Esquerdista 'arrependido', prefeito vira ícone da extrema-direita na França

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Image caption Menard é acusado de isolar comunidades pobres da cidade com medidas

Robert Menard ficou conhecido na França como jornalista simpático ao socialismo e membro fundador da ONG Repórteres Sem Fronteiras. Mas há um ano e meio provocou alvoroço com uma guinada inesperada: elegeu-se prefeito de Béziers, cidade localizada a 760 km ao sul de Paris, com o apoio do controverso partido de extrema-direita Frente Nacional.

A vitória na disputa pelo comando da cidade de 71 mil habitantes criou em Béziers o principal reduto da extrema-direita na França. Mas também transformou a cidade em alvo para inimigos do partido.

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Recentemente, manifestantes tentaram invadir uma reunião do Conselho Municipal, carregando faixas que diziam "Menard, Béziers não te pertence". Foram contidos pela polícia.

Parabólicas

Uma das faixas manifestava o desejo de receber refugiados, em alusão à polêmica capa de uma revista publicada pela prefeitura em que uma manchete sensacionalista alerta os moradores de Béziers sobre uma "iminente chegada de refugiados em busca de escolas, moradia e benefícios sociais".

Para aumentar a polêmica, a foto na capa da publicação foi usada sem autorização da fonte, a agência de notícias France Presse, que abriu processo contra Menard e o acusou abertamente de alarmismo.

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Image caption Discurso anti-imigração do prefeito gerou protestos em Bréziers

Até o início da Primeira Guerra Mundial, Bréziers era próspera, enriquecida pela indústria vinícola, especialmente porque seus vinhedos resistiram a um praga que afetou regiões produtoras vizinhas. No entanto, a cidade hoje é uma das mais pobres da França. Segundo estatísticas governamentais, um terço da população vive abaixo da linha da pobreza. E Menard elegeu-se prometendo restaurar os "dias de glória".

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Sua plataforma teve como pontos principais a imigração e a criminalidade. Em um polêmico vídeo, ele é visto entrando num conjunto habitacional e dizendo a famílias de refugiados sírios que elas não são bem-vindas à cidade.

Inicialmente parecia algum tipo de paródia, já que o vídeo tinha um tom estranhamente cômico - o prefeito, por exemplo, aparece vestindo uma espécie de faixa presidencial nas cores da bandeira francesa. Mas a impressão é desfeita quando o prefeito ameaça usar a polícia para expulsar as famílias dos apartamentos - uma tentativa frustrada pelo fato de o prefeito não ter autorização da justiça para tal.

Image caption Conjunto habitacional com imigrantes sírios foi alvo de "factóide" do prefeito

O vídeo "viralizou" na França e dividiu opiniões. Menard, porém, rejeita acusações de crueldade. Menciona, por exemplo, um recente acordo que tornou gêmeas Béziers e a cidade síria de Maaloula, como prova de que não é contra ajudar sírios. O líder da mesquita de Béziers criticou o prefeito, dizendo que os apartamentos ocupados pelas famílias sírias estavam vazios.

Menard duplicou o efetivo policial e distribui armas semiautomáticas para os agentes, apesar de a jurisdição da guarda municipal se concentrar em crimes leves e infrações de transito - delitos mais graves normalmente ficam a cargo da Police Nationale, a força federal francesa.

O prefeito despertou ainda mais controvérsia ao autorizar uma campanha publicitária institucional com cartazes em que fotos de pistolas anunciavam que a polícia "tinha ganhado novos amigos".

Image caption A decisão de armar a guarda municipal também despertou controvérsia

"Uma força policial armada impõe respeito", disse Menard à BBC.

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Mas o prefeito encontra respaldo entre a população. "Há alguns anos, tínhamos casos e casos de comportamento antissocial. Brigas na rua, pessoas se drogando nos bancos de praça. Ninguém fazia coisa alguma. Desde que monsieur Menard foi eleito, tudo isso acabou. Os turistas voltaram", afirma um pedestre ouvido pela BBC.

Menard também impôs uma lei proibindo cuspir no chão e um toque de recolher para retirar crianças das ruas à noite. Críticos acusam o prefeitos de praticar um "limpeza social" com essas medidas, que afetam principalmente as comunidades mais carentes.

Image caption Bréziers é hoje uma das cidades mais pobres da França

Ele também proibiu residências e lojas no centro histórico da cidade de instalarem antenas parabólicas e de estender roupas do lado de fora das casas.

"O prefeito quer que as pessoas andem com as roupas molhadas? Nem todo mundo pode comprar uma secadora", reclama Sofia, um jovem web designer.

Menard se apresenta como um outsider, um rebelde que luta contra o que vê como hipocrisia do mundo político. Um senso que pode estar ligado a suas raízes como pied-noir, nome dado às famílias francesas que se mudaram para as colônias no norte da África; quando tinha nove anos, em 1962, sua família teve de mudar para a França após a independência da Argélia.

Jean Michel du Plaa, que dirige os socialistas em Béziers, disse que Menard se posicionou ainda mais à direita do que a Frente Nacional e seus líderes.

"Marine Le Pen (líder do partido) tentou adotar uma linha mais moderada", diz ele, "mas Menard, ao contrário, está à vontade no extremo da extrema-direita".

Ele diz que Béziers se tornou um laboratório político, e que os moradores locais se sentem "como cobaias".

Muitos acham que Menard quer aparecer e que sua motivação é estar nas manchetes. Outros veem no seu comportamento e posições extremas uma estratégia para fazer a Frente Nacional parecer como moderada em questões como segurança e imigração.

E isso pode acabar ajudando Marie Le Pen na sua eventual campanha para a Presidência do país em 2017.

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