Projeto usa arte para 'embelezar' espaços de moradores da rua

Direito de imagem The ArtFabric
Image caption Projeto 'The ArtFabric' busca resgatar autoestima de moradores de rua levando arte para comunidades marginalizadas (Crédito: http://www.theartfabric.com/)

Em uma avenida movimentada de São Paulo, entre pedras e entulhos sob um viaduto antigo, vivem Antonio, João e Matias*, três "irmãos" que a rua uniu pelo que tinham em comum: desemprego, falta de dinheiro e vício em crack e álcool.

Os três moram ali há alguns meses, mas costumam passar despercebidos por quem circula na região. Há algumas semanas, eles ficaram mais visíveis. A imagem de um homem pensativo estampando uma das vigas do viaduto passou a atrair a atenção de pedestres e motoristas - alguns até se aproximaram para fotografar a arte na parede.

"Veio gente tirar foto da minha casa", brincou Antonio, aos risos.

O homem pensante foi apenas o primeiro: depois veio o desenho de uma mulher sensual sobre a cama de Antonio; um Gandhi saindo do cano; e a arte de um "negro índio" na parede.

Leia também: O pai que salvou dezenas de vidas se jogando contra um homem-bomba do 'EI' em Beirute

Siga a BBC Brasil no Facebook e no Twitter

Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Imagem de homem pensativo colado a viaduto foi fotografado por pedestres

As intervenções fazem parte do projeto "The ArtFabric" (A Fábrica de Arte, na tradução livre), criado por um casal de fotógrafos que decidiu usar a arte para resgatar a autoestima de moradores de rua e comunidades marginalizadas ao redor do mundo.

Eles admitem que seus desenhos e retratos não mudam a situação precária em que as pessoas vivem, mas trazem um impacto que consideram importante: a arte os torna "visíveis" para a sociedade.

"As pessoas passam pelos moradores de rua sem enxergá-los. Eles são ignorados, desviados. Com os desenhos, as pessoas começam a olhar para aqueles lugares e consequentemente para eles também", disse Fabi Futata, uma das criadoras do projeto.

"A importância maior é que a gente aumenta a visibilidade e resgata a autoestima deles. A gente reconhece o lar deles e, quando eles se veem retratados de uma forma artística, eles pensam: 'Olha, eu sou bonito!'."

Leia também: Qual o futuro do PMDB?

Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Antonio* cola outra imagem trazida pelos fotógrafos; logo, ele terá sua própria foto em forma de arte para colocar na parede

Fabi Futata, brasileira, e Eric Maréchal, francês, têm uma parceria com artistas de 140 países.

Na hora da entrega dos projetos artísticos, há uma troca: a reação dos moradores de rua aos trabalhos é fotografada, eles compartilham suas histórias e esse material é enviado de volta aos artistas. Esses, por sua vez, fazem um novo trabalho usando a imagem dos próprios moradores de rua que, ao receberem esse presente com seus rostos estampados, reagem com surpresa e admiração.

Segundo Futata, isso "estabelece uma conexão maior deles (moradores de rua) com a realidade".

"Todo mundo precisa de arte. Nós somos pagos com sorrisos. E recebemos muito mais do que entregamos", disse Maréchal.

'Não repare a bagunça'

Desempregado há alguns meses, Antonio foi morar na rua, onde encontrou João e Matias - os três vivem em um viaduto de um bairro nobre de São Paulo.

A "casa" deles naquele dia estava um pouco bagunçada, e eles até pediram desculpas pela "desorganização", prometendo fazer uma limpeza em breve. O churrasco regado a pinga Corote da noite anterior havia deixado rastros por ali.

Corote, aliás, é a cachaça que dá nome à "comunidade" criada ali pelos três: "100% Corote", escrito na parede. Embaixo foi colada a arte de uma mulher nua em pose sensual. Foi um presente dos fotógrafos a Antonio, que diz gostar "de olhar para ela antes de dormir".

Leia também: Fotógrafo captura formas de vida frágeis e surpreendentes no fundo do mar

Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Arte de mulher sensual fica sobre a cama de Antonio: 'Gosto de olhar para ela antes de dormir'

Outra imagem colada na "cabeceira" da cama deles é a do Mahatma Gandhi, cuja chegada deu a Antonio, João e Matias a chance de pela primeira vez ouvir a história do líder indiano conhecido por pregar a luta sem violência pela independência de seu país.

Conversa vai, conversa vem, Maréchal vai colando mais arte nas paredes do viaduto e dá outra delas para Antonio escolher onde colocar. As pichações das paredes vão dando lugar a imagens engraçadas ou intrigantes. A que eles mais gostaram foi uma do personagem Sheldon, da série de TV The Big Bang Theory, fumando um cigarro de maconha - eles não conheciam o personagem, mas se divertiram com a arte.

Direito de imagem BBC Brasil
Image caption Os três 'irmãos de rua' se mobilizaram para conseguir uma escada e colar a arte do personagem fumando maconha

Projeto

O "The ArtFabric" começou em 2011 e já passou por Brasil, Alemanha, Argentina, Estados Unidos, China, México e França visitando comunidades marginalizadas e levando a arte até elas.

"Uma das histórias que mais nos marcou foi a de Osvaldo e Joana*, um casal de moradores de rua que vivia num barraco na zona oeste de São Paulo. Ela estava grávida de oito meses e eu fotografei os dois no papelão onde dormiam", contou Futata.

Direito de imagem Fabi Futata
Image caption Fabi Futata fotografou casal dormindo em papelão na zona oeste de São Paulo (Crédito da foto: http://www.theartfabric.com/)

A fotógrafa se emocionou com a imagem e pediu a um dos artistas parceiros para "fazer uma arte" com ela. Mas pouco tempo após o encontro inicial, Futata e Maréchal descobriram que Osvaldo havia sido preso quando tentava roubar comida para Joana. Um ano se passou até que eles pudessem voltar ao local para entregar o trabalho artístico com a foto do casal. E, chegando lá, uma surpresa.

"Ao ver o retrato, ele (Osvaldo) ficou transtornado, com raiva. Descobrimos que Joana havia dado o filho dos dois para adoção. E que ela já estava grávida de um outro homem. Tudo isso enquanto Osvaldo estava preso. Olhar para aquele retrato era uma lembrança amarga do passado", relatou Futata.

Osvaldo acabou aceitando ficar com o retrato colado bem ao lado de seu colchão para poder aprender a "digerir" a raiva que sentia. "Com o rosto visivelmente inchado de chorar, ele colou a obra ao lado de sua casa. Uma semana depois, voltamos pra lá e encontramos Osvaldo muito feliz. Ele veio nos contar que Joana e ele haviam reatado, e que ele assumiria o novo filho dela."

Direito de imagem Fabi Futata
Image caption Osvaldo* admirado com a arte feita a partir da foto do casal (Crédito: http://www.theartfabric.com/)

Futata e Maréchal colecionam histórias de vidas na rua tocadas pela arte. O casal acredita que, dessa forma, pode dar voz a pessoas que passam tanto tempo sendo "invisíveis" na sociedade.

"É uma forma de dar uma voz diferente daquela vitimização que é feita, sempre retratando os moradores de rua como drogados, como 'noias'", diz ela.

*Os nomes são fictícios.

Direito de imagem The ArtFabric
Image caption Projeto também já levou trabalhos para Berlim, na Alemanha (foto), além de China, Argentina, México e outros 3 países (Crédito: http://www.theartfabric.com/)