Como a Igreja católica sobreviveu aos anos mais radicais da Revolução Cubana

Papa Francisco e Raúl Castro | Foto: AP Direito de imagem AP
Image caption Em chegada a Havana, Francisco foi recebido por Raúl Castro e centenas de fiéis

O papa Francisco chegou nesta tarde a Cuba, em sua primeira visita como pontífice à ilha – e a terceira de um papa em menos de 18 anos. Mas para a Igreja católica no país, sobreviver aos anos mais radicais da Revolução Cubana foi uma difícil tarefa.

Quando, em 1959, Fidel Castro e seus combatentes entraram vitoriosos em Havana, imagens de igrejas incendiadas e católicos perseguidos na Espanha da Segunda República (1931-1939) se instalaram rapidamente na mente de alguns dos fiéis na ilha.

Com menor ou menor identificação com o castrismo, os religiosos concordam que este foi o antecedente inicial da relação tortuosa entre a revolução e os católicos cubanos.

Talvez por isso, Cuba é o único país, além do Brasil, a ser visitado pelos três últimos papas.

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Image caption Católicos cubanos dizem ter tido dificuldades para praticar a religião nas primeiras décadas após a Revolução

O temor nos 'anos cinzentos'

A Revolução Cubana não tinha o fim do catolicismo como um de seus objetivos políticos, mas o rumo socialista tomado pelo país nos primeiros anos da década de 60 tensionou a relação com todo o mundo religioso.

Esta tensão duraria mais de duas décadas, até os últimos anos da década de 1980, e teria um de seus momentos mais significativos em 1976, quando a nova constituição cubana declarou o caráter ateu da ilha.

O texto constitucional declarava o Estado cubano como: "socialista, que baseia sua atividade e educa seu povo na concepção científica materialista do universo".

"A presença da igreja foi difícil nos anos cinzentos. Os primeiros anos da Revolução foram de confronto e desconfiança", diz o bispo cubano José Conrado, sacerdote conhecido por suas críticas ao governo da ilha.

Segundo ele, a Igreja católica "ficou reduzida ao mínimo" neste período.

"Leigos e padres abandonaram o país. A Igreja espanhola os convocou, por temer uma onda de perseguições e a possível proibição da religião", afirma.

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Em entrevista à BBC Mundo, serviço em espanhol da BBC, Conrado disse que, em seus primeiros anos como padre, trabalhou em populações de 80 ou 90 mil pessoas "onde apenas quatro crianças assistiam às aulas de catequese".

"Não tínhamos nem 100 pessoas nas igrejas", relembra.

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Image caption A reabertura de Cuba ao mundo religioso aconteceu nos últimos anos da década de 1980

Mas Frei Betto, religioso brasileiro que era mais próximo a Fidel Castro e à Revolução, afirma que os temores dos católicos durante estes anos eram infundados e obedeciam a influências extrangeiras.

"Foi a influência franquista do catolicismo espanhol em Cuba que fez com que muitos católicos ficassem contra o caráter socialista da Revolução e da influência soviética. No entanto, nenhum padre ou pastor foi fusilado e nenhum templo foi fechado", disse à BBC Mundo.

Muitos anos depois, Castro explicaria a Frei Betto porque o ateísmo foi estabelecido como política de Estado na ilha. O assunto foi abordado no livro Fidel e Religião, publicado em 1985.

"O que nós estávamos exigindo era a adesão plena ao marxismo-leninismo. Acreditávamos que qualquer pessoa que se unisse ao partido aceitaria a política do partido e a doutrina em todos os aspectos", disse o líder cubano.

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Ser católico em 1970

Mercedes tem 72 anos e trabalhou como contadora até aposentar-se.

Agora atende uma paróquia e participa ativamente da Igreja católica cubana, mas, quando jovem, diz que "teve muito trabalho" para praticar a religião.

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Image caption João Paulo 2º foi o primeiro papa a visitar a ilha após a Revolução; Fidel Castro o recebeu em 1998

"Fui chamada muitas vezes por ser católica, a ponto de deixar a universidade. Era angustiante. Toda vez que algo acontecia, suspeitavam dos católicos", diz à BBC Mundo, afirmando que nunca participou de nenhuma atividade contra a Revolução.

"Eu simplesmente defendia minha fé."

Nas praças e igrejas de Havana não é difícil encontrar cubanos como Mercedes, dispostos a contar histórias do período mais intolerante da Revolução. Não só contra católicos, mas também contra homossexuais e outros grupos.

"O nó do conflito partiu de uma incompreensão sobre o que significava a Igreja e também sobre a influência de fatores externos como o embargo americano ou a crise dos mísseis (em outubro de 1962). Tudo isso criou um clima desfavorável e até hostil (entre a Igreja católica e o governo)", disse o bispo de Havana Juan de Dios Hernández.

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Em 1971, a Arquidiocese de Havana registrou apenas sete mil batismos em toda a capital cubana, de acordo com o livro Despertar religioso, de Enrique Pérez Oliva.

O número quadruplicou em 1989, quando a ilha atravessava o chamado processo de abertura à religiosidade.

Estudos como o Relatório Internacional de Liberdade Religiosa e a pesquisa anual do instituto de pesquisa americano Pew dizem que entre 59 e 63% dos cubanos se identificam como cristãos.

Já o mais recente anuário estatístico do Vaticano afirma que em Cuba, um país de mais de 11 milhões de habitantes, 59,66% são católicos.

O anuário de 2001 dizia que 55,26% eram católicos e o de 1990, 41,21%.

Image caption Período de escassez após fim da União Soviética fez com que igrejas voltassem a encher na ilha

O 'longo processo' e o 'período especial'

"Há cada vez menos momentos difíceis. O Estado cubano aprendeu lenta e gradualmente o papel da Igreja de semear Jesus Cristo no coração das pessoas que se prestem a isso", afirma o bispo Hernández.

José Conrado e Frei Betto, apesar de suas diferenças, também dizem que a mudança dos "anos cinzentos" para o momento atual foi "um longo processo".

Mais de quatro décadas depois dos tempos em que só quatro crianças iam a suas aulas de catequese, Conrado diz que "a sobrevivência da Igreja católica em Cuba foi heróica".

"Em 1992 fomos para a rua, nos reencontrarmos e conversarmos de porta em porta. Se cumpriam os 500 anos da evangelização (do continente americano)", relembra.

Também em 1992, Cuba modificou sua constituição e deixou o ateísmo como política oficial para transformar-se em um Estado laico.

Além disso, o "período especial" de escassez e de limitações após a queda da União Soviética e em meio ao embargo americano estava em um de seus momentos mais críticos.

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Image caption Anuário do Vaticano diz que 59% dos cubanos são católicos, número maior que no início dos anos 2000

Conrado diz que o papel das igrejas foi muito importante naquele momento. "Recuperamos a presença em campo, voltaram as multidões. Era um momento difícil, em que faltavam muitas coisas, e a Igreja colaborou muito para atravessá-lo."

Fazendo um balanço, Frei Betto afirma que houve "bastante" mudança desde os primeiros anos da Revolução até agora.

"Mudou muito, especialmente em relação às liberdade religiosas. Com a queda do muro de Berlim e a desaparição da União Soviética, Cuba ficou mais cubana, reassumindo sua identidade martiana (relativa ao político e pensador cubano José Martí), cristã, de sincretismo religioso. Fidel concordou e mudou a constituição do país e os estatutos do Partido Comunista, agora ambos oficialmente laico", diz.

"O povo de Cuba é essencialmente religioso, cristão sem ser majoritariamente católico, e recebe os papas com muito entusiasmo."