Por que há cada vez mais indianos no topo de grandes corporações

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Image caption Sundar Pichai, de 43 anos, se tornou CEO do Google depois de 11 anos na empresa

Quando o Google nasceu, um indiano estava presente. Em 1998, na Universidade Stanford, os dois fundadores da gigante da tecnologia, Sergey Brin e Larry Page, eram alunos da graduação e, junto com os professores Terry Winograd e Rajeev Motwani, desenvolveram um algoritmo que revolucionou as buscas na internet e criou uma empresa que vale bilhões de dólares.

Até hoje o nome de Motwani desperta elogios, assim como o do novo diretor-executivo da empresa, o também indiano Sundar Pichai, de 43 anos.

Os dois são descritos como perseverantes e intelectualmente brilhantes, enquanto mantêm uma boa dose de humildade – características cada vez mais associadas a altos executivos indianos.

Ambos também estudaram no Instituto Indiano de Tecnologia antes de seguirem para os Estados Unidos para fazer pós-graduação.

Mudar de país não foi fácil para Pichai, filho de um engenheiro na cidade de Chennai, no sul da Índia. Sua passagem para os Estados Unidos custou mais do que seu pai ganhava em um ano de trabalho.

Nos primeiros seis meses no novo endereço, o jovem não tinha dinheiro nem para telefonar para a namorada, com quem se casaria anos depois.

Quando foi contratado pelo Google, em 2004, Pichai já tinha trabalhado na consultoria McKinsey e na distribuidora de microprocessadores Applied Materials. Destacou-se rapidamente como o principal arquiteto do Chrome, o bem-sucedido navegador do Google, e logo passou a ser apontado como alguém que iria longe na empresa.

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Estilo apaziguador

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Image caption A diretora-executiva da PepsiCo, Indra Nooyi, é uma das mulheres indianas a chegar ao topo

A ascensão de Pichai ocorreu enquanto todo o setor de tecnologia perdia o interesse pelo estilo egocêntrico, abrasivo e frequentemente divisivo de muitos de seus CEOs – pessoas que deliberadamente usavam a confrontação para melhorar a qualidade, a competitividade e a produtividade entre funcionários, equipes e concorrentes.

Mas a moda hoje é um estilo de gerenciamento que prefere evitar todo tipo de confronto, sendo mais apaziguador e mitigatório, bem de acordo com qualidades que a nova geração de executivos indianos parece possuir.

Esse foi um dos motivos pelos quais a Microsoft fez de Satya Nadellaits seu terceiro CEO, substituindo Steve Ballmer.

Mas ele não é o único executivo indiano de destaque. A multinacional japonesa de telecomunicações SoftBank contratou Nikesh Arora como presidente, vindo do Google. A Adobe é comandada por Shantanu Narayen. Francisco D’Souza (que tem ascendência indiana) encabeça a enorme consultora de tecnologia Cognizant. E Sanjay Mehrotra está à frente da SanDisk, gigante da área de memória de computadores.

E não são apenas as empresas de tecnologia que estão de olho em diretores indianos. Ivan Menezes é o atual CEO da Diageo, a maior fabricante mundial de bebidas destiladas. O chefão do MasterCard é Ajay Banga. E a PepsiCo é liderada por Indra Nooyi, uma das mulheres indianas que ascenderam ao topo recentemente.

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Mais iniciativa e mais renda

O segredo do sucesso de todos esses nomes vai além da capacidade de crescer dentro das empresas. Os indianos hoje formam cerca de 6% da força de trabalho do Vale do Silício – mas desses 6% vêm os fundadores de mais de 15% das start-ups locais.

Isso representa mais do que o total de fundadores vindos da Grã-Bretanha, da China, de Taiwan e do Japão juntos, segundo um estudo feito no ano passado por Vivek Wadhwa, empreendedor indiano que faz parte do quadro acadêmico de três importantes universidades americanas: Stanford, Duke e Singularity.

A pesquisa mostra que, em todo o território americano, cerca de um terço das start-ups é lançado por indianos, muito mais do que o total de todos os sete grupos imigrantes mais numerosos no país.

Além disso, de acordo com o Censo de 2010, indianos americanos têm a maior média salarial anual por família do que qualquer outro grupo populacional do país – US$ 86.135, em comparação aos US$ 51.914 do total da população americana.

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Novas gerações

Então, o que torna esse grupo de indianos tão excepcionalmente bem-sucedido?

Alguns elementos são óbvios. Enquanto outros imigrantes têm que aprender inglês como segundo idioma, praticamente toda a educação superior na Índia é dada em inglês, uma herança do passado colonial do país.

A atual safra de CEOs indianos também representa o melhor dessa geração, segundo o analista de capital de risco Venktesh Shukla, presidente da filial da organização de networking The Indus Entrepreneurs, no Vale do Silício.

"A maioria deles chegou aqui durante a época do socialismo na Índia, quando as oportunidades eram bastante limitadas por lá e a política de imigração americana só aceitava os mais qualificados. O que temos aqui é o melhor do melhor", afirma.

Mas nem só as qualificações acadêmicas contam. Shukla acredita que a cultura indiana ajuda a criar um paradigma de gerenciamento bem-sucedido por se tratar de um país que valoriza tanto a competição quanto a humildade individual.

A diversidade também está no cerne da nação, onde até mesmo nos menores vilarejos há várias línguas sendo faladas, muitas religiões e mais do que uma culinária típica.

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A consultoria de psicologia dos negócios YSC realizou uma pesquisa com 200 executivos de cada região do mundo e identificou que os indianos têm uma enorme vontade de chegar lá e são muito fortes na área intelectual.

Mas segundo Gurnek Bains, presidente da YSC, esses profissionais costumam ter um defeito: "Os executivos indianos têm bastante dificuldade em trabalhar em equipe, uma área em que americanos e europeus se dão bem".

Para Bains, os executivos indianos que se dão melhor em multinacionais são aqueles que passaram muito tempo em outros países desenvolvendo suas habilidades nesse quesito.

Mas alguns especialistas acreditam que, em breve, os estudantes indianos não precisarão mais sair do país para alcançar o sucesso profissional, já que a Índia deve se tornar a terceira maior economia mundial, atrás de Estados Unidos e China.

E, diferentemente de seus antecessores, a atual jovem geração indiana prefere ficar no país.

"Nos próximos três a cinco anos, meio bilhão de indianos vai entrar na internet usando seus smartphones. Vai haver uma revolução tecnológica no país e vamos ver dezenas de empresas bilionárias nascendo na Índia", aposta Wadhwa. "Se eu fosse empreendedor, não viria para os Estados Unidos. Eu ficaria na Índia porque hoje é onde as oportunidades estão."

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital