Diversão obrigatória: a aposta das empresas para atrair jovens

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Image caption Banco WSFS, dos EUA, fez vídeo com funcionários para tentar atrair candidatos jovens

Quando o americano Dan Ryan tinha 21 anos e estagiava na empresa de contabilidade Belfint, Lyons & Shuman, em Delaware, adorava os dias em que podia trabalhar de short e sandálias.

Ele também curtia o minigolf à disposição no escritório e ficou surpreso ao saber que a firma organizava festas e outros eventos sociais.

Por isso, não teve dúvidas em aceitar a oferta de um emprego permanente após se formar, em 2014. "O clima era descontraído e eu podia me divertir e socializar (com meus colegas), algo que eu não esperava encontrar no ambiente de trabalho", conta. "Não tinha ninguém correndo ou tentando apagar incêndios a todo instante, como eu pensei que seria no mundo da contabilidade".

A cultura do "levar o trabalho a sério, mas também o lazer" é hoje um atrativo para jovens como Ryan, os chamados millennials, que desejam e esperam que seus empregos sejam também uma experiência social agradável.

"Temos o compromisso de tornar o trabalho o mais divertido e relaxado possível, o que ajuda a manter a produtividade em alta", explica LeAnne Diebold, gerente da Belfint. "Nossos funcionários sabem que vão encontrar algo divertido para fazer no escritório depois de um dia puxado, principalmente durante a temporada de declarações de Imposto de Renda."

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Diversão é o lema

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Image caption Aula de pintura na empresa de contabilidade Belfint, nos EUA

O Google, com seus patinetes, escorregadores e piscinas de bolinhas, é talvez o exemplo mais famoso de empresa que tenta combinar trabalho com lazer, e está sempre no topo da lista dos empregadores mais populares entre os millennials ao redor do mundo.

Mas hoje cada vez mais empresas de outros setores estão tentando fazer da diversão parte da sua cultura. Elas esperam oferecer um ambiente de descontração a seus funcionários, mas também estão concentradas em atrair e reter os millennials, os jovens nascidos nos anos 80 e 90 e que hoje são a maior geração em muitas companhias.

A Belfint posta fotos das festas do escritório no Facebook, o terreno mais provável para que eles atinjam potenciais novos funcionários. "Os millennials anseiam muito mais por um ambiente familiar do que a geração dos baby-boomers (nascida entre os anos 70 e 80). Estes trabalhavam o dia inteiro, mas no fim do expediente iam para casa. Eram governados por suas metas pessoais", diz Diebold.

Oferecer um ambiente descontraído até se tornou parte da missão e dos valores de algumas empresas. Na Alemanha, a SMA Solar Technology afirma, em seu site: "A ideia ‘O trabalho deve ser algo divertido’ é uma das máximas de nosso conselho diretivo". Já a óptica americana Warby Parker diz que se divertir "é uma de suas normas".

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Mas a definição de diversão varia de companhia para companhia. Na SMA, isso significa ter um horário de trabalho mais flexível e contar com um centro de fitness e duas grandes festas por ano.

Já a loja online Zappos, que há tempos afirmou que um de seus lemas é "criar diversão e um pouco de loucura", mantém os funcionários entretidos programando uma série de atividades, de shows de talentos a sessões de karaokê ou festas do pijama.

Em 2014, a Hays, empresa de recrutamento em Londres, realizou uma pesquisa com millennials de todo o mundo e descobriu que "diversão e interação social" estavam no topo da lista de prioridades deles no trabalho.

Cerca de 60% dos entrevistados na Holanda citaram esse aspecto como um dos principais motivos na escolha de um empregador, assim como 52% dos japoneses, 45% dos alemães e 33% dos americanos.

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Saber se divertir

Mas organizar atividades de lazer em um ambiente de trabalho que normalmente é rígido e autoritário pode ser um erro e não vai necessariamente mudar muito a motivação dos funcionários ou atrair os mais jovens.

"O clima na empresa precisa ser mais descontraído, para que haja autenticidade", afirma Robert Potter, diretor de recursos humanos da Hays. "Passar um tempo se distraindo com jogos e brincadeiras é algo que funciona em empresas de tecnologia como o Google, onde a inovação e a criatividade fazem parte da cultura corporativa. Mas não há espaço para ficar saltando em piscinas de bolinhas no ambiente tenso de um departamento de vendas, por exemplo."

Atualmente existem até "consultores de diversão", como o americano Nick Gianoulis, fundador da Fun Dept e co-autor do livro Playing it Forward.

Ele recomenda que as companhias pensem no lazer não como um evento isolado como um churrasco anual ou uma festa de fim de ano, mas sim como "um processo que ocorra o ano todo e se torne uma parte natural da empresa".

Qualquer benefício de uma festa anual é fugaz, para ele. "O evento pode até ter um impacto negativo naquelas pessoas que não gostam de abrir mão de seu tempo em casa para ir a uma festa à noite ou no fim de semana."

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Ouvir o funcionário

Gianoulis também aconselha os empregadores a limitar essas atividades a dez ou 15 minutos e fazer uma pesquisa junto aos funcionários para descobrir o que eles realmente gostariam de receber. "A última coisa que uma empresa quer é fazer seus empregados se sentirem constrangidos por não participarem das atividades ditas divertidas", afirma.

A Workplace Dynamics, uma empresa de pesquisas e desenvolvimento de softwares da Pensilvânia, também acredita que variedade é fundamental. "Quando você faz algo como parte de uma rotina, essa atividade perde seu brilho. Surpresas inesperadas são bem melhores", afirma Dan Kessler, presidente da empresa, que realiza corridas de triciclo e guerras de água no escritório.

Algumas empresas descobrem que funcionários que saem para novos empregos acabam voltando porque sentem falta da descontração. "Já tivemos gente que voltou porque sentiu que não era tratado como indivíduo na concorrência", conta Peggy Eddens, vice-presidente-executiva do WSFS Bank, nos Estados Unidos.

Para divulgar sua cultura interna para potenciais novos funcionários, o banco até criou um vídeo no YouTube que mostra seus empregados usando fantasias, dançando e cantando a música Happy, de Pharrell Williams.

Mas será que os funcionários das empresas com essa cultura chegam a realmente trabalhar? Um estudo feito em uma grande rede de lanchonetes dos Estados Unidos revelou que a institucionalização do lazer no escritório reduziu a rotatividade dos empregados, mas seu desempenho caiu.

A maioria dos trabalhadores, no entanto, diz que jogos e outras atividades ajudam a melhorar o desempenho e a taxa de permanência nos empregos. "Dar um tempo para brincar e dar risada renova as energias, além de ajudar a unir pessoas de gerações diferentes", afirma Eddens.

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Leia a versão original desta reportagem em inglês no site da BBC Capital