Tsipras renuncia na Grécia: conheça o premiê que tentou desafiar a Europa

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Image caption Alexis Tsipras renunciou ao cargo após sete meses

Assim que foi eleito primeiro-ministro da Grécia, Alexis Tsipras ganhou uma gravata de seda do seu colega, o premiê italiano Matteo Renzi.

O líder esquerdista grego, conhecido por seu estilo "informal", prometeu usar o presente somente quando o problema da dívida do seu país fosse resolvido.

A gravata ainda não apareceu no pescoço do líder político mais jovem da história da Grécia, que se tornou internacionalmente conhecido ao desafiar a política europeia de austeridade.

Sob pressão após seu governo ter sido forçado a aceitar essas duras medidas de austeridade em troca de mais um pacote de resgate, Tsipras renunciou ao cargo nesta quinta-feira, sete meses após assumi-lo. Ele convocou novas eleições, de data ainda não definida.

Tsipras afirmou que tinha o dever moral de recorrer às urnas, agora que um terceiro pacote de resgate à Grécia foi aprovado por credores europeus.

Ele havia sido eleito primeiro-ministro aos 40 anos, em janeiro de 2015, como o principal líder do Syriza, um grupo radical de partidos de esquerda. Ele foi essencial para fazer a coalizão ir de apenas mais um concorrente da eleição ao partido no poder.

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Na sua cerimônia de posse, Tsipras quebrou o protocolo ao se recusar a fazer um juramento religioso dizendo que era contra seus princípios ateus. Depois da eleição, ele continuou a andar por Atenas com sua motocicleta, da mesma forma como fazia antes.

Seu primeiro gesto como primeiro-ministro foi uma visita a um monumento de homenagem a gregos comunistas executados pela ocupação nazista em 1944.

Para um homem cuja vida política começou como um comunista, a visita trazia um simbolismo forte, especialmente porque a Alemanha é a maior credora da Grécia, e o governo grego ainda busca compensações pela ocupação nazista.

Desafio aos europeus

Mês após mês, ele desafiou credores internacionais e testou a paciência dos seus parceiros europeus.

Então, na noite do dia 26 de junho, quando as negociações dos gregos com seus parceiros europeus estavam trancadas, ele convocou uma reunião fora da sala por mensagem de texto no celular.

Tsipras disse que convocaria um referendo sobre o acordo de resgate que sequer estava decidido ainda. Em comunicado televisionado, ele falou sobre o plano de resgate como "uma humilhação". E entrou em debate o futuro da Grécia na zona do euro.

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Image caption Tsipras surpreendeu ao vencer as eleições pelo partido radical de esquerda

O apoio aos bancos gregos com fornecimento de dinheiro foi congelado, e o governo impôs controles de capital, fechando os bancos e limitando os saques.

Representantes da oposição questionaram se Tsipras sequer desejava permanecer na zona do euro, e líderes da União Europeia ficaram furiosos com a decisão do primeiro-ministro.

Mas quando os gregos surpreenderam todas as pesquisas e apoiaram o primeiro-ministro, ele disse que seu mandato não seria uma "ruptura com a Europa", mas um mandato para achar uma solução viável.

Como a economia grega estava prestes a deixar o euro, Tsipras aceitou fechar o acordo para um terceiro resgate, que muitos de seus colegas se recusaram a apoiar, e até admitiu que ele próprio nã acreditava nisso como solução.

"Eu reconheço que as medidas fiscais são severas, que elas não vão beneficiar a economia grega, mas me vejo forçado a aceitá-las", disse.

Origem

As origens políticas de Alexis Tsipras estão bem longe dos partidos e dinastias que tradicionalmente governaram a Grécia nos últimos tempos.

Ele nasceu em Atenas, três dias depois da queda da Junta Militar Grega, em 1974 – tempos de uma forte divisão política.

No entanto, a família de Tsipras não tinha raízes fortes na política. O esporte era uma influência maior deles para o jovem Alexis, que cresceu frequentando o estádio do Panathinaikos e até hoje continua um torcedor fanático pelo time.

Alexis Tsipras não frequentou as escolas particulares que a maioria dos políticos na Grécia frequentam: se formou em uma escola pública em Ampelokipoi, uma região de classe média no centro de Atenas.

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Foi ali que seu ativismo político começou, liderando um protesto de estudantes contra as políticas educacionais do governo de direita que estava no poder à época.

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Image caption O primeiro-ministro grego tentou desafiar os credores europeus

Mattew Tsimitakis, um ativista que era um menino ainda em outra escola de Atenas, descreveu seu encontro com o jovem líder para a BBC Radio.

"Ele me pareceu muito inteligente, calmo e apaixonado, mas também muito consciente – ele podia representar o equilíbrio de alguns milhares de jovens que não tinham tanta certeza sobre por que estavam protestando."

Família

Foi na escola que ele conheceu Peristera "Betty" Baziana, que veio a se tornar sua esposa. Os dois eram muito ativos no Partido Comunista da juventude grega e tinham visões de mundo muito parecidas.

Os dois foram para universidades em cidades diferentes e depois escolher casar apenas no civil, sem nenhuma cerimônia religiosa.

O casal agora vive em Kypseli, bairro de classe média em Atenas, e tem dois filhos, Pavlos e Orpheas Ernesto (Ernesto foi chamado assim em homenagem a Ernesto "Che" Guevara).

Apesar de Baziana raramente aparecer em público, ela teria ameaçado deixar o marido se ele cedesse demais aos credores internacionais da Grécia.

Como seu pai, a carreira de Tsipras começou na engenharia civil, mas em 2006, ele representou a coalizão Syriza nas eleições para a prefeitura de Atenas.

"Ele passeou por todas as regiões de Atenas e tentou ter um contato bem próximo com seus potenciais eleitores", disse à BBC Elpida Ziouva, funcionária pública da Assembleia de Atenas.

O que não estava claro na sua carreira política precoce era quão longe ele pretendia chegar para acabar com a austeridade no seu país – fechando bancos e levando à Grécia ao limite para sair da zona do euro.

Mas seu governo acabou forçado a aceitar os termos do pacote de austeridade europeu, para que a Grécia não declarasse moratória de sua dívida e permanecesse na zona do euro.

Nesta quinta-feira, ele afirmou, em pronunciamento na TV, que "o mandato político das eleições de 25 de janeiro esgotou seus limites, e agora o povo grego tem de ter a palavra".