Candidato apoiado por Lula na Argentina 'recicla' propaganda do PSDB

Image caption Criador de campanha de Scioli admitiu que 'a ideia é a mesma' do spot de campanha de opositor de Dilma Rousseff

Um vídeo da campanha do candidato governista à Presidência da Argentina, Daniel Scioli, chamou a atenção pela semelhança com uma propaganda do PSDB veiculada no Brasil em setembro passado.

A peça de Scioli, veiculada na quarta-feira, mostra pessoas com máscaras do rosto do candidato opositor Mauricio Macri, da coalizão de centro-direita Cambiemos (Mudemos).

Homens e mulheres tiram as máscaras à medida que o locutor cita medidas do governo que seriam combatidas por Macri.

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"Essa é Rosa. Ela queria votar em Macri, até que soube que ele foi contra a estatização dos fundos de pensão e aposentadorias (AFJP, na Argentina)", diz o locutor, enquanto uma atriz levanta a máscara e expõe o rosto à câmera. A estatização em questão foi implementada pela presidente Cristina Kirchner, em 2008.

Image caption Propaganda do candidato de Cristina KIrchner exibe atores com máscaras do rival Mauricio Macri
Image caption Peça da campanha de Aécio veiculada no final de setembro do ano passado inspirou propaganda na Argentina

Com música suave ao fundo, a propaganda exibe cinco casos para convencer o eleitor a desistir do voto em Macri, que lidera a maioria das pesquisas do segundo turno.

O spot termina com o locutor conclamando o eleitor a votar no próximo dia 22 - data do 2º turno da eleição presidencial - "por uma Argentina sem máscaras".

Original tucano

O vídeo emula uma peça usada em setembro em um programa do PSDB: as máscaras, o ritmo musical e, nesse caso, promessas da então candidata à reeleição que não teriam sido cumpridas.

"A Maria votou na Dilma porque ela prometeu inflação sob controle. A inflação voltou e a Maria está sentindo no bolso", diz a locutora enquanto a brasileira afasta a máscara do rosto de Dilma.

Image caption Atores retiram as máscaras após locução citar posicionamentos de Macri sobre ações do governo
Image caption Marqueteiro que produziu as peças de Aécio e Scioli negouque tenha cometido 'autoplágio'

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O vídeo do PSDB traz outros três exemplos e se encerra com a locução: "Com tanta mentira, um dia a máscara cai". E a frase "Xô mentira, xô corrupção".

A semelhança entre os filmes foi logo notada na Argentina, motivando críticas ao candidato da situação. Pelo Twitter, eleitores e políticos afirmaram que Scioli estava "copiando" o vídeo do PSDB.

"Scioli copiou spot contra Dilma", escreveu um usuário. "Esse homem não sabe fazer campanhas originais", escreveu uma leitora.

O autor da ideia, o jornalista e marqueteiro político Augusto Fonseca, da empresa MPB (Marketing Político Brasil), negou que a peça de Scioli seja uma cópia.

"Não é uma cópia porque a ideia é a mesma", afirmou à BBC Brasil.

Segundo ele, o objetivo da propaganda é alertar o eleitor sobre as convicções do candidato opositor.

Ex-profissional do Jornal do Brasil, Augusto trabalha na estratégia da campanha de Scioli, que inclui a produção de vídeos, e já assessorou campanhas do PT antes de trabalhar para o candidato do PSDB Aécio Neves, na eleição presidencial passada.

Comparações

No atual pleito argentino, Macri costuma ser comparado a Aécio por se aproximar mais da centro-direita, enquanto Scioli representaria a linha de governos de centro-esquerda como o de Dilma.

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva chegou a subir em palanque com Scioli na campanha do primeiro turno, em uma localidade na periferia de Buenos Aires.

Direito de imagem AFP
Image caption Daniel Scioli (à esq.) e Mauricio Macri se enfrentam nas urnas no próximo dia 22; opositor lidera pesquisas

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O gesto explícito de apoio de Lula não foi visto com bons olhos por assessores de Macri, que entenderam ser uma interferência na campanha do país vizinho.

Nesta quarta-feira, ao ser entrevistado na TV, Scioli foi questionado se o vídeo das máscaras não seria "campanha suja" contra o adversário, enquanto um painel no estúdio exibia a imagem das máscaras do vídeo com o rosto de Macri.

Ele respondeu: "Não é campanha suja, é uma visão publicitária sobre a campanha".

Segundo três pesquisas de opinião divulgadas esta semana, Macri lidera a intenção de votos para o pleito que será realizado em menos de duas semanas.

No entanto, com cerca de 10% de indecisos, assessores de Scioli afirmam que "a disputa está aberta" e o panorama ficará mais claro após o debate entre os presidenciáveis neste domingo. Será o único debate da campanha entre os dois. No primeiro turno, Scioli não foi ao programa.