Iguana achada no Brasil é ‘elo perdido’ na evolução dos lagartos

Direito de imagem Julius Csotonyi

As iguanas e seus parentes próximos, da família dos iguanídeos, representam um dos mais diversificados grupos de lagartos do mundo, com mais de 1,7 mil espécies.

Entre as que ainda estão vivas, as espécies caracterizadas por dentes fincados na beirada de suas mandíbulas (acrodontes) se distribuem no chamado Velho Mundo (África, Europa e Ásia), como camaleões e pogonas.

Já as espécies com dentes que nascem do lado interno do maxilar (pleurodontes) dominam o Novo Mundo (as Américas do Sul e do Norte), assim como a ilha de Madagascar e algumas localidades do Pacífico, e incluem as iguanas.

Mas as origens desses dois grupos e sua distribuição distinta continuam a ser motivos de debate entre cientistas. O fato de haver poucos fósseis desse período evolucionário da ordem dos escamados (Squamata, da qual fazem parte os lagartos e as serpentes) apenas dificulta a solução das dúvidas.

Agora, uma espécie extinta inédita descoberta no Brasil sugere que ambos os grupos de lagartos eram encontrados em todo o mundo.

Paleontológos da Universidade de Alberta, no Canadá, em colaboração com profissionais da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), encontraram o fóssil da iguana, batizada de Gueragama sulamericana, perto da cidade de Cruzeiro do Oeste (PR), uma região de rochedos que no período Cretáceo abrigou um deserto, há mais de 80 milhões de anos.

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Explicando Pangeia

Direito de imagem Tiago Simoes and Adriano Kury
Image caption Lagartos são divididos em subgrupos segundo posição de seus dentes

Este é o primeiro lagarto acrodonte encontrado na América do Sul, o que mostra que esse grupo de répteis estava mais espalhado pelo subcontinente Pangeia, formado há 270 milhões de anos e desmantelado há cerca de 200 milhões de anos, do que se pensava.

"Este fóssil é um espécime de 80 milhões de anos de um acrodonte no Novo Mundo", afirma Michael Caldwell, um dos autores do estudo, publicado na revista científica Nature Communications.

"Trata-se de um elo perdido em termos de paleobiogeografia, e possivelmente para as origens do grupo. Portanto temos nas mãos um ótimo indício para sugerir que no período Cretáceo Inferior, a parte sul de Pangeia ainda era um bloco continental único."

A distribuição de plantas e animais da segunda metade do período reflete a ancestralidade de Pangeia quando o subcontinente ainda estava inteiro.

"Esse fóssil indica que o grupo é antigo e provavelmente tem origem no sul de Pangeia. É possível que, após a ruptura do subcontinente, os acrodontes dominaram o Velho Mundo e os iguanídeos surgiram fora dessa linhagem de acrodontes que foi deixada isolada na América do Sul", afirma Caldwell.

"A América do Sul se manteve isolada até 5 milhões de anos atrás, quando se uniu à América do Norte. E vemos essa troca de organismos entre as duas extremidades do continente: um lagarto do Velho Mundo no Novo Mundo em uma época que não esperávamos encontrar nada parecido. Ele responde a várias dúvidas sobre a origem dos iguanídeos", afirma o cientista.

Para o principal autor do estudo, Tiago Simões, a descoberta também leva a novos questionamentos. "Surgem novas perguntas sobre a biogeografia e a fauna que são de grande interesse para paleontólogos e herpetologistas e que esperamos responder em breve", diz.

Agora que os estudiosos estabeleceram que esse grupo de répteis evoluiu bem mais cedo do que se pensava, é preciso agora procurar por fósseis em formações rochosas ainda mais antigas.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.