Por que é importante salvar os pandas

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Image caption Iniciativas de proteção ao panda acabaram melhorando habitat para outras espécies ameaçadas

Para algumas pessoas, os pandas são animais fofos que, por estarem ameaçados de extinção, tornaram-se símbolo da luta pela preservação de várias outras espécies em todo o mundo.

Para outras, eles são verdadeiros caça-níqueis, que teimam em não se reproduzir e desviam recursos imprescindíveis para salvar outras criaturas não tão adoráveis mas igualmente merecedoras de atenção.

Agora, cientistas estão revelando evidências de que a decisão de salvá-los pode realmente valer a pena.

Um novo estudo publicado na revista científica Conservation Biology mostra que o empenho em salvar os pandas também está tendo impacto positivo sobre outras espécies vulneráveis da China.

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‘Escudo protetor’

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Image caption O macaco-dourado, existente apenas na China, se beneficia com planos de preservação

"Muitos se preocupavam se, ao protegermos o panda, estaríamos negligenciando outras espécies. Mas não é isso o que ocorre", afirma o principal autor do estudo, Binbin Li, da Universidade Duke, nos Estados Unidos.

"O panda é a espécie ameaçada mais icônica, por isso fazia sentido questionar se outros animais também estariam abrigados sob esse ‘escudo’", afirma o coautor Stuart Pimm, também da Universidade Duke. "E a verdade é que muitas estão."

Li e Pimm começaram estudando mapas compilados por centenas de biólogos e ecologistas mostrando a distribuição de mamíferos, anfíbios e aves na China.

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Image caption O faisão-dourado vive nas mesmas áreas florestais da China que os pandas

Eles se concentraram nas espécies endêmicas, aquelas encontradas apenas na China e que, por isso, são mais vulneráveis do que animais que se distribuem por outras áreas do planeta.

Os cientistas descobriram que as espécies endêmicas estão concentradas nas montanhas do sudoeste chinês, especialmente na Província de Sichuan – exatamente os mesmos lugares onde o panda sobrevive hoje.

O estudo mostrou que a amplitude geográfica dos pandas se sobrepõe à de 70% das espécies de aves florestais, 70% dos mamíferos florestais e 31% das florestas chinesas.

Tanto autoridades como a opinião pública chinesas estão bastante envolvidas na preservação do panda. Para Li, isso ajuda a estabelecer novas áreas e corredores de conservação na região.

Para ilustrar o poder e a influência que o panda tem hoje na China, Li recorda um incidente envolvendo o desejo do governo de construir uma ferrovia que atravessaria um enorme habitat da espécie. Em menos de 15 dias, o Ministério do Meio Ambiente demarcou duas novas reservas ambientais na área, obrigando a ferrovia a fazer uma nova rota.

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‘Efeito colateral’

Apesar das descobertas positivas, o estudo identificou espécies não atendidas: animais que vivem em áreas longe daquelas separadas para proteger pandas.

Os anfíbios, particularmente, estão sendo negligenciados em favor de espécies de mamíferos e aves.

"Há algumas oportunidades claras para incentivar tanto os governos provinciais quanto o nacional a proteger outras áreas", afirma Pimm.

"O fato de que há várias espécies vivendo nessas reservas é um verdadeiro bônus para a preservação", explica Ben Collen, da University College London. "Ninguém planejou isso, foi uma conquista que surgiu quase como efeito colateral."

Collen aceita a conclusão do estudo de que, ao se concentrarem em uma espécie como os pandas, é possível proteger muitas outras espécies ao mesmo tempo.

"Biólogos e ambientalistas adoram encontrar atalhos para proteger a biodiversidade de uma maneira mais eficiente em termos de custo-benefício", conclui.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Earth.

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