Como é viver nas cidades mais visitadas do mundo

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Image caption Londres foi a cidade mais visitada de 2014, segundo índice anual preparado por financiadora

Os mesmos atrativos que fazem algumas pessoas adorarem visitar uma cidade – belos monumentos, vida cultural agitada, restaurantes e bares vibrantes, e bairros charmosos – podem também seduzi-las a passar ali um período mais prolongado.

Não por coincidência, muitas das cidades mais visitadas do mundo, segundo o Índice Mastercard de Destinos Globais de 2014, também são destinos populares entre estrangeiros que chegam para estudar ou trabalhar.

Mas ser um morador de alguma dessas metrópoles também tem seus desafios. "Venho de uma pequena cidade no Canadá, então, ao chegar em Paris, me surpreendi como certas regiões são abarrotadas de gente", afirma Erika Belavy, que há sete anos adotou a capital francesa.

Com sorte, residentes logo se acostumam a navegar pela multidão e encontram seus refúgios nos bairros menos conhecidos. A BBC Travel conversou com nativos e estrangeiros que moram nas cinco cidades no topo do ranking do índice para saber como é viver nelas diariamente.

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Londres

A capital britânica foi a mais visitada de 2014, com uma estimativa de 18,7 milhões de turistas estrangeiros, segundo o Índice Mastercard.

Mas Sophie Loveday, que nasceu e mora em Londres, diz que mal nota a multidão. "Você se acostuma a ter tanta gente à sua volta. E é isso que faz a cidade ter essa vibração", afirma.

Mesmo assim, ela sempre tenta evitar lugares como a Leicester Square, cheia de turistas, preferindo fazer compras no Covent Garden, que, apesar da lotação, tem lojas descoladas e uma atmosfera inusitada. No leste de Londres, ela recomenda a Brick Lane, com restaurantes indianos listados entre os melhores do país.

Para fugir da agitação do centro, Loveday costuma visitar o subúrbio de Richmond, no sudoeste de Londres. "É um lugar onde se pode avistar veados no parque ou passear de barco pelo Tâmisa", diz. O dia pode terminar com uma refeição em algum dos pubs à beira do rio.

Não faltam bairros para agradar a todos os gostos. Loveday mora em Tooting, no sul de Londres, e admira sua diversidade cultural. Ela também recomenda Angel, no norte, com seu astral "simpático e relaxado".

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Bangcoc

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Image caption Nem tumultos e protestos afastaram turistas de Bangcoc, na Tailândia, em 2014

Por causa de protestos políticos e do isolamento do governo tailandês em 2013, Bangcoc caiu para a segunda posição no ranking de 2014. Mas ainda assim deve ter recebido por volta de 16,4 milhões de turistas.

Moradores dizem achar positivo o fato de o fluxo ser sazonal, com a maioria dos turistas vindo de novembro a fevereiro.

Ketsara Chockmai, nativa de Bangcoc e diretora de roteiros da operadora smarTours, diz achar a cidade especialmente agradável entre junho e setembro. "É a nossa estação chuvosa, então não há tantos turistas", afirma. "Mas como normalmente não costuma chover muito, aproveitamos muito para estarmos ao ar livre."

Apesar da reputação de ter uma vida noturna agitada, Bangcoc também tem seus refúgios. Os moradores buscam tranquilidade em um dos vários templos budistas da cidade, como o Wat Phra Kaew, na cidade antiga, considerado o mais sagrado do país por causa do "Buda de Esmeralda" esculpido em uma única peça de jade de 6,6 metros de altura.

Os parques Lumpini e Benjakitti são recantos tranquilos, exceto no início da manhã e no fim da tarde, quando são populares entre praticantes de corrida e ioga.

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Paris

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Image caption Parisienses costumam usar entrada menos conhecida para visitar o Museu do Louvre

A capital francesa recebeu cerca de 15,6 milhões de visitantes em 2014, muitos deles atraídos por seus monumentos famosos, como a Torre Eiffel, a catedral de Notre Dame e o museu do Louvre.

Mas esses ícones são exatamente os mesmos que os moradores locais tentam evitar. "Não vou à Champs Élysées no meio de agosto nem por todo o dinheiro do mundo", brinca Christina Tubb, vice-presidente de uma empresa de tecnologia francesa que se mudou dos Estados Unidos para Paris em 2009.

Quando visita os pontos turísticos, ela adota os truques locais – como comprar um passe anual para evitar as filas do Museu d’Orsay ou usar a "entrada secreta" do Louvre (a Porte des Lions).

"Eu gosto de fazer programas turísticos porque é parte do motivo pelo qual decidi morar aqui", conta.

Se no verão o Quartier Latin fica lotado, no resto do ano o bairro oferece uma boa quantidade de restaurantes menos conhecidos. "Algumas ruas são bem turísticas, mas saindo delas é possível encontrar cafés ou restaurantes considerados instituições e que não mudam seu cardápio desde os anos 20", afirma a canadense Erika Belavy.

Tanto Tubb como Belavy frequentam o Marais na hora de fazer compras, por causa de sua variedade de lojinhas charmosas e especializadas.

Apesar de seu tamanho, cada um das 20 arrondissements (administrações regionais) parisienses tem um ar de vilarejo. Antes decadente, o 10º arrondissement, no nordeste da cidade, agora foi revitalizado e atrai jovens com bares, galerias de arte e o arborizado Canal St. Martin. O 3º e o 9º arrondissements também são mais boêmios.

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Cingapura

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Image caption Turistas e moradores de Cingapura gostam de aproveitar os luxos da cidade

Uma ilha, uma nação e uma cidade, Cingapura atrai cada vez mais moradores estrangeiros e também se beneficia de ser a porta de entrada e de conexões para quem visita o Sudeste Asiático.

O tráfego internacional e a multidão local contribuem para o congestionamento na cidade. "Os próprios cingapurianos são loucos por sair para fazer compras e comer", conta o morador Jayant Bhandari, originário da Índia e radicado na cidade há muitos anos. "Prefiro nem ir para o bairro de Orchard Road, favorito para compras, muito porque está sempre lotado".

O eficiente aeroporto de Changi ajuda os moradores a rapidamente escaparem para até 200 destinos internacionais. "Cingapura tem o melhor aeroporto que eu já vi, e olha que já estive em mais de 60 países", conta Bhandari. "E é barato viajar para qualquer lugar a partir daqui."

O Jardim Botânico de Cingapura oferece um refúgio agradável para quem quer mais tranquilidade. "É como o Central Park da cidade", descreve Amy Greenburg, editora do site Expat Living Singapore e que veio de Los Angeles há dois anos.

A cidade tem 28 distritos, e seu amplo sistema de transporte público faz com que qualquer um deles seja viável para morar. Greenburg vive em Roberston Quay, às margens do rio Cingapura. "O lugar tem um astral simpático e relaxado, com uma grande variedade de restaurantes, bares e cafés que deixam os clientes trazerem seus cães", conta.

Outros bairros populares entre estrangeiros são o River Valley, o Holland District e o Tanglin, mais centrais.

Robert Shen, vice-presidente de desenvolvimento da empresa de design de luxo Wilson Associates, mudou-se de Los Angeles para Cingapura há sete anos e mora em Geylang, uma área recentemente gentrificada. "É um bairro considerado ‘às margens do centro’, mas ainda é perto da praia, dos transportes e de outras atrações", diz.

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Dubai

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Image caption Número de visitantes e moradores estrangeiros tem subido em Dubai, congestionando a cidade

A maior cidade dos Emirados Árabes Unidos registrou o maior aumento de visitantes de um ano para o outro entre as cinco metrópoles citadas no ranking, tendo atraído aproximadamente 12 milhões de turistas em 2014 – 7,5% a mais do que no ano anterior.

Se mantiver esse ritmo, Dubai pode passar Paris e Cingapura em menos de cinco anos.

Acostumados com lugares lotados, os moradores simplesmente tentam organizar sua agenda de modo a evitar as multidões. "Nos fins de semana, por exemplo, eu tento não ir a shopping centers ou saio deles antes do início da tarde", diz a britânica Emily Christensen, diretora de recrutamento de uma multinacional e que vive em Dubai há 14 anos.

O centro da cidade, com atrações como o Burj Khalifa, o maior prédio do mundo, e o Dubai Mall, fica congestionado de tarde e de noite. Os moradores evitam a região nesse período.

Christensen, por exemplo, gosta de ir para o parque Safa, a 6 quilômetros do centro. "É um lugar com muito espaço, cafés, um lago e raramente algum turista", diz. Os moradores aproveitam o espaço aberto para fazer piqueniques, jogar críquete ou praticar ioga.

Andrea Anastasiou, que morou na cidade por sete anos e escreve o blog Scribble, Snap, Travel, recomenda o bairro histórico de Bastakiya para quem quer experimentar a "autêntica Dubai". "É um labirinto de ruelas estreitas que lembra os Emirados em épocas mais modestas", afirma. "A área tem uma arquitetura peculiar, com prédios tinham que ser resfriados por torres de ventilação e não por ar-condicionado, como hoje." O bairro também tem casas restauradas e cafés charmosos, e se tornou um polo de vida noturna.

Muitos estrangeiros que trabalham em Dubai moram em Arabian Ranches, uma área a 24 quilômetros do centro que foi um dos primeiros lugares onde puderam comprar imóveis. Quem busca bairros com mais jovens pode procurar a Marina, com seus hotéis, bares e restaurantes.

A maioria dos estrangeiros tem um visto de trabalho limitado, e é praticamente impossível se naturalizar. Isso pode trazer uma sensação de nunca realmente pertencer à cidade, mas os moradores dizem que é fácil fazer novas amizades e formar um círculo em Dubai.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site BBC Travel.