O raro caso da desertora que luta para voltar à Coreia do Norte

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Image caption Kim Ryen-hi diz ter sido enganada por traficantes e briga com autoridades para voltar à Coreia do Norte

A Coreia do Norte é um dos países mais fechados e repressores do mundo. Muitos arriscam suas vidas para fugir de lá.

Há quatro anos, Kim Ryen-hi deixou sua família na capital norte-coreana, Pyongyang, para visitar sua prima na China. Ela acabou fugindo para a Coreia do Sul. Mas a história de Kim chama a atenção porque ela é a única norte-coreana de que se tem conhecimento no mundo a querer retornar ao seu país de origem.

Ela diz que sua fuga foi um erro e já tentou retornar de várias formas – chegando, inclusive, a ser presa pelo governo sul-coreano, acusada de espionagem.

Atualmente, Kim trabalha em uma fábrica que recicla produtos eletrônicos na Coreia do Sul. Ela contou sua história ao programa Outlook da BBC.

"Eu levava uma vida muito normal em Pyongyang. Com meu pai, minha mãe, meu marido e minha filha de 20 anos. Meu marido era médico e eu administrava uma loja de roupas na universidade. Achava que todos no mundo viviam vidas simples como a minha", disse Kim Ryen-hi.

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'Árdua marcha'

A ideia que se tem sobre a Coreia do Norte no Ocidente é de que as condições de vida no país são duras e que a população sofre com falta de bens básicos como alimentos. Kim falou de sua experiência nesse aspecto.

"Acho que foi no início da década de 1990, tivemos um período descrito frequentemente como 'a árdua marcha'. Foi quando o sistema de distribuição do Estado começou a se deteriorar. A quantidade de comida que recebíamos não era a mesma de antes. Isso teve um impacto sobre as vidas de todos, mas acho que nenhum de nós culpou o Estado. A maioria achava que as sanções dos Estados Unidos é que haviam criado essa situação. Achávamos que isso era temporário."

Kim disse que saiu de Pyongyang em 2011. Ela calcula que a "árdua marcha" tenha atingido seu ápice em 1993. "Acho que depois disso as coisas melhoraram. E imagino que desde que saí de lá o país tenha se tornado mais próspero."

Um dia, Kim Ryen-hi decidiu pedir um visto para ir visitar a prima na China. Quando os documentos estavam prestes a sair, ela descobriu que tinha uma doença no fígado e foi hospitalizada por seis meses. Ao receber alta, se deu conta de que, caso não fosse para a China, a autorização de viagem perderia a validade. Kim decidiu viajar.

"Recebi um visto de dois meses. Passei o primeiro mês descansando na casa da minha prima. Decidi que seria bom ver um médico, (mas) fiquei muito surpresa com o preço da consulta. Decidi tentar ganhar algum dinheiro no mês que me restava."

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'Desertor'

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Image caption Ideia sobre Coreia do Norte no ocidente é de que condições de vida no país são duras

Kim começou a trabalhar em um restaurante coreano na China. Lá, conheceu traficantes que ajudavam norte-coreanos a fugir para a Coreia do Sul. Kim disse que os traficantes lhe perguntaram: "Se você for para a Coreia do Sul, só precisará trabalhar uns dois meses para ganhar um monte de dinheiro."

Kim disse que só mais tarde, quando o processo já estava em andamento, se deu conta da gravidade do que estava fazendo.

"Até aquele momento, sequer sabia o significado do termo defector (desertor, em tradução aproximada - o termo inglês é usado para designar pessoas que transferem sua lealdade de um Estado a outro)."

Após entregar seu passaporte, Kim encontrou outros desertores. Foi nesse momento que ela decidiu voltar atrás.

"Eu disse aos traficantes que tinha cometido um engano, mas eles disseram que meu passaporte já havia seguido e que eu teria de ir para a Coreia do Sul. Foi assim que tudo começou".

"Cheguei à Coreia do Sul em setembro de 2011 e, quando desembarquei no aeroporto, já havia um ônibus esperando. Fomos levados à agência de espionagem. Desde o primeiro dia, expliquei que tinha havido um engano, que queria voltar, não queria ficar ali. Mas me disseram que eu tinha de assinar um formulário concordando em me tornar uma cidadã sul-coreana. Se eu não assinasse, ninguém saberia onde eu estava. Se eu morresse ali, ninguém saberia. Comecei a ficar amedrontada", disse Kim.

Segundo ela, os sul-coreanos disseram que após seis meses ela poderia tirar um passaporte da Coreia do Sul. "Com relutância, assinei o documento."

Questionada se foi coagida a assinar os documentos e se tornar cidadã da Coreia do Sul, Kim respondeu que sim. "Me disseram que eu tinha de assinar a carta para poder sair dali. Por isso assinei."

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Agência de espionagem

Depois, Kim foi à Câmara Municipal requisitar seu passaporte, mas ouviu que não estava qualificada para receber o documento. "A agência de espionagem tinha dito que havia riscos de que eu tentasse retornar à Coreia do Norte."

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Image caption Norte-coreana afirma que situação do seu país vem melhorando

Kim disse que pensou em fugir de navio, mas descobriu que o preço era muito alto, US$ 20 mil. Fez pesquisas na internet, buscando formas de obter um passaporte falso, mas a polícia foi bater em sua porta.

Kim decidiu então adotar um plano mais radical:

"Foi uma ideia estúpida, mas achei que se fosse processada por espionagem, eles me deportariam para a Coreia do Norte. Então, comecei a coletar dados sobre outros desertores. Telefonei para a polícia e disse, 'Aqui estou, sou uma espiã norte-coreana, tenho informações sobre 17 desertores'. A polícia veio me prender."

Kim disse que não tinha a intenção de passar as informações e apenas queria dar credibilidade à sua história.

No entanto, a BBC ouviu relatos de que, durante seu julgamento, Kim Ryan-hi afirmou ter entregue dados sobre desertores norte-coreanos a um agente comunista em 2013, durante um jogo de futebol feminino entre Coreia do Norte e Coreia do Sul em Seul.

"Eu achava que a única saída para mim seria criar encrenca, então inventava coisas", disse. "Fui ao jogo de futebol sozinha e foi muito emocionante ver outros norte-coreanos lá. Quando voltei, menti para as autoridades, dizendo que tinha entregue as informações. Mas tudo isso foi descartado pelo tribunal por falta de provas."

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Prisão

Em julho do ano passado, Kim Ryen-hi foi presa e acusada de espionagem e falsificação de passaporte. Foi condenada a dois anos de prisão, mas cumpriu apenas nove meses de pena após recurso. Foi libertada em regime condicional mas está sob vigilância constante.

Muitos ocidentais diriam que Kim Ryen-hi agiu de forma tola e ingênua. Ela mesma admite isso.

"Muitas pessoas descrevem a Coreia do Norte como um país extremamente isolado. E é mesmo. Enquanto eu vivia lá, tinha pouquíssimo conhecimento a respeito da vida na Coreia do Sul. E as pessoas no sul também não sabem muito sobre a vida no norte. As pessoas no norte são muito inocentes, mas levam uma vida simples, apenas tomando conta umas das outras. Se eu soubesse sobre a situação na Coreia do Sul, e quão difícil ela é, talvez tivesse pensado de forma diferente."

Em depoimentos à BBC, outros norte-coreanos que fugiram da Coreia do Norte dizem ter arriscado suas vidas para escapar do país. Eles falam da repressão que sofreram, da fome e da sensação de liberdade que hoje vivenciam na Coreia do Sul.

Será que Kim Ryen-hi se dá conta de como sua história contrasta com a de seus compatriotas? Com voz embargada, ela respondeu:

"Você já pensou no fato de que (a Coreia do Norte) é a minha terra? Meus pais estão lá, minha filha. Não é uma questão de escolher. Eu perguntei a muitos desertores no sul, o que é felicidade? O que é liberdade? Sei que no norte as pessoas sofrem com a escassez de alimentos. Mas todos estamos na mesma situação. E as pessoas que vivem lá estão ali por lealdade à nossa terra. Eu pergunto (aos desertores), quão felizes, quão livres vocês podem ser, longe de suas famílias? O povo da Coreia do Norte está lá para proteger seu país, seu futuro. Quero me juntar a eles, voltar para a minha família, ser enterrada perto deles. E para mim, isso é mais importante do que qualquer riqueza material."

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Image caption Coreia do Norte é um dos paises mais fechados do mundo

Questão política

Kim questiona a ideia de que, por ter sido presa por espionagem, as autoridades não podem permitir que ela retorne à Coreia do Norte. Para ela, seu caso se tornou uma questão política.

"Entendo que, como esse é um caso sem precedentes”, disse. “Mas é tão cruel que seja negado meu direito de ver meus pais, meu marido e minha filha."

E será que ela não teme a reação do governo norte-coreano caso retorne?

"Claro que os norte-coreanos vão ficar desconfiados. Acho que deveriam ficar. Mas foi por acidente que me tornei uma traidora do Estado, ao vir parar aqui, na Coreia do Sul. Estou preparada para pagar por todos os pecados que cometi contra a minha pátria."

Segundo Kim, sua família pensa que ela ainda está na China. "Eles enviam cartas e fotos para minha prima na China. É assim que fico sabendo das novidades."

Kim disse que não lamenta ter mentido para as autoridades sul-coreanas - achava que essa era sua única saída. No entanto, disse que daqui para a frente não mentirá mais e lutará por meios legais para retornar ao seu país.

Mas se arrepende de ter acreditado nas histórias dos traficantes que conheceu na China.

"Não percebi que estava cometendo o maior engano da minha vida."

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