O clima realmente afeta nossa saúde?

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Image caption Cientistas têm tentado desvendar mistérios sobre a influência do tempo no corpo

Em 2013, neurocientistas da Universidade de Michigan, nos Estados Unidos, reportaram um dos mais estranhos casos da história da medicina: o de um homem que dizia conseguir farejar o clima.

Se uma tempestade se aproximava, ele sentia um cheiro quase insuportável de excrementos de gambá misturado com o de cebolas cruas. Os pesquisadores não conseguiram explicar a causa desses sintomas bizarros.

É provável que a maioria de nós não seja dotada desse "talento" - ainda bem. Mas mudanças na atmosfera – mesmo as mais sutis – parecem ter uma relação estreita com mudanças em nosso corpo.

Enquanto cientistas ainda precisam confirmar algumas dessas conexões, as evidências não deixam de ser intrigantes. Se forem confirmadas, elas significam que tudo no corpo humano – do risco de um ataque cardíaco ao sexo de um futuro bebê – depende do clima.

Eis aqui alguns desses mistérios – alguns mitos, outros verdades.

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A umidade provoca reumatismo?

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Image caption Pesquisas ainda não encontraram ligação entre umidade e dor nas articulações

Apesar de sempre ouvirmos histórias de como o tempo frio e úmido atinge nossas articulações, ainda não é possível afirmar que isso realmente ocorre.

Em 2009, uma análise de nove estudos realizados até então sobre o assunto concluiu que não há um efeito consistente do clima sobre os sintomas da artrite reumatoide.

É mais provável que se trate de um caso de "tendência de confirmação": se você já acredita que a chuva traz dor, tende a notar mais os dias de mau tempo em que se sente desconfortável e a ignorar quando se sente bem.

Mesmo assim, não se trata de um caso encerrado, já que outros estudos pretendem investigar o fenômeno mais a fundo.

Menos pressão no ar causa dor de cabeça?

Você já se sentiu carregando o mundo nas costas? Isso pode ser porque existe cerca de 1 tonelada de ar fazendo pressão sobre nossas cabeças a todo momento.

Parece ser a receita certa para uma dor de cabeça. E, para algumas pessoas, é justamente isso o que acontece.

O cientista Kazuhito Kimoto, da Faculdade de Medicina de Dokkyo, no Japão, e seus colegas pediram para que 28 pacientes com enxaqueca escrevessem o diário de suas dores durante um ano. Ao comparar os dados com o histórico da meteorologia no mesmo período, eles perceberam que a dor coincidia com a queda na pressão atmosférica.

Apesar de a equipe ter estudado um pequeno grupo de voluntários, outro estudo japonês confirmou o efeito, descobrindo que a venda de analgésicos aumenta quando o barômetro cai.

Um dos motivos poderia ser o fato de a queda de pressão do ar prejudicar o sistema vestibular – a cavidade na cabeça que nos ajuda a manter o equilíbrio –, provocando episódios de tontura e de dor de cabeça.

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O frio pode 'congelar' o coração?

Além de ser a estação da gripe, o inverno também traz um aumento regular no número de ataques cardíacos. Segundo um estudo da Universidade de Pequim, as mortes por problemas cardíacos aumentam 40% no inverno em comparação com a primavera e o verão.

Apesar de décadas de estudo, ninguém ainda sabe porquê, mas a pesquisa chinesa descobriu que uma temperatura mais fria parece aumentar a pressão arterial – um dos fatores de risco para o infarto.

O calor ajuda a gerar mais meninos?

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Image caption Mulheres tendem a conceber meninos durante meses de calor

Temos a impressão de que a população mundial é dividida exatamente em 50% de homens e 50% de mulheres. Mas a verdade é que essas proporções variam muito de acordo com o clima.

No Hemisfério Norte, por exemplo, há mais chances de meninos serem concebidos em anos mais quentes do que naqueles em que o frio durou mais meses do que o normal.

O exato motivo para isso ainda é um enigma. Pode ser que a temperatura altere o equilíbrio hormonal da mulher ou a produção de esperma no homem.

Já alguns cientistas acreditam se tratar de um mecanismo evoluído nas mulheres para aumentar as chances de passar seus genes adiante. Isso porque os meninos têm menos chances de se reproduzir do que as meninas se estiverem em más condições de saúde. Então nosso corpo decidiria o sexo baseado em nosso ambiente atual.

De qualquer forma, o efeito é minúsculo e tende a variar de região para região do mundo. Apesar de ser algo biologicamente interessante, esse não é um fator para orientar sua decisão de ter filhos.

O sol pode matar?

O sol está constantemente banhando a Terra com tempestades geomagnéticas e radiações cósmicas. A atmosfera terrestre, em tese, deveria nos proteger dessas reviravoltas espaciais, mas talvez não estejamos totalmente a salvo delas.

Uma equipe de cientistas da Lituânia examinou os registros de mais de 1 milhão de mortes durante um período de 25 anos, e descobriu que a mortalidade por distúrbios cardíacos ou derrame parecia atingir um pico durante períodos com eventos extremos do clima espacial.

Estranhamente, outro estudo descobriu que aquelas pessoas nascidas durante períodos de intensa atividade cósmica tendem a viver até cinco anos a menos do que aqueles nascidos em períodos calmos. Isso também reduziria sua fertilidade.

Evidentemente, mais investigações precisam ser feitas para confirmar os resultados e tentar encontrar explicações.

Pode ser difícil acreditar que nossa saúde dependa de algo tão imprevisível como o tempo da Terra, então imagine uma tempestade de partículas a milhões de quilômetros de distância.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Future.