A improvável amizade entre a mulher de um general israelense e a sogra de Arafat

BBC

Logo depois da Guerra dos Seis Dias, o conflito no qual Israel tomou terras do Egito, Síria e Jordânia, em 1967, duas mulheres importantes - a esposa de um famoso general de Israel e a mulher que se transformou na sogra de Yasser Arafat - iniciaram uma improvável amizade.

A história deste relacionamento é contada em um novo livro, An Improbable Friendship ("Uma Amizade Improvável", em tradução livre) de Anthony David. O repórter da BBC Kevin Connolly se encontrou com as duas mulheres.

A história da Guerra dos Seis Dias é conhecida: um conflito curto com a captura de territórios por Israel em uma série de operações rápidas.

As questões territoriais com os egípcios foram tratadas no Acordo de Camp David, no fim de 1970. No entanto, em outros aspectos, o Oriente Médio ainda vive as consequências daquele conflito.

A guerra de 1973, por exemplo, foi uma tentativa fracassada da Síria e do Egito de reverter a vitória israelense. Israel continua com as Colinas do Golã e a Cisjordânia, onde vive uma enorme população palestina e um crescente número de colonos israelenses.

No entanto, há algo não contado sobre a guerra de 1967: a história de como uma amizade pode florescer nas circunstâncias mais improváveis.

É a história da amizade entre Raymonda Tawil, palestina, e a israelense Ruth Dayan.

Herói

A Guerra dos Seis Dias fez do marido de Ruth, Moshe Dayan, um herói nacional em Israel.

O tapa-olho preto dava a ele um ar exótico - ele perdeu um olho servindo com os Aliados na Segunda Guerra Mundial. E, apesar de ser odiado e temido no mundo árabe por sua crueldade militar, começou a desfrutar de um reconhecimento global.

Dayan foi parar na capa da revista Time e até modelos em desfiles de Paris teriam usado o tapa-olho parecido com o dele.

No rescaldo da guerra, Raymonda estava em um hospital danificado da cidade palestina de Nablus, lidando com refugiados, feridos e mortos, quando ficou sabendo que a mulher do homem culpado pela devastação iria visitar o local.

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"Não fomos gentis com ela. Havia pessoas feridas, os corpos (dos mortos). Quando nos contaram que era Ruth Dayan, eu disse: 'Este é o seu trabalho, seu trabalho!'. Mas ela disse: 'não sou Dayan'", disse Raymonda.

Image caption Ruth e Moshe Dayan quando ainda eram casados, em 1958

Ruth, por sua vez, disse que os instintos dela sempre foram humanitários e não políticos. Ela lembra de quando enchia o carro com medicamentos e brinquedos para crianças e ia até os territórios ocupados, que estavam sob controle direto de seu marido.

Ela também visitava Nablus e conseguia se encontrar com mulheres palestinas, prisioneiras, acusadas pelos israelenses de pertencer a uma organização terrorista.

Moshe Dayan ficou escandalizado, e isto agravou a crise no casamento.

"Eu disse: 'Moshe, quero o divórcio' e isto foi depois de 37 anos de casamento. Faço tudo no calor do momento e fiz isso também. Eu disse: 'todo o tempo você falou que só o jeito que eu estou trabalhando com os árabes vai trazer paz' e de repente ele estava zangado por eu estar lá. Então eu fiz, eu me divorciei", disse Ruth.

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Naquela época Dayan tinha fama de mulherengo, e o livro conta um episódio que já dava pistas da crise. Ruth viajava pelo recém-criado Estado de Israel dando trabalho a mulheres imigrantes em uma empresa de artesanato.

Image caption Yasser Arafat, em um quadro atrás de Raymonda, foi, durante décadas, o líder da luta dos palestinos pela criação de um Estado

Os tempos eram difíceis e ela viajava de carona.

Em uma noite, o comboio do marido de Ruth, então já um importante comandante militar, passou por ela sem parar enquanto ela estava na beira da estrada, polegar estendido, pedindo carona. Não se sabe se ele ou os homens do comboio notaram a presença dela.

Ativistas

Com o passar do tempo, a amizade entre Ruth e Raymonda começou a se desenvolver.

Nos primeiros tempos da ocupação militar de Israel ainda era possível para ativistas como Ruth viajar até a Cisjordânia para participar de reuniões.

Não resultou na paz, mas uma das casas onde estas reuniões ocorriam era a de Raymonda.

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"Minha casa era um salão para todas estas pessoas se reunirem. Do lado de fora, ninguém entendia o que estava acontecendo. Tive que pedir ao prefeito e às personalidades da cidade (Nablus) para vir e se encontrar com estes israelenses e importantes figuras estrangeiras para conversar sobre o futuro - você pode imaginar isto em 1967?"

Image caption O trabalho humanitário de Ruth Dayan a levou para outros países da África e Ásia

Com o passar dos anos, a amizade entre as duas mulheres enfrentou ainda mais obstáculos: a guerra de 1973, a invasão israelense no Líbano em 1982 e o início da primeira intifada, ou rebelião palestina, em 1987.

Sempre em contato

Raymonda se transformou em uma porta-voz não oficial da Cisjordânia, um nome familiar em noticiários internacionais.

Ela chegou a ser presa pelos israelenses e também ficou em prisão domiciliar devido aos contatos com a OLP. Extremistas palestinos também a ameaçavam, desconfiando de seus contatos com israelenses.

Os impulsos humanitários de Ruth, por sua vez, a levaram longe. Ela viajou para o Congo e Vietnã e organizou reuniões com celebridades como a atriz Elizabeth Taylor.

Image caption Yasser Arafat se casou com a filha de Raymonda, Suha, mostrada em uma imagem de arquivo

Mas as duas sempre se mantiveram em contato, mesmo em momentos tensos e quando os eventos geravam discussões entre as duas.

A história deste relacionamento ficou ainda mais surpreendente quando, em 1990, a filha de Raymonda, Suha, se casou com o líder da OLP, Yasser Arafat, um herói entre os palestinos e inimigo público número um de Israel.

Raymonda tinha agora acesso privilegiado ao alto comandante da OLP e ligação pessoal com o homem que Israel considerava o inimigo mais perigoso e determinado.

Ruth, por sua vez, além de ser ex-mulher do mais famoso militar israelense, também tinha outras ligações. Sua irmã mais nova, Reumah, era casada com Ezer Weizman, um ex-piloto de caça que também se transformou em um importante comandante militar e acabou se transformando no sétimo presidente de Israel.

Todas as pessoas importantes da vida pública de Israel estavam na agenda telefônica de Ruth.

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Por um tempo esta coincidência parecia abrir a possibilidade para a criação de um canal de comunicação. Algumas reuniões até foram marcadas, mas as circunstâncias foram mais fortes e a amizade das duas não resultou em negociações entre os dois lados.

Sem final feliz

Image caption Ezer Weizman, em 1958

Dayan, Weizman e Arafat estão mortos e um acordo entre Israel e palestinos parece tão distante nos dias de hoje como era em 1967.

No entanto, a amizade entre Ruth e Raymonda continua e, quando se encontraram com a reportagem da BBC em Malta, elas ficaram de mãos dadas, trocando elogios, falando uma sobre a outra e conversando com intimidade.

As duas olham para o passado com tristeza.

Raymonda assiste imagens dos arquivos da BBC, noticiários do fim dos anos 1970 no qual ela aparecia falando que os colonos israelenses teriam que sair dos territórios ocupados para haver uma chance de paz.

"Meu Deus, as respostas que dei são as mesmas de agora. Não mudou", disse Raymonda.

Ruth também responde com melancolia quando perguntada se fica triste com o fato de as perspectivas de paz entre israelenses e palestinos estarem ainda mais distantes.

"É triste, sinto que não posso fazer nada. Agora, posso apenas tocar minha vida até morrer. Tenho 98 anos e meio e logo eu terei cem", disse.

Ruth nasceu quando a Terra Santa ainda era governada pelos turcos, antes do fim da Primeira Guerra Mundial, e desistiu de uma vida confortável de classe média para se casar com Moshe Dayan e viver uma vida simples de fazendeiros.

Raymonda nasceu nos primeiros anos da Segunda Guerra Mundial, na antiga cidade litorânea de Acre, quando a Palestina ainda era governada pela Grã-Bretanha no mandato da Liga das Nações. A rica família de Raymonda perdeu tudo quando Israel capturou Acre.

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Os caminhos das duas se cruzaram em Nablus em 1967 e estão ligados desde então.

Talvez a história delas nunca tenha inspirado mais israelense e palestinos como elas esperavam. Mas a amizade entre estas mulheres é um testemunho da capacidade humana de união mesmo nos momentos mais difíceis.