Por que o ‘EI’ atrai cada vez mais mulheres?

Kadiza Sultana, 16, Amira Abase, 15, e Shamima Begum, 15 (Foto: Divulgação) Direito de imagem Hand
Image caption As adolescentes Kadiza Sultana, Amira Abase e Shamima Begum, que teriam se juntado ao "EI"

Funcionários da Casa Branca afirmaram à BBC que, ao contrário dos recentes anúncios, o número de cidadãos da Grã-Bretanha que emigraram para a Síria para viver sob as regras do grupo autodenominad "Estado Islâmico" atingiu seu auge dois anos atrás.

Entretanto, a proporção de mulheres entre aqueles que se juntam ao grupo extremista tem crescido dramaticamente. O que há por trás disso e qual é exatamente a estratégia do "EI" para atraí-las?

O grupo, também conhecido como "Isis", adota duas atitudes diferentes com relação às mulheres.

Por um lado, mantémaquelas que considera hereges em condições quase subumanas e as trata como commodities para serem trocadas e oferecidas como prêmio para combatentes jihadistas.

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Imagens chocantes de um mercado de escravas sexuais em Mosul, no Iraque, mostram militantes discutindo os preços a serem pagos por garotas yazidis capturadas no ano passado, muitas delas menores de idade.

Ao menos duas mil mulheres yazidis ainda estão detidas pelo grupo – apenas algumas delas conseguiram escapar.

"Eles nos colocaram à venda", conta uma das mulheres, que escapou recentemente. "Muitos grupos de combatentes vieram para comprar. Nada que nós fizéssemos – chorar, implorar – fazia a menor diferença."

Por outro lado, o "EI" tem grandes planos para as mulheres muçulmanas que migram para o território controlado pelo grupo para exercer um papel-chave na construção do pretenso califado.

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Image caption Grupo autodenominado "Estado Islâmico" quer atrair mulheres muçulmanas para tentar criar pretenso califado

"Eles querem que mulheres se juntem a eles", afirma Katherine Brown, especialista em estudos islâmicos no King's College, de Londres. "Eles veem as mulheres como pilares do novo Estado e querem cidadãos."

"É muito interessante que as pessoas falem do 'EI' com um culto à morte, mas isso é o oposto do que eles estão tentando criar. Eles querem criar um novo Estado... e querem muito, como parte de sua política utópica, a vinda de mulheres."

Essa utopia inclui um tratado publicado em árabe em fevereiro estabelecendo um código de conduta que remonta a 1,4 mil anos atrás.

O texto é direcionado principalmente a mulheres árabes de países do Golfo e do Oriente Médio e inclui passagens que são incompreensíveis para a maioria dos ocidentais.

"É considerado legítimo para uma garota se casar aos 9 anos de idade. A maioria das garotas puras irão se casar aos 16 ou 17 anos, enquanto ainda são jovens e ativas", afirma o tratado.

Criando raízes

Ex-integrante da Al-Qaeda, Aimen Deen tem um profundo conhecimento da mentalidade jihadista. Segundo ele, a abordagem do "EI" para as mulheres é diferente daquela da Al-Qaeda ou do Talebã.

"Ao contrário da Al-Qaeda, o 'EI' procura estabelecer uma sociedade permanente, com raízes. Eles estão trazendo famílias de todo o mundo muçulmano, não só da Europa e dos Estados Unidos, mas também da Ásia Central... trazendo famílias para o 'Estado Islâmico'."

Mensagens online de recrutamento são disparadas continuamente, em diferentes idiomas, dizendo a muçulmanos para abandonarem suas seguras, mas conflituosas vidas no Ocidente e se juntarem ao califado.

Os recados são ignorados pela grande maioria, mas há um número crescente de mulheres atendendo a esse chamado.

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Image caption "EI" trata mulheres que considera "hereges" como subumanas, mas têm planos para muçulmanas

Algumas são como as garotas britânicas de Bethnal Green, no leste de Londres, que quiseram se tornar noivas jihadistas, ou seja, casar-se com combatentes que irão dar a elas algum status.

"Há um elemento romântico aqui", continua Aimen Deen, antes de alertar que isso frequentemente acaba em tragédia.

"A expectativa de vida de um jihadista é de um mês ou dois. Então, o que acontecerá é que uma mulher irá se casar com alguém, ele morrerá e, por quatro meses e dez dias, ela ficará em luto", diz.

"Se ela estiver grávida, isso leva ainda mais tempo. E então ela irá se casar com outro, que será mais um mártir. Seguem-se outros quatro meses de luto e ela irá reiniciar esse processo de novo."

"Não é uma vida alegre, e, sim, extremamente infeliz."

Papel das mídias sociais

Porém, ao contrário do Talebã e da Al-Qaeda, o "Estado Islâmico" tem permitido que muitas de suas recrutas ocidentais tenham um proeminente papel nas redes sociais.

Possivelmente a mais conhecida delas seja Aqsa Mahmoud, de 20 anos, uma fugitiva de Glasgow, na Escócia, que se denomina Umm Laith.

Ela ficou famosa por distribuir conselhos – desde mundanos a filosóficos – para mulheres que pensam em abandonar suas famílias na Grã-Bretanha.

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Image caption Aqsa Mahmood fugiu da Escócia para casar-se com um combatente do "EI" e aconselha outras mulheres a fazer o mesmo

A norueguesa Mah-Rukh Ali, pesquisadora da Universidade de Oxford especializada em mulheres e propaganda no "EI", acredita que há uma estratégia deliberada em dar a elas um papel de destaque na Internet.

"O 'Estado Islâmico' usa mulheres mais ativamente do que já vimos ocorrer no Talebã ou na Al-Qaeda", diz.

"Há cerca de 100 mil tuítes pró-'EI' todos os dias, e muitos deles aparentemente são de mulheres que se juntaram ao 'Estado Islâmico' vindas de sociedades ocidentais."

Pesquisadores afirmam que muitas dessas mulheres que atravessam a fronteira turca para chegar ao território controlado pelo 'EI' acabam frustradas com os papéis que lhe são atribuídos.

Mulheres não casadas são mantidas em uma casa segura, geralmente com outras que falam sua língua, e recebem doutrinação religiosa e aulas de árabe, enquanto um marido é encontrado para elas o mais rápido possível.

Qualquer ideia de participar de batalhas e empunhar uma Kalashnikov no fronte é logo frustrada. Mas algumas se juntam à brigada Khansaa, uma força de vigilância formada apenas por mulheres, que patrulha cidades como Raqqa e Mosul para reforçar as severas regras islâmicas.

"Elas têm sido conhecidas por executar punições severas, como espancar e chicotear alguém por não vestir as roupas certas", afirma Katherine Brown.

Elas também são famosas por colocar armadilhas para animais nos seios de mulheres que foram vistas amamentando em público, segundo a especialista.

Porém, por trás da crueldade e das práticas chocantes que têm dado ao "EI" a má fama internacional, há o desconfortável fato de que seu pretenso califado não está desaparecendo.

Questionado sobre se o grupo vê as mulheres como essenciais para as chances de sobrevivência do grupo, o ex-jihadista Aimen Deen responde:

"Certamente, não há dúvidas disso. Elas são metade da sociedade e estão desempenhando importantes papéis em várias áreas: a médica, a educacional e até mesmo a coleta de impostos. Então, elas são essenciais para a sobrevivência do 'Estado Islâmico'."

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