Como o capitalismo começa a surgir na Coreia do Norte, o país mais fechado do mundo

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O que mais impressiona quando se se dirige rumo á capital da Coreia do Norte, Pyongyang, é a escuridão.

Uma famosa fotografia do país feita por satélite mostra a República Democrática Popular da Coreia como uma mancha negra em contraste com o festival de luzes de neon que é o país vizinho, a Coreia do Sul.

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Nas ruas, quando a noite cai, é comum passar por uma série de blocos de apartamentos em que apenas uma luz fraca escapa de pouquíssimas janelas.

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Image caption Capital do país vem se desenvolvendo, com novos edifícios e rotas de comércio
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Image caption Foto de satélite mostra Coreia do Norte quase às escuras ao lado da iluminada vizinha Coreia do Sul

Durante o dia, é possível ver pequenos painéis solares em varandas, um indício de como algumas pessoas contornam os serviços estatais e assumem o controle da situação com as próprias mãos.

Essa presença da iniciativa privada no país tem muitas outras facetas. Depois da fome dos anos 1990, a economia começou a mudar.

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A população faminta encontrou formas de cultivar seus próprios alimentos e vendê-los. Os mercados privados ajudaram a aliviar uma situação de vida ou morte. Eles existem ainda hoje e são tacitamente permitidos pelas autoridades.

Capitalismo

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Image caption Jornalistas fizeram um tour pela cidade acompanhados por funcionários do governo

Um tipo de capitalismo começa a aparecer na Coreia do Norte. Isso quer dizer que algumas pessoas têm dinheiro em mãos para adquirir todo o tipo de bens que entram no país por meio da fronteira ao norte com a China.

Enquanto vem surgindo esta nova forma de fazer negócios, é importante dizer que a Coreia do Norte continua a ser muito mais pobre que outros países, especialmente em relação à Coreia do Sul.

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Image caption Uma nova forma de fazer negócios vem surgindo na Coreia do Norte

Nem em Pyongyang há fortunas que podem ser comparadas com as de habitantes da capital do país vizinho, Seul.

Mas os sinais de mudança são claros. Uma outra imagem clássica da capital do país - suas ruas largas e vazias, sem qualquer trânsito além daquele de carroças - deu lugar atualmente para cenas de engarrafamentos de carros chineses, além de veículos de outras marcas, como BMW e Volkswagen.

Controle político

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Image caption Ruas antes completamente vazias hoje já tem carros chineses e alemães e até engarrafamentos

O que não mudou foi o nível de controle político. Neste sábado, um grande desfile, com milhares de soldados e exibição de armas e aeronaves, celebrou o 70º aniversário do Partido dos Trabalhadores da Coreia do Norte, que governa o país.

O líder supremo do país, Kim Jong-un estava presente e disse que seu país pode se defender de qualquer guerra iniciada pelos Estados Unidos, em um raro pronunciamento em público.

Tudo foi transmitido pela televisão estatal, que adicionou comentários emocionados enquanto as imagens eram divulgadas.

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Depois da passagem dos militares e do armamento pesado, como tanques e mísseis, logo em frente ao palanque onde estava Kim Jong-un, o desfile continuou.

Dezenas de milhares de civis, incluindo estudantes e crianças, dançaram e acenaram para o líder supremo.

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Image caption Novo aeroporto da capital do país expõe dilema pelo qual passa o regime
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Image caption Visitantes são bem-vindos, desde que não tragam consigo 'ideias perigosas'

Cada jornalista que tenta acompanhar eventos como este ou apenas fazer uma reportagem no país é acompanhado por uma escolta de funcionários do governo, e estes funcionários supervisionam o trabalho dos repórteres com rigor, impedindo qualquer contato com pessoas comuns e também impedindo que os cinegrafistas filmem cenas não autorizadas.

Os visitantes que chegam ao novo e impressionante aeroporto da capital têm seus livros sobre a Coreia do Norte confiscados.

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O aeroporto ilustra o dilema pelo qual passa o regime: foi construído para facilitar a chegada de milhões de pessoas que deixam dólares e euros no país, mas as autoridades continuam a desconfiar muito dos forasteiros.

Querem que eles venham e tragam seu dinheiro, mas não suas ideias pertubadoras para que conceitos, como democracia e crenças religiosas como o cristianismo, não "corrompam" seus cidadãos.