Saiba por que não houve aperto de mão após acordo nuclear com Irã

Encontro no Irã (Foto: Escritório da Presidência do Irã/AP) Direito de imagem AP
Image caption Representantes europeias Helga Schmid (à esq.) e Federica Mogherini se encontram com o presidente do Irã, Hassan Rouhani, em 28 de julho

Nos meios diplomáticos, quando se chega a um entendimento, é praxe apertar as mãos pala selar o acordo.

Mas isso não aconteceu em 14 de julho, quando o histórico acordo nuclear foi alcançado entre o Irã e o P5+1 – grupo de países que reúne os cinco países membros do Conselho de Segurança da ONU (EUA, França, Reino Unido, Rússia e China) e a Alemanha.

A razão para isso foi o número sem precedentes de mulheres diplomatas que orquestrou a negociação para o histórico acordo nuclear entre Estados Unidos e Irã – que ainda precisa ser aprovado pelo Congresso americano.

Por causa dos rígidos costumes religiosos em seu país, não é permitido aos negociadores iranianos apertarem as mãos das interlocutoras.

Comando

Três mulheres ocidentais – duas europeias e uma americana – tiveram papel central para que o acordo global para frear o programa nuclear do Irã fosse fechado.

Federica Mogherini, chefe da diplomacia da União Europeia e ministra de Relações Exteriores da Itália, comandou a parte política das negociações.

Ela assumiu o posto em novembro de 2014, da baronesa britânica Catherine Ashton – outra mulher considerada fundamental para a construção de um bom relacionamento com o Irã.

Mogherini enfrentou críticas quando assumiu a chefia da diplomacia, muitos disseram que era muito nova e inexperiente para a função. No momento crucial, porém, ela acabou conquistando uma reputação de negociadora firme.

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Image caption Sob desconfiança, Federica Mogherini chefiou diplomacia europeia nas conversas com o Irã

A sua auxiliar, a alemã Helga Schmid, ficou conhecida por sua imensa bagagem técnica, e é considerada por colegas como a “cabeça” do processo.

Segundo diplomatas ocidentais, foi Schmid quem comandou as negociações que resultaram no acordo e seus cinco anexos. Assim como Mogherini, Schmid é bastante conhecida no meio diplomático e tem anos de experiência em negociações.

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Quem representou os americanos na mesa foi Wendy Sherman, primeira mulher a se tornar subsecretária de assuntos políticos nos EUA e veterana em negociações nucleares.

Ela estava na força-tarefa criada pelo governo Bill Clinton para discutir a política nuclear da Coreia do Norte, e lidera a equipe nuclear americana nas conversas com o Irã desde 2011.

Ineditismo

Até as últimas discussões com o Irã, negociações com três mulheres encabeçando equipes diplomáticas eram algo inédito.

“Até mesmo dentro da União Europeia não é frequente ver mais mulheres na mesa do que homens”, disse Mogherini à BBC.

“Isso era algo novo, mas eu pressentia que ajudaria.”

Ela afirmou que, quando os homens desviavam o debate, partiam para tangentes históricas ou enveredavam por discussões sobre quem cedeu mais, as mulheres tratavam de trazê-los de volta ao presente.

“O fato de haver mais mulheres do que homens em posições-chave na mesa nos ajudou a sermos específicos e pragmáticos o tempo todo.”

A República Islâmica do Irã, porém, tem regras severas no que diz respeito às interações entre homens e mulheres – costumes que diplomatas seguem independentemente de estarem ou não no país.

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Image caption Antes de atuar junto ao Irã, Wendy Sherman trabalhou na política nuclear da Coreia do Norte

“Nós não apertamos as mãos, não podíamos nos tocar em qualquer circunstância”, afirmou Sherman.

Essa prática, porém, não era incomum para ela. “Cresci em Baltimore (cidade dos EUA, a pouco mais de três horas de Nova York), onde há uma grande comunidade de judeus ortodoxos e ocorre o mesmo. Mas acredito que nós todos aprendemos a conversar sem apertar as mãos e a entender uns aos outros. Tanto que chegamos a um acordo.”

Ela afirma ainda que ser mulher não era uma barreira na sala de negociação. “Quando sentava de frente para os iranianos, eu era os Estados Unidos da América. Embora como mulher, consiga dizer algumas coisas sem parecer dura, quando sou firme isso acaba causando uma boa impressão, pois é inesperado.”

No decorrer dos anos, ela acabou conhecendo bem seus interlocutores iranianos, ao ponto de frequentemente compartilharem vídeos e histórias de suas famílias.

Mogherini afirma ter percebido uma desconfiança, mesmo em seu próprio continente. “Setores ocidentais e a da sociedade europeia duvidaram que mulheres fossem capazes ou pudessem ser respeitadas ao assumir uma posição importante”, disse.

“Isso diz muito sobre o fato de que, em nossas próprias sociedades, às vezes ainda temos de trabalhar para transmitir a mensagem de que as mulheres podem à frente de negociações e em altos cargos políticos com a mesma credibilidade que homens, e em alguns casos até mais.”

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Image caption Helga Schmid é considerada a "cabeça" e tida como quem comandou, no fim, as negociações

Apesar do avanço da liderança feminina, nem todos estão felizes com a presença de mulheres. Sherman disse que chegou a alfinetar seus colegas com o assunto. “Algumas equipes ainda são compostos apenas por homens, e eu espero que isso mude”, afirmou.

Quando jornalistas pediram mais detalhes, ela foi diplomática. “Eles sabem quem são, que têm ouvido isso de mim e que precisam mudar suas atitudes.”

Agora, o debate é sobre como e quando o acordo com o Irã será implementado – e o primeiro passo foi dado durante uma recente viagem de Mogherini e Schmid a Teerã.

As mulheres que tornaram o acordo nuclear uma realidade ainda têm muito trabalho pela frente – será que conseguirão levá-lo adiante?

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