Líder curdo acusa Turquia de 'proteger' o 'Estado Islâmico'

Delegacia em Istambul cercada após atentado a bomba (Reuters) Direito de imagem Reuters
Image caption Delegacia em Istambul cercada após atentado a bomba; crescem as tensões entre governo e minoria curda

A Turquia teve um dia sangrento nesta segunda-feira, em meio às crescentes tensões entre o governo e os militantes da minoria curda.

Seis membros das forças de segurança foram alvejados em uma série de ataques no país: na Província de Sirnak (sudeste) quatro morreram em um ataque a bomba e um quinto foi morto por tiros disparados contra um helicóptero militar. Em Istambul, um sexto homem foi morto em confrontos após um carro ter explodido.

A maioria dos ataques contra forças de segurança da Turquia tem sido atribuída aos rebeldes curdos do PKK, embora não tenha havido reivindicação oficial por parte do grupo até o momento. Nas duas últimas semanas, mais de 20 membros das forças turcas foram mortos em ataques atribuídos aos rebeldes.

Além disso, também nesta segunda-feira, o consulado dos EUA na cidade foi atacado por dois homens. Um grupo de extrema esquerda reivindicou a última ação.

Por trás dos ataques está uma disputa de poder entre o governo da Turquia e seus grandes adversários: os curdos, que formam a minoria étnica sem Estado próprio mais numerosa do Oriente Médio. São mais de 30 milhões de pessoas, segundo os cálculos mais conservadores, ocupando um território que engloba partes da Turquia, da Síria, do Iraque e do Irã. Os curdos reivindicando mais autonomia.

Em entrevista à BBC, o líder do Partido dos Trabalhadores do Curdistão (PKK), Cemil Bayik, acusou nesta segunda-feira o governo turco de tentar proteger o grupo autodenominado "Estado Islâmico" para impedir que os curdos conquistem mais direitos e territórios.

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"Os turcos alegam estar lutando contra o 'EI', mas estão na verdade lutando contra o PKK", disse Bayik.

"Estão fazendo isso para limitar a luta do PKK contra o 'EI'. A Turquia está protegendo o 'EI'. (O presidente turco Recep Tayyip) está por trás dos massacres do 'EI'. Seu objetivo é interromper o avanço curdo contra (o grupo islâmico)."

O governo nega que a campanha contra o "EI" seja uma desculpa para avançar contra os curdos. Na última quarta-feira, o país afirmou estar planejando uma "ampla batalha" contra os extremistas islâmicos.

Estratégia

A partir de julho, a Turquia entrou militarmente no combate ao "Estado Islâmico", bombardeando alvos extremistas em apoio à coalizão liderada pelos EUA.

Mas os curdos - que já estavam engajados na luta contra o "EI" na Síria e no Iraque - alegam que o governo está aproveitando esses bombardeios para atacar campos do PKK no norte iraquiano.

Segundo analistas, a estratégia da Turquia de combater os curdos poderia ser um elemento-chave para conquistar os votos nacionalistas que o atual governo de Ancara precisa para recuperar a maioria perdida nas recentes eleições de junho.

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Image caption 'Os turcos alegam estar lutando contra o 'EI', mas estão na verdade lutando contra o PKK', diz líder Cemil Bayik

Observadores dizem que os combatentes do PKK têm sido um alvo bem mais frequente do que os do "EI".

Os dois lados - curdos e governo - haviam acordado um cessar-fogo para o duradouro conflito, mas os bombardeios iniciados em julho parecem ter colocado fim à trégua.

Por sua vez, a Turquia, assim como alguns países ocidentais, classifica o PKK de "organização terrorista".

A disputa entre turcos e curdos complica a ofensiva americana contra o "EI" - já que os EUA vinham contando com a ajuda de curdos sírios, aliados dos rebeldes curdos na Turquia.

Volta da violência

Mais de 40 mil pessoas foram mortas desde que o PKK deu início à luta armada contra o governo turco, em 1984.

Nos anos 1990, a organização abandonou sua demanda por um Estado próprio e passou a reivindicar mais autonomia para os curdos.

Em março de 2013, foi acordado o cessar-fogo, mas a violência voltou a eclodir nas últimas semanas, depois que um atentado a bomba atribuído ao "EI" matou 32 pessoas em Suruc, cidade de maioria curda.

O braço militar do PKK matou dois policiais turcos, alegando que eles haviam colaborado com o bombardeio do "EI".

A Turquia diz que o grupo é responsável por diversos outros ataques.

No último domingo, cinco policiais e dois civis foram feridos quando uma bomba foi detonada em uma delegacia de Istambul, segundo a imprensa local. Não está claro quem perpetrou o atentado.

Para Bayik, do PKK, as negociações são "a única opção" para colocar fim ao conflito curdo.

Ele afirmou que o PKK interromperia seus ataques se a Turquia puser fim à sua operação militar e pediu monitoramento internacional para supervisionar um novo cessar-fogo.

O premiê turco, Ahmet Davutoglu, havia dito previamente que os ataques contra o PKK continuarão até que o grupo se renda.