Rio 2016: Vidas arruinadas e negócios impulsionados a um ano para a Olimpíada

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Image caption Enquanto Rosilene e Rosinaldo (à esq.) foram prejudicados, Sabina e Dario devem faturar com evento

Apesar da motivação em comum – a busca por uma vida melhor – o paraibano Rosinaldo Luiz de Mendonça, de 50 anos, e o gaúcho Dario Schaeffer, de 70 anos, encontraram destinos muito diferentes ao se mudarem para o Rio de Janeiro e terem suas vidas impactadas pelos Jogos de 2016, cuja abertura está marcada para daqui a exatamente um ano.

Para Mendonça, os preparativos olímpicos significaram a perda da casa própria, por conta das obras do BRT Transcarioca (corredor expresso de ônibus que liga o Aeroporto Internacional Tom Jobim ao Parque Olímpico, na Barra), além dos traumas amargados pela família durante um dramático processo de remoção de parte da favela do Tanque, na Zona Oeste do Rio.

Já do outro lado da cidade, na comunidade da Babilônia, na Zona Sul, a pousada de Schaeffer está praticamente lotada para o período das Olimpíadas, e ele se diz satisfeito com o impulso que o grande evento trouxe aos negócios e à infraestrutura do Rio, embora lamente efeitos negativos e seja crítico quanto a alguns investimentos públicos.

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Exemplos das transformações vividas pela cidade desde que os preparativos para o megaevento se intensificaram, e as histórias contrastantes ilustram os efeitos positivos e negativos que os Jogos têm trazido aos cariocas.

À BBC Brasil, Rosinaldo e Dario deram detalhes destes impactos e revelaram expectativas para o futuro após a Olimpíada. Veja os principais trechos dos depoimentos:

Rosinaldo Luiz de Mendonça

Nasci na Paraíba e me mudei para o Rio há 32 anos. Aqui conheci minha mulher, Rosilene, e constituí minha família, com meus três filhos: Juan, de 20 anos, Ravel, de 19 anos, e Roger, o caçula, com nove anos.

Em 2008, depois de muito tempo na batalha como pintor, profissão que exerço há 30 anos, comprei um terreno por R$ 15 mil na favela do Tanque, onde consegui construir uma casa. Era pequena, com dois quartos, sala, cozinha e banheiro, mas depois de anos de aluguel e dos R$ 35 mil investidos na construção, nos mudamos mesmo antes de acabar a obra. Era favela, mas muito tranquila, não se passava medo ali.

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Depois de cinco anos, em 2013, começaram os boatos de remoção por conta da obra de um BRT, e foi tudo muito rápido. Meu filho Juan é especial, e tinha convulsões com o barulho dos tratores demolindo as casas vizinhas. Foi uma sensação massacrante, humilhante.

Resisti enquanto pude, porque a indenização oferecida inicialmente foi de R$ 18 mil. Fui forte, apesar da pressão e das ameaças que a gente recebia. Diziam que viriam com liminar, que a obra passaria de qualquer jeito, e que trariam até o Exército se fosse preciso para tirar a gente à força.

Acabei aceitando R$ 40 mil para sair, mas teve gente que saiu até por R$ 12 mil. Mesmo depois de eu concordar, começaram a demolir minha casa com meus filhos e meus móveis dentro. Foi muito revoltante. "Meu filho pode ser atleta olímpico", eu gritava, já que o Ravel tinha chances de se classificar para o vôlei de praia na época.

Os R$ 40 mil foram menos do que os R$ 50 mil que eu tinha investido. Só deu para comprar uma casinha de um quarto no alto do Morro da Pendura Saia, perto aqui do Tanque. Foi ruim demais, terrível. Era tiroteio constante, e eu quase fui atingido por uma bala perdida. Me arrepio só de lembrar.

Ficamos ali por dois anos e três meses, até uma moça alugar nossa casa e a gente achar outra, de um quarto, no Conjunto Bandeirantes, também conhecido como Conjunto Cesar Maia, na Zona Oeste. Estamos aqui há dois meses, e a vida é muito difícil. Voltei a pagar aluguel, de R$ 750, e com a crise, a pintura está devagar. Ninguém está querendo construir ou reformar.

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Image caption Removidos para obra de BRT, Rosinaldo e Rosilene perderam casa e voltaram a morar de aluguel

Meu filho Ravel até agora não se classificou para os Jogos, e acabou aceitando uma oferta no Catar, mas ganha muito pouco. Ele passa nove meses lá e três meses aqui, de férias, e nem pode nos ajudar muito.

A gente fica bem chateado. Sei que a Olimpíada pode favorecer muito os brasileiros, mas meu sonho se acabou. Se eu tenho raiva dos Jogos? Não, não tenho. Decidimos passar uma borracha e seguir em diante. Minha expectativa de futuro depois das Olimpíadas é poder comprar uma casinha num lugar digno de novo.

Quem sabe alguém leia esta reportagem e queira me ajudar. Até lá, eu sigo batalhando. Esse foi o impacto que os Jogos deixaram para mim. É como um peso que ainda me segue, mas sei que tenho que continuar caminhando.

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Dario Schaeffer

Me mudei para o Rio em 2007, com minha mulher Sabina Stillhard, que tinha conhecido na Suíça dez anos antes. Trabalhei num projeto de intercâmbio durante 16 anos por lá, e nos casamos neste período.

Compramos uma casa na comunidade da Babilônia, e a ideia era, desde o início, abrir uma pousada e um local onde grupos de músicos europeus pudessem fazer seus encontros, seus retiros musicais, e além disso conhecerem o Rio de Janeiro.

Na época a favela não era pacificada, e se vivia sob a ditadura do tráfico. Havia tiroteios, e era uma situação realmente complicada, mas em 2009 foi criada a UPP do Chapéu Mangueira/Babilônia, e as coisas mudaram.

Não estamos numa vila na Europa, é claro, mas a situação melhorou muito. Hoje se pode dizer que os morros Chapéu Mangueira e Babilônia estão entre os lugares mais seguros da cidade.

Fomos a segunda pousada aqui, e quando o Rio foi anunciado como sede das Olimpíadas, em 2009, vimos que estávamos no caminho certo. Já tínhamos planos de investir, mas isso nos impulsionou e nos mostrou que era a direção a seguir. Fizemos uma série de reformas, instalamos um elevador dentro da casa, investimos na infraestrutura, e estamos tendo retorno.

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Image caption Pousada de Dario e Sabina já está quase lotada para os Jogos, que impulsionaram negócio do casal

Já estou com os nove quartos praticamente todos reservados para o período dos Jogos, e a Copa do Mundo também nos favoreceu. Encaramos os grandes eventos como oportunidades, e por aqui muitos têm sentido esse reflexo positivo. Sejam pousadas, restaurantes, pequenas lojas, ou negócios de turismo, muita gente sente que há mais turistas e movimento.

Temos muito público estrangeiro entre os clientes, e para eles o boca a boca é fundamental. Muitos estão vindo atraídos pela realização dos grandes eventos e a publicidade em torno do Brasil e do Rio nos últimos anos.

Vejo que a cidade está se transformando. Há uma melhora no transporte público, com os BRTs, VLT e a nova linha de metrô. Há obras de infraestrutura, como a renovação da região do porto e a Vila Olímpica. Mas a gente se pergunta, claro, se esse investimento não poderia também ter sido feito em áreas como saneamento básico, na melhoria da situação da Baixada Fluminense, ou no fim da poluição das águas da Baía de Guanabara e da Lagoa Rodrigo de Freitas.

As Olimpíadas impulsionaram nossos negócios e foram uma grande oportunidade, sem dúvida alguma. Mas sei que é um processo que beneficia muito as regiões centrais, e a periferia foi esquecida, mais uma vez. Aí temos que ser críticos.

Nossa expectativa após as Olimpíadas é de que haja realmente um legado para a cidade, para o esporte, e que o efeito positivo sobre os negócios continue, com uma boa imagem do Rio de Janeiro sendo levada pelos turistas.

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