Conheça os indígenas de 5 continentes que participam dos Jogos em Palmas

Milton Spotted Bear Junior (foto: BBC)
Image caption Ornamentos, pinturas de corpo e estilos de cabelo dão ideia da diversidade de culturas reunidas em jogos

A presença de populações indígenas de origens e culturas tão diferentes é um dos grandes destaques dos Jogos Mundiais Indígenas, e salta aos olhos na Arena Verde, em Palmas, onde todas as competições esportivas estão sendo realizadas.

Passeando com os olhos de delegação para delegação, mudam completamente os ornamentos, pinturas de corpo, cores de acessórios, estilos de cabelo, reflexos mais superficiais das diferentes culturas, idiomas e sistemas de valores que se encontram reunidos na capital de Tocantins.

Até o momento são 566 participantes de delegações estrangeiras e 1.126 de etnias brasileiras, e ainda aguarda-se a chegada da delegação da Gâmbia, composta por um único representante.

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As delegações maiores incluem a Argentina, com 61 pessoas, e o Canadá, com 56, enquanto entre as menores estão a Etiópia, com três pessoas, e a Rússia, com seis.

Ainda que com pesos muito diferentes em número de participantes, há representantes dos cinco continentes em Palmas – conheça a seguir um atleta de cada um deles.

Wiremu Sarich, Nova Zelândia

Image caption Tribos maori fizeram dança haka - que ficou conhecida devido ao time de rúgbi da Nova Zelândia

Desde que fizeram a tradicional dança haka na cerimônia de abertura dos jogos – a mesma adotada pelos jogadores de rúgbi da Nova Zelândia no início das partidas – os maori têm sido a sensação nos Jogos Mundiais Indígenas.

Wiremu Sarich, de 40 anos, diz que eles estão sendo tratados como astros de rock e que os mais jovens da delegação estão adorando a fama, sendo interpelados toda hora para sair em fotos.

A delegação é composta por 44 pessoas de diferentes etnias – 'maori' é o nome geral que designa os indígenas neozelandeses – e muitos são professores, como Wiremu. "Eu trabalho justamente levando esportes tradicionais para escolas na região norte do país, então de certa maneira estou em casa, e tem sido uma experiência incrível esse convívio com diferentes culturas e diferentes sistemas de valores", diz.

Essa troca se dá nas competições, mas também no alojamento. As delegações internacionais estão acomodadas em escolas onde se juntam povos dos Estados Unidos, Canadá, Filipinas, México, Guatemala e Colômbia, entre outros.

"Hoje mesmo aprendi um joguinho mexicano que nunca tinha visto na vida", conta. Ele está participando das competições de cabo de guerra, arco e flecha e corrida com tora – que consiste em correr pela areia levando uma tora de madeira de até 120 quilos no ombro.

"Não são coisas que fazemos em casa, mas estamos experimentando tudo. Mas o principal objetivo da nossa vinda era mostrar um pouco mais do mundo para os mais jovens. Aqui eles estão vendo como a nossa cultura é significativa. Na Nova Zelândia nós não temos toda essa atenção."

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Essi Ranttila, Finlândia

Image caption Loira de olhos azuis do povo saami da Finlândia chama a atenção em competições

Essi Ranttila chamava atenção na corrida feminina de 100 metros rasos, destoando das concorrentes pela pele clara, cabelos louros e olhos azuis.

"Toda hora me perguntam quem eu sou e de onde eu venho", diverte-se ela, jurando que na Finlândia é ela que tem a pele considerada "mais escura". Essi é do povo saami, do norte da Finlândia, que enviou uma delegação de dez pessoas para Palmas.

Tudo lhe parece novo e surpreendente, do calor infernal que dá fama à capital do Tocantins aos esportes que integram as competições, como cabo de guerra e corrida com tora. "São esportes muito exóticos. Entre nós, o esqui seria o mais tradicional", diz. Como atleta corredora, Essi já viajou para outras competições indígenas na Europa e no Canadá. "Mas nunca vi algo assim na vida. É incrível. É muito maior do que eu esperava e o clima é ótimo, as pessoas são muito calorosas."

Ela se solidariza com os povos brasileiros que estão protestando contra a aprovação da PEC 215 pelo Congresso, que transferiria a responsabilidade sobre a demarcação de terras ao Legislativo. "Acho que estamos todos lutando pelos mesmos problemas. Na Finlândia nossa briga é contra a mineração, para podermos continuar usando as terras de nossos ancestrais e seguir com nosso meio de vida, continuando com práticas tradicionais como arrebanhar renas, algo que é muito importante para nós."

Melton Spotted Bear Júnior, Estados Unidos

Image caption Norteamericano diz que já posou para mais de 500 fotos desde o início dos jogos

O penacho, o bracelete de miçangas ultracolorido, o colar de dentes, a tatuagem sinistra de uma caveira indígena no ombro: o visual de Melton Spotted Bear Júnior, 25 anos, tem lhe rendido dezenas de pedidos para tirar fotos e selfies com outros indígenas em Palmas, e ele calcula já ter posado para mais de 500 desde o início dos jogos na última sexta-feira.

Melton veio com a esposa Jolene, de 25 anos. São parte de um grupo de 13 pessoas de Montana e do Novo México, das etnias Crow, Navajo e Northern Cheyenne. Ele é atleta e seus esportes em casa são corrida cross-country, basquete e hipismo, mas aqui está participando de quase todas as modalidades – arco e flecha, canoagem, cabo de guerra, corrida com tora e corrida de 100 metros.

"A maioria é novidade para mim, fora arco e flecha, que usamos sempre", diz ele, que no geral tem considerado os jogos "bem impressionantes".

"É uma experiência única. Estou feliz que todos esses diferentes grupos étnicos estejam se encontrando e tendo a oportunidade de compartilhar suas culturas." Se aprendeu alguma coisa até agora? "Que todas as etnias são muito competitivas", diz. "Mas ao mesmo tempo muito humildes."

Ele diz que os desafios têm sido as barreiras linguísticas e atitudes com o tempo. "O pessoal aqui funciona num ritmo meio diferente", observa. "Tudo funciona meio no esquema – a coisa começa quando todo mundo chegar". Melton defende que encontros internacionais assim se repitam, e que o mundo tenha uma espécie de olimpíadas indígenas periódicas para promover o encontro de diferentes etnias.

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Alexandra Grigorieva, Sibéria.

Image caption Indígena russa atrai atenções com suas roupas bordadas

A russa Alexandra Grigorieva é uma atração à parte nos Jogos Mundiais Indígenas, e por onde passa chama atenção com suas ricas vestes com bordados dourados e miçangas e os sorrisos que distribui com os olhos puxadinhos, para compensar a dificuldade de se comunicar.

Sem timidez, desata a falar seu inglês quase incompreensível, pontuando com "very good!" (muito bom!) as respostas sobre Palmas, os jogos, o calor, a experiência aqui.

Alexandra é representante do povo indígena Sakha, de Yakutia, no leste da Sibéria, e preside a ONG Yurta Mira, que promove o esporte entre povos indígenas como forma de preservar tradições e ampliar o diálogo entre diferentes culturas no mundo. Ela viajou não para competir, mas para lançar, na sexta-feira, um livro – seu quarto – sobre "todos os povos indígenas de todo o mundo", resume.

A obra é uma sucessão de textos, atas e documentos de eventos que acompanhou representando os povos indígenas, incluindo diversos Jogos Olímpicos, em russo e inglês. Há anos ela vinha defendendo a realização de jogos olímpicos internacionais para povos indígenas.

Doutora em antropologia e especialista em medicina tradicional siberiana, ela abre o livro na página que cita o artigo 24 da Declaração de Direitos dos Povos Indígenas da ONU, que garante o direito de indígenas a manter e preservar suas práticas medicinais tradicionais.

"Eu que escrevi esse artigo", diz orgulhosa. Em Palmas, Alexandra está aproveitando todas as manhãs para ir à "praia" no rio Tocantins ("very good!") e está apaixonada pelos sucos brasileiros, principalmente o de manga – "number one juice!" ("suco número um!"), define.

Eyasu Joffe, Etiópia

Image caption Etíope corre mas diz que não é atleta profissional em casa

Enquanto o único participante da Gâmbia não chega, a África está representada nos jogos por três etíopes, cada um de uma etnia, e o líder do grupo é Eyasu Joffe, do povo kembata. Ele não sabe ao certo precisar a idade. "O que você acha?", pergunta apontando para a pele do rosto. "Tenho dito que são uns 33 anos."

Joffe está participando das competições de arremesso de lança e das corridas de 100 metros e longa distância. Mas em casa ele não é um atleta; preside a ONG Life to Live, que ajuda a tirar pessoas do lixão ao lado do qual cresceu, em Adis Abeba, e onde crianças e adultos buscam restos de comida.

Segundo Eyasu, a Etiópia tem mais de 80 etnias, cada um com um dialeto diferente. "Viemos representar nosso país. Não viemos para ganhar." Ele diz estar gostando muito da experiência, sobretudo do contato com as outras culturas.

"Estou aprendendo muito com as outras culturas. As tribos brasileiras são muito alegres, quando você pede para tirar fotos com eles todos topam felizes, mesmo se estão pelados, não se ofendem." Eyasu espera que a ideia se dissemine e haja mais eventos assim no futuro.