Barracas, tensão e caos: odisseia de imigrantes em botes de borracha transforma ilha grega

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Image caption Centenas de refugiados chegam à ilha grega de Kos em botes de borracha, vindos do balneário turco de Bodrum, a 20 quilômetros

Com os pés descalços e os coletes salva-vidas alaranjados ainda vestidos, o grupo de paquistaneses que deixa o barco da Guarda Costeira grega contrasta com os turistas que tomam um farto café da manhã a bordo de uma lancha no porto da ilha de Kos.

A maioria tem as mãos vazias. Outros levam pequenas sacolas de supermercado onde carregam todos os seus pertences: uma garrafa de água, uma muda de roupa e o smartphone embrulhado em um pedaço de plástico junto com os documentos.

Sorridentes, posam para uma "selfie" que o dono do telefone envia imediatamente à família por WhatsApp.

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Eles acabam de ser resgatados em alto-mar, quando tentavam chegar a Kos em um bote de borracha motorizado que os 50 passageiros tentavam fazer avançar com a ajuda de dois pequenos remos de caiaque.

Como eles, todos os dias, ao nascer do sol, centenas de refugiados chegam à ilha grega vindos do balneário turco de Bodrum, a 20 quilômetros, convertido por traficantes de pessoas em principal ponto de partida da rota clandestina para entrada na União Europeia.

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Image caption Sem ter onde morar, imigrantes dormem pelas ruas da cidade

Entre os viajantes, há mulheres grávidas, recém-nascidos, crianças pequenas e idosos.

"Você não pode nem imaginar o que é estar em um bote de borracha às três da manhã com tudo escuro ao redor, tendo que manter as crianças quietas para não alertar os guardas", comenta um iraquiano acompanhado da mulher e dos dois filhos, de um e cinco anos, o mais velho com deficiência física.

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Um médico originário de Raqqa, cidade síria dominada pelo grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico", conta que seus cinco filhos - a mais nova de 1 mês e o mais velho de 10 anos - não tiveram medo do trajeto.

Ele decidiu fugir depois de ter sido diretamente ameaçado por atender pacientes mutilados pelo 'EI', que impôs a lei islâmica em Raqqa.

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Image caption Muitos migrantes acampam nas ruas do centro histórico ou no passeio marítimo

"Eles sorriam, acharam divertido. Depois de tudo o que viram em Raqqa... Viemos por eles, para que eles tenham um futuro. Lá não resta nada. Daech (acrônimo em árabe do Estado Islâmico) controla nossas vidas, não permite nada, e o Exército (sírio) joga bombas nas nossas cabeças", disse o médico, que não quis identificar-se por medo de represálias contra familiares que continuam na Síria."

Insalubridade

Os refugiados começaram a chegar a Kos em abril, mas a prefeitura até agora não providenciou nenhuma estrutura para recebê-los.

A maioria é de sírios, iraquianos, afegãos e paquistaneses, que chegam à Turquia de carro, ônibus ou mesmo a pé.

Mas há também uma minoria originária do Mali, Congo e Gana, que entra no território turco em avião, muitas vezes usando todas as economias da família.

Uma vez em Kos, muitos acampam nas ruas do centro histórico. O passeio marítimo está tomado por barracas. Na areia da praia, os guarda-sóis perderam espaço para os coletes salva-vidas, boias e restos dos botes usados na travessia desde Bodrum.

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Image caption Hotel abandonado está sendo usado para abrigar imigrantes

Eles têm sido encaminhados a um hotel abandonado, onde não há móveis ou eletricidade. Os banheiros do local estão inutilizados, e os 600 habitantes ali dividem sete latrinas e quatro duchas instaladas há apenas 20 dias por uma equipe da ONG Médicos sem Fronteiras (MSF) .

Os alimentos são preparados no chão coberto de poeira, fraldas e roupas descartadas, restos de papéis e de embalagens ou ainda de água com sabão.

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"Este lugar foi feito para alojar 80 pessoas, não 600", afirma Mikael Goldman, gerente de logística da MSF.

"Não esperava ver tantas pessoas sendo tratadas sem nenhuma consideração ou dignidade na Europa."

Apesar das dificuldades, os refugiados vistos pelas ruas de Kos estão geralmente de banho tomado e roupas limpas.

Segundo a MSF, as doenças se limitam a casos moderados de inflamações cutâneas e desidratação.

Tensão

No mês de agosto, o número de refugiados registrados em Kos até o dia 28 passava de 13 mil, quase o dobro de julho.

As autoridades estão sobrecarregadas e, diante da falta de funcionários e da barreira linguística, os candidatos ao asilo têm dificuldades para se informar.

"A situação é tensa e, às vezes, perigosa. As regras mudam o tempo todo. Há falta de informação, e tem gente que passa muito tempo esperando. As pessoas estão cansadas, desconfiadas, com medo", explica Roberto Mignone, coordenador de emergência da agência da ONU para os refugiados (Acnur).

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Image caption Maioria dos imigrantes é de sírios, iraquianos, afegãos e paquistaneses

O grupo ajuda com tradução, organização e tentando acalmar os ânimos dos refugiados, mas não pode envolver-se no processo de cadastramento, que fica a cargo das autoridades locais e da agência europeia de controle de fronteiras, a Frontex, que conta com um único funcionário na ilha.

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Os protestos se repetem todos os dias diante da sede da polícia, onde aqueles sem documentos passam longas horas esperando para se cadastrar e, em seguida, retirar os papéis que lhes permitirá continuar sua viagem.

As temperaturas superam os 33ºC, mas representantes de apenas duas ONGs passam esporadicamente para distribuir água ou alimentos aos necessitados.

Enquanto os sírios são automaticamente considerados refugiados e recebem seus papéis em cerca de três dias, as demais nacionalidades estão sujeitas a um processo mais complexo e demorado.

"Só estão trabalhando para os sírios. No nosso país, também há guerra", diz um iraquiano.

"Faz 15 dias que estamos esperando, com crianças pequenas, idosos. Tem sírio que chegou aqui ontem e já poderá ir embora amanhã. Por que dizem sim para os sírios e não para a gente?".

"Eles não vão se esquecer da gente, vão?", pergunta um malinês que aguarda há 20 dias por seus documentos.

'Eldorado' alemão

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Image caption Travessia é feita em botes, de forma precária, e muitos precisam ser resgatados

Todos os dias, entre 300 e 500 refugiados deixam a ilha em direção a Atenas, de onde seguem viagem pela chamada rota balcânica, atravessando Macedônia, Sérvia, Hungria e Áustria.

A maioria pretende chegar à Alemanha, apresentada por traficantes turcos como o "Eldorado" europeu.

"Eu não tinha preferência. Só queria tirar minha família do Afeganistão. Na Turquia, (os traficantes) nos aconselharam a ir para a Alemanha. Disseram que lá há ajuda e trabalho, que é o melhor país", explica um comerciante de Kandahar decidido a proteger a mulher e as três filhas da ameaça dos talebãs. Ele não quis ter seu nome divulgado.

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O congolês Eric, de 42 anos, fugiu sozinho da violência em seu país e não conhece ninguém na Alemanha, mas não vê motivos para duvidar dos traficantes.

"Não tenho nenhuma dúvida. A Alemanha é um grande país, tem uma economia forte. Então, não pode nos abandonar", afirma com um sorriso.

Ele acredita que no país terá acesso gratuito a alojamento, cursos de alemão e uma formação técnica como eletricista.

'Arruinaram meu negócio'

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Image caption Comerciante de Kandahar, no Afeganistão, resolveu apostar em um futuro incerto na Europa para proteger mulher e filhas da ameaça dos talebãs

A situação em Kos irrita muitos comerciantes locais, que se queixam que a chegada em massa de imigrantes afastou os turistas causando quedas de até 80% por cento nas vendas durante a temporada de verão. Alguns enxotam os refugiados de suas portas como se fossem pombas na praça.

"Arruinaram meu negócio. Não tenho mais como pagar o aluguel. Que fechem as fronteiras e mandem todos de volta a seus países", defende um aposentado holandês proprietário de uma loja de presentes vizinha à sede da polícia.

"Normalmente, nessa época do ano o terraço está cheio, servimos 90 mesas. Sabe quantos clientes tivemos ontem? Seis. Metade dos empregados não foram chamados este ano", afirma Laura Buzdugan, garçonete de um restaurante na praça de Hipócrates, um dos pontos geralmente mais visitados de Kos.

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Mesmo se os turistas continuam frequentado a ilha, eles evitam as lojas e restaurantes do centro histórico, assim como as praias da ilha, devido à tensão e à sujeira gerados pela concentração de refugiados.

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Image caption Para lojistas e donos de bares e restaurantes locais, presença de imigrantes afastou turistas

A maioria prefere passar os dias em passeios de barco a banhar-se ao lado dos botes de borracha e coletes salva-vidas abandonados pelos refugiados nas areias de Kos.

A Acnur apresentou planos para instalar um campo de refugiados e centro de cadastro nos limites da cidade e identificou dois lugares que poderiam servir para isso, mas continua esperando autorização do governo.

Mignone critica as autoridades locais por não terem reagido ainda diante de uma crise que começou em abril.

"A prefeitura não quer um campo aqui, provavelmente porque teme atrair ainda mais refugiados. Mas seria benéfico para todos: para os refugiados, para os turistas e para o comércio local", afirma.