francesas também estão tentando impedir que migrantes continuem cruzando ilegalmente sua fronteira com a Itália, onde acredita-se que mais de 60 mil pessoas tenham chegado de barco da África apenas este ano.

Por que o Reino Unido é o objetivo?

A situação em Calais é parte de uma crise maior de migração na Europa, causada em grande medida pelo deslocamento de pessoas de países em guerra como Síria, Afeganistão e Eritreia, assim como o norte da África.

Muitos querem solicitar asilo no Reino Unido. Outros querem entrar no país de forma incógnita e permanecer como trabalhadores ilegais.

Natacha Bouchart, prefeita de Calais, diz que os imigrantes ilegais veem o Reino Unido como um bom local para receber benefícios sociais e um lugar melhor para encontrar emprego que a França - apesar da existência de estudos que não comprovam isso.

A Cruz Vermelha britânica diz que a maioria dos migrantes quer cruzar o canal porque acredita que há mais chances de encontrar emprego no Reino Unido ou porque fala inglês e quer usar o idioma.

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Outros têm família no Reino Unido, ou têm a impressão de que há melhores condições de vida e de educação no país.

Mas o Reino Unido não é o principal destino dos migrantes na Europa.

Segundo as estatísticas da Eurostat, a Alemanha foi o país que mais recebeu pedidos de asilo em 2014 (quase 203 mil), seguida por Suécia, Itália, França, Hungria e, só depois, Reino Unido.

De onde vêm os imigrantes?

O representante da França no Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (Acnur), Philippe Leclerc, disse que a maioria dos migrantes em Calais foge da violência de países como Afeganistão, Eritreia, Síria ou Somália.

Segundo dados da Acnur, a Eritreia encabeça a lista dos países de origem de pessoas que solicitaram asilo no Reino Unido entre janeiro e março de 2015, seguida por Paquistão e Síria.

Quantos imigrantes conseguem chegar ao Reino Unido?

Ninguém sabe. A ministra do Interior britânica, Theresa May, admitiu que "um número" de imigrantes consegue entrar, mas não deu cifras concretas.

O Ministério do Interior diz que não tem dados oficiais ou estimativas sobre o número de migrantes que cruzam ilegalmente o Canal.

Houve, por exemplo, 25.020 pedidos de asilo entre abril de 2014 e março de 2015, mas os dados não discriminam os pontos de entrada. Dessa forma, não é possível saber quantas dessas pessoas que solicitaram asilo vieram por Dover, porto de entrada no Reino Unido quando se cruza o Canal da Mancha.

Um porta-voz do Ministério do Interior disse que isso não era feito por razões de segurança.

As autoridades do condado de Kent também dizem que não têm informações oficiais, mas a autoridade máxima do local diz que o departamento de serviço social se encontra sob uma "enorme pressão" devido à quantidade de crianças não acompanhadas solicitando asilo assim que chegam ao porto de Dover.

O condado cuida de mais de 600 menores de 18 anos, de acordo com o líder da Câmara, Paul Carter.

O que é a operação Stack?

A Operação Stack é um procedimento de emergência utilizado pela polícia de Kent para estacionar veículos de carga na rodovia, transformando-a essencialmente em um estacionamento gigante de caminhões.

É utilizada desde 1996 cada vez que os serviços de cruzamento do canal são interrompidos, geralmente como resultado da atividade de migrantes, mau tempo ou greve.

A rodovia é fechada em três fases, de acordo com a quantidade de espaço necessária. Pode permanecer assim durante dias, com milhares de caminhões com destino a Calais parados.

Entre 1996 e o final de 2007, a operação ocorreu 95 vezes, o que gerou interrupções durante 145 dias.

Desde 2007, ela foi usada de uma forma intermitente, mas raramente por mais de algumas horas e mais de dois dias por vez.

Porém, entre junho e julho deste ano, seu uso "não tem precedentes", de acordo com a Associação de Transporte de Carga.