Arqueologia pode desmentir a Bíblia? As inesperadas perguntas do teste de Oxford

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Image caption Universidade divulga modelos de questões de entrevistas para evitar boatos

Se você colocar uma régua de 30 cm em cima de um dedo de cada mão, o que acontece quando você junta os dois dedos?

E a arqueologia pode provar ou refutar a Bíblia?

Você poderia ter de responder questões como estas se fosse um dos chamados para uma entrevista na Universidade de Oxford no caso de ter se candidatado a uma vaga no prestigioso estabelecimento.

A universidade costuma publicar alguns exemplos de perguntas antes do prazo final de inscrições com a intenção de dissipar rumores sobre as questões.

A BBC Brasil inclusive fez uma reportagem com as perguntas do ano passado.

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"Sabemos que ainda existem muitos mitos em relação à entrevista de Oxford, então publicamos toda as informações possíveis para permitir aos alunos entender a realidade do processo", disse a diretora de Educação, Samina Khan, à BBC.

"Os tutores querem ver apenas como pensam os estudantes e como respondem a novas ideias. Não nos interessa fazer pegadinhas", completa.

Segundo Khan, a entrevista é "uma conversa acadêmica sobre uma área entre os tutores e os candidatos".

"Muitas vezes é melhor começar respondendo com observações óbvias e elaborando a discussão a partir daí, em vez de assumir que exista um sentido oculto na pergunta ou que se espere uma resposta altamente complicada e imediata", ela aconselha.

E como seriam as respostas às questões do início desta reportagem - e a outros exemplos dos testes de admissão de Oxford?

Vamos começar com a primeira.

O que acontece se você une os dedos segurando uma régua?

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Uma pergunta desse tipo poderia ser feita a candidatos de Engenharia. Quem responde é Steve Collins, da University College Oxford.

Neste exemplo, muitos antecipariam que a régua cairia quando um dos dedos se aproximasse do centro da régua. Mas, quando fazem o experimento, se dão conta de que, como ambos os dedos chegam ao centro ao mesmo tempo, a régua não perde o equilíbrio.

O que queremos ver é a reação dos candidatos ao inesperado e, assim, os encorajamos a repetir o experimento lentamente. Pedimos que eles levem em conta fatores como fricção para que cheguem à conclusão de que há uma força maior no dedo que está mais perto do centro da régua.

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Isso significa que há mais fricção entre a régua e esse dedo e, então, a régua desliza sobre o dedo que está mais longe primeiro. Esse argumento é válido até que ambos os dedos estejam à mesma distância do centro.

O candidato deve então ser capaz de explicar por que os dedos chegam ao centro ao mesmo tempo, como observado.

Podemos chegar a discutir o fato de que o coeficiente de fricção estática é mais alto que o coeficiente de fricção dinâmica. Assim, o dedo "que se move" se aproxima mais do centro que o dedo estático, antes que este último começar a se aproximar do outro dedo.

A arqueologia pode provar ou refutar a Bíblia?

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Pergunta para candidatos ao curso de Estudos Orientais respondida por Alison Salvesen, de Mansfield College.

Eu esperaria uma resposta que demonstre que o candidato consegue entender a Bíblia como uma coleção de documentos escritos e transmitidos durante vários séculos e que contém tradições importantes que guardam relações com a história, mas que o estudo acadêmico da Bíblia implica que ela deve ser examinada cuidadosamente para ver de quando e de onde vêm essas tradições e qual foi o propósito de escrevê-las.

Eles devem reconhecer que a arqueologia se baseia em fontes não literárias preservadas desde períodos antigos, como restos de construções e ferramentas.

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Frequentemente, esses resquícios podem ser datados por meios científicos (que parecem mais objetivos que a literatura). Mas frequentemente necessitamos de informações adicionais, como inscrições ou provas de outros locais semelhantes para poder dar sentido a esses restos antigos.

Ao final, eu esperaria que o candidato chegasse a compreender a diferença da natureza desses tipos de evidência, o que às vezes ajuda a completar a cena mas que, outras vezes, a contradiz.

Ambas requerem uma interpretação cuidadosa, e argumentar apenas que "A Bíblia diz" ou "A arqueologia prova" é muito simplista.

Profissionais do mercado financeiro merecem salários tão altos ou o governo deveria limitá-los?

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Questão para quem quer estudar Economia e Gestão respondida por Brian Bell, tutor de Economia de Lady Margaret Hall.

Uma resposta simples poderia ser que, como os bancos são empresas privadas e os empregados são livres para trabalhar onde quiserem, os salários que recebem é apenas o resultado de um mercado de trabalho competitivo.

Nessa narrativa, os executivos de bancos e outras instituições financeiras ganham muito porque têm muitas habilidades e talentos únicos. É difícil encontrar uma razão para que o governo intervenha se se pensa assim, ainda que, sob o ponto de vista da igualdade, seria desejável um sistema tributário progressivo que redistribua parte dessa renda.

Um bom candidato se perguntaria por que pessoas que parecem igualmente talentosas podem ganhar tão mais em um banco do que em outras ocupações. Acreditamos mesmo que os executivos desse setor são tão melhores que outros empregados em termos de habilidades?

Uma argumentação alternativa é a de que a indústria bancária não é tão competitiva e gera lucros acima do que um mercado competitivo produziria. Nesse caso, o governo poderia intervir para fazer que o mercado seja competitivo.

O ponto-chave é que os candidatos pensem sobre os fundamentos econômicos do mercado e não sobre se ele é justo ou não.

Imagine que cem pessoas coloquem US$ 1 em um balde. Cada pessoa escolhe um número de 1 a 100. O ganhador é a pessoa cujo número seja mais próximo de 2/3 da média de todos os números escolhidos. Que número você escolheria e por quê?

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Pergunta comentada Nick Yeung, do University College, para quem quer estudar Psicologia Experimental.

A primeira resposta de algumas pessoas seria "2/3 de 100 - 66 ou 67 -", mas neste caso eu pergunto qual número todos os demais teriam que ter escolhido para que você ganhasse.

Todos os outros teriam que ter escolhido 100, o que é muito improvável.

É mais comum que as pessoas respondam 2/3 de 50 (33), o que parece intuitivamente mais possível.

Neste momento, e normalmente sem que eu diga nada, a natureza recursiva da solução se torna óbvia: se há uma boa razão para que eu escolha 33, então imediatamente todos os outros escolheriam 33 também, em cujo caso devo escolher 2/3 de 33... mas então todos pensariam o mesmo, assim que eu deveria escolher 2/3 deste número... e assim por diante.

Supondo que todos pensassem assim, ao fim todos decidiriam escolher 0, que é a solução formal da "teoria dos jogos".

Neste ponto, eu faria perguntas que mostrariam as habilidades mais amplas de raciocínio do candidato em termos de como poderíamos decidir o que é racional fazer neste jogo.

A pergunta também tem um ângulo psicológico, ao pensar nas razões de conduta e escolha das pessoas. Todos farão o mesmo esforço? Todos se sentirão motivados com a possibilidade de ganhar?

Nos interessa ver como pensam as pessoas diante de um problema, como determinam quais são os fatores relevantes e como respondem quando têm mais informações.

Por que açúcar na urina é um indicador de que você pode ter diabetes?

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Questão para estudantes de biomedicina respondida pelo professor Robert Wilkins, do St Edmund Hall

A questão usa o conhecimento geral estudado na escola em biologia e química para mostrar como os estudantes abordam um problema clinicamente relevante. É senso comum associar a diabetes à presença de açúcar (glicose) na urina.

Essa questão quer que os candidatos pensem sobre o por quê de isso ocorrer. Normalmente, eles aprendem que os rins filtram o sangue para remover substâncias como a ureia, que precisam ser eliminados do corpo, mas que muitas outras substâncias que não devem ser eliminadas, como a glicose, também são filtradas.

Considerando que a glicose não costuma ser encontrada na urina, os candidatos são levados a especular sobre como ela pode ser reabsorvida à medida que a urina passa pelos túbulos renais.

O processo envolve reabsorção por uma proteína transportadora que liga as moléculas de glicose e as leva para fora do túbulo renal e de volta para o sangue.

Os estudantes devem entender que, ao se ligar à glicose, a proteína vai compartilhar propriedades com enzimas sobre as quais eles aprenderam na escola: a capacidade de reabsorver glicose é finita porque, uma vez que todas as transportadoras estejam em sua capacidade máxima, a reabsorção de glicose para de ocorrer.

Um candidato bem-sucedido irá fazer a conexão de que um nível elevado de glicose no sangue na diabetes leva a um aumento da filtragem de glicose pelos rins e à saturação das transportadoras que fazem a reabsorção, resultando em um "derramamento" de glicose na urina.