Leopoldo López, o 'líder rebelde' e 'divisivo' da oposição venezuelana

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Image caption Líder opositor, Leopoldo López foi condenado a mais de 13 anos de prisão

Uma semana foi suficiente para Leopoldo López se tornar a face mais visível da ala radical da oposição da Venezuela e ganhar projeção internacional.

Ao longo de sete dias, em fevereiro de 2014, graças a sua radicalização política, López foi alçado extraoficialmente ao status de principal figura de liderança entre os opositores venezuelanos, em especial durante os protestos contra o governo do presidente Nicolás Maduro.

Nesta quinta-feira, depois de passar 19 meses na prisão militar Ramo Verde, López foi condenado por uma juíza a permanecer atrás das grades por mais 13 anos, 7 dias e 12 horas devido à sua participação nas manifestações populares.

Embora López tenha alegado que promoveu um protesto pacífico, resguardado pela Constituição do país, a magistrada do caso o considerou culpado por crimes de incitação pública, danos a propriedade, incêndio criminoso e formação de quadrilha. Ele protestava pedindo a saída de Maduro, o que foi visto como golpismo pelos grupos chavistas.

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19 meses de prisão

O protesto que motivou sua prisão ─ em 18 fevereiro de 2014, cercado por milhares de seguidores ─ foi o último de que participou pessoalmente, mas outras manifestações se estenderam por todo o país durante meses, deixando um saldo de 43 mortos, 600 feridos e mais de 3,5 mil presos.

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E nos 19 meses passados na prisão até o anúncio da sentença, sua esposa Lilian Tintori passou a defender sua causa em fóruns internacionais.

O nome de López, no entanto, já estava presente na política venezuelana quando, em 2008, aos 27 anos, ainda como prefeito do município de Chacao de Caracas, perdeu os direitos políticos em um processo polêmico promovido pela Controladoria Geral, que o impediu de se candidatar à prefeitura da capital, Caracas, em cujas pesquisas de intenção de voto despontava como favorito.

A partir desse momento, apesar de ter se mantido ativo politicamente, López parecia perder força diante de seu ex-companheiro de partido e atual governador do Estado de Miranda, Henrique Capriles, que acabou se tornando líder da oposição moderada - e foi escolhido para representá-la nas duas últimas eleições presidenciais.

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Vida pública

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Image caption López ganhou projeção nacional na Venezuela ao se tornar prefeito da cidade de Chacao aos 27 anos

López, que vem de uma família abastada com negócios na área do petróleo, estudou economia nos Estados Unidos e possui um mestrado em Políticas Públicas pela Universidade de Harvard.

Segundo a jornalista da BBC Irene Caselli, apesar de ter perdido os direitos políticos em 2008 após acusações de peculato, López optou por não se retirar da vida pública.

"Há muito tempo, López tem sido visto como um 'problema', não só para o governo venezuelano (que o acusa de ser um dos responsáveis pelo golpe de 2002), mas também para observadores estrangeiros", diz Caselli.

Em 2009, em documentos secretos vazados pelo WikiLeaks, o conselheiro político da embaixada dos EUA em Caracas, Robin D. Meyer, escreveu que López havia se tornado uma "figura divisiva dentro da oposição venezuelana".

"Ele é frequentemente descrito como arrogante, vingativo, sedento de poder, mas seus colegas de partido dizem que sua popularidade tem perdurado ao longo do tempo, além de seu carisma e capacidade de organização", escreveu o diplomata americano na ocasião.

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Símbolo

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Image caption López teve direitos políticos cassados por acusação de peculato

Mas, com uma oposição dividida, a prisão de López fez com que muitos de seus críticos passassem a apoiá-lo.

Quando se entregou às autoridades, ele se tornou, na opinião de David Smilde, analista da consultoria Washington Office on Latin America, em uma figura "visível e atraente" e um líder ─ simbólico, pelo menos - da oposição.

"Se Leopoldo Lopez é atacado pelo governo, as pessoas vão defendê-lo", disse o líder estudantil Daniel Alvarez logo após a prisão do político da oposição.

Mas hoje, 19 meses depois de sua prisão, o cenário na Venezuela é muito diferente.

Com a população cansada das tensões políticas e mais focada em atender a suas necessidades básicas do que em protestar - em meio à alta inflação e escassez de produtos -, não houve protestos em massa nas ruas em favor de López, apesar das críticas a sua condenação.

A própria oposição está mais focada em avançar nas urnas, nas eleições parlamentares de dezembro deste ano.

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