Em primeira mensagem de áudio, novo líder do Talebã promete continuar luta

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Image caption Enquanto mulá Omar preferia mensagens por escrito, Mansour já divulgou sua primeira mensagem em áudio

O novo líder do grupo radical Talebã, mulá Akhtar Mansour, divulgou sua primeira mensagem de áudio prometendo continuar a luta e pedindo união no grupo.

Mansour era o vice de mulá Omar, que comandou o movimento por duas décadas e cuja morte foi oficialmente confirmada na quinta-feira.

A mensagem de Mansour afirmou que os combatentes do Talebã devem se unir pois "divisões em nossas fileiras apenas vão agradar nossos inimigos".

O novo líder do Talebã também afirmou que o grupo "vai continuar a jihad até instaurarmos um governo islâmico no país".

A gravação de 30 minutos, na qual é possível ouvir um bebê chorando em alguns momentos, foi divulgada para jornalistas pelo porta-voz do Talebã Zabiullah Mujahid, neste sábado.

Para o repórter do Serviço Mundial da BBC Dawood Azami, a primeira mensagem pública de Mansour indica que ele vai ser um líder diferente do mulá Omar, um homem "mais recluso" que preferia mensagens por escrito.

"A gravação é de um discurso que ele fez para uma reunião de, aparentemente, dezenas de seus partidários, depois de sua indicação (como líder do grupo) na quinta-feira", afirmou o jornalista.

Um porta-voz do Talebã disse à BBC que Mansour não foi indicado por todo o grupo.

"Tendo que enfrentar a oposição à sua indicação de vários nomes da alta hierarquia do Talebã, o novo líder agora está concentrado em consolidar seu poder e estabelecer sua autoridade", acescentou Azami.

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Trata-se apenas da segunda pessoa a liderar o grupo: o mulá Omar fundou o Talebã durante a guerra civil afegã, no início dos anos 1990, e o comandava desde então.

O jornalista nota que Mansour pediu união várias vezes durante este discurso e seu objetivo primário é acalmar as discordâncias dentro do Talebã.

"Ele também está tentando se apresentar como uma pessoa tolerante, clemente e conciliadora, cujas decisões serão baseadas na Sharia islâmica. E parece que não há uma grande mudança de política em relação ao passado", afirmou.

Azami também destaca que, no discurso, ele parece relaxado e não parece estar lendo anotações.

Divisão?

Image caption A morte do recluso mulá Omar dificulta ainda mais as negociações de paz com o Talebã

A morte do mulá Omar se tornou um entrave nos diálogos de paz entre o Afeganistão e os insurgentes. Uma segunda rodada de negociações prevista para a sexta-feira foi adiada.

O Paquistão, que seria o mediador do processo, disse que o adiamento foi solicitado pela liderança do Talebã em meio às incertezas devido à morte de Omar.

O mulá Mansour já é considerado, há tempos, o líder interino do Talebã.

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Alguns membros do Talebã afirmaram que mulá Mansour foi imposto ao grupo por alguns círculos partidários do Paquistão. Mansour é conhecido por apoiar as negociações de paz.

Mas, nesta mensagem de audio, Mansour rejeitou estas negociações, afirmando que elas são apenas "campanhas de propaganda do inimigo".

O grupo parece estar dividido pois pelo menos uma facção do Talebã preferia que o mulá Omar fosse substituído pelo filho dele.

Outro porta-voz do grupo, mulá Abdul Manan Niazi, afirmou que aqueles que elegeram Mansour não seguiram as regras.

"Segundo a lei e os princípios islâmicos, quando um líder morre, uma Shura (conselho) é convocada, então o líder é apontado", afirmou.

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