Conheça os animais que um dia poderão ensinar o homem a viver 200 anos

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Image caption A baleia-da-Groelândia

Envelhecer não parece ser tão inevitável assim para alguns animais. Muitos já descobriram maneiras de atrasar a morte. E deixaram pistas para ajudar todos nós a viver vidas mais longas e saudáveis.

Um exemplo: 30 anos depois de Herman Melville publicar o clássico Moby Dick, um grupo de caçadores de baleias do Alasca tentou abater um gigante dos oceanos de verdade. Seu alvo era uma baleia-de-Groenlândia, o segundo maior animal do mundo. Uma espécie que no século 19 já era conhecida pela longevidade.

Os caçadores tinham até um arpão disparado por um canhão. Mas a baleia escapou com apenas um ferimento de raspão. Um grupo de caçadores finalmente deu cabo do animal - mas isso só aconteceu em 2007, 120 anos após ela “driblar” a expedição original.

Fragmentos do arpão original ainda estavam na pele da baleia.

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Metabolismo

De acordo com biólogos, as baleias-da-Groenlândia vivem pelo menos 150 anos, podendo chegar até 210. Mas além de cicatrizes de batalha, a pele enrugada e uns quilinhos a mais, os cetáceos exibem raros sinais de envelhecimento. Por isso, despertam o interesse de cientistas.

“As baleias vivem muito mais do que humanos, mas em ambientes selvagens e sem acesso a médicos ou outros confortos da sociedade” , explica o biólogo João Pedro de Magalhães, da Universidade de Liverpool.

“Sendo assim, elas devem ser naturalmente protegidas de doenças do envelhecimento” .

Estudando essas baleias e outras criaturas de alta longevidade, Magalhães e seus colegas esperam descobrir novos remédios que terão em humanos os efeitos de redução da decadência corporal e o retardamento da morte.

“O processo de envelhecimento é um mistério. Sabemos muito pouco sobre ele em comparação com outros processos biológicos, mas o envelhecimento é diretamente a maior causa de sofrimento e morte no mundo moderno. Se conseguíssemos retardá-lo um pouquinho, seria para um benefício humano sem precedentes”.

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Image caption Animais guardam segredos de como evitar o crescimento desordenado das células e o câncer

Vadim Gladyshev, da Universidade Harvard, concorda. “Trata-se da mais importante questão biológica, pois a maioria das doenças humanas crônicas é consequência do envelhecimento. Se conseguirmos retardar o envelhecimento, teríamos o mesmo efeito simultaneamente em doenças como o câncer, o Alzheimer e a diabetes”, diz Gladyshev.

Vários fatores contribuem para o envelhecimento. Para começar, há o ambiente. Ninguém vive em uma bolha, então o DNA humano pode ser danificado por substâncias químicas nocivas ou radiação. Embora nossas células tenham maneiras de reparar esses danos, eventualmente eles se tornam muito extensos, levando a mutações que fazem com que células se transformem em tumores.

Nosso metabolismo também pode enfrentar problemas. Assim como uma fornalha que precisa de limpeza regularmente, nossas células produzem detritos ao queimar combustível. Este “entulho” se acumula ao longo do tempo e pode perturbar processos biológicos.

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E, finalmente, o organismo encontra problemas para fazer a manutenção de órgãos vitais: cada um de nossos cromossomos tem amontoados de DNA em suas pontas, chamados de telomeres. São como aquela capinha plástica nas pontas de cadarços de sapatos, que impedem o esgarçamento.

Mas cada vez que as células se dividem, os telomeres ficam menores, e encurtados ao ponto de prejudicar o funcionamento das células, que podem morrer. Esse desgaste nos deixa vulneráveis a várias doenças.

Mas essa marcha inexorável em direção à morte pode ter o ritmo diminuído. E há diversas pistas apontando para isso. A metaformina, droga usada comumente no tratamento da diabetes, por exemplo, já provou poder diminuir modestamente o envelhecimento em ratos.

E a simples mudança em um gene envolvido no metabolismo celular em minhocas pode fazer com que você viva bem mais que seus pais. É pouco provável que essa mudança beneficie organismos mais complexos, mas estudos sugerem que o envelhecimento não está totalmente fora de nosso controle. “É um processo plástico, que pode ser moldado”, diz Magalhães.

Cientistas agora procuram mais candidatos. Apenas no reino dos mamíferos, a vida média varia incrivelmente. Há ratos que vivem 18 meses, ao passo que, como vimos antes, as baleias-da-Groenlândia podem passar dos 200 anos. É como se a seleção natural de certa maneira forçou algumas criaturas a evoluir o próprio elixir de suas vidas.

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Image caption A toupeira-pelada, incrivelmente resistente ao câncer

Toupeira-pelada

“A natureza muda a duração da vida o tempo todo, mas a pergunta é ‘como’. E será que podemos localizar esses mecanismos e aumentar a longevidade humana?”, questiona Gladyshev.

As criaturas mais interessantes são as exceções. As que conseguem vivem mais do que espécies próximas. E nem sempre são magníficas como a baleia-da-Groelândia. A toupeira-pelada, por exemplo, não parece uma garota-propaganda de longevidade bem-sucedida, com sua pele nua e enrugada. No entanto, vive mais de 30 anos, muito além do que ratos bem-alimentados podem conseguir.

A toupeira-pelada também é incrivelmente resistente ao câncer – em milhares de espécimes estudados, nenhum tumor foi encontrado. Mesmo quando banhados em potentes carcinogênicos, as toupeiras continuaram imunes. Isso pode ser explicado pelo fato de que suas células tendem a parar de crescer quando ficam muito densas – mecanismo que impede tumores de se espalharem. O truque parece vir da grande concentração de uma substância química conhecida como hyaluronan.

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Moléculas desta substância fazem parte da estrutura do revestimento de células e podem ter evoluído para fazer a pele da toupeira-pelada mais elástica para facilitar sua entrada em espaços apertados. Hoje, parece também dar o sinal para que as células parem de se multiplicar de forma descontrolada. Em outras palavras: mesmo que uma mutação ocorra e forme um tumor, o hyaluronan impede que ele se desenvolve mais.

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Image caption O ambiente e o metabolismo são fatores que influenciam o envelhecimento humano

Gladyshev também estudou o morcego de Brandt, uma pequena criatura que pode viver mais de 40 anos, apesar de pesar menos que um cubo de açúcar. “Considerando seu tamanho, trata-se do caso mais extremo”, diz Gladyshev. Ele diz ter encontrado mutações no sistema hormonal do morcego que podem podem oferecer pistas de como controlar o metabolismo de mamíferos.

E a baleia-da-Groelândia? Seu enorme tamanho, 20 metros de comprimento e até 100 toneladas de peso, cria alguns desafios que são de interesse particular para biólogos. Se suas células queimam energia na mesma proporção que ratos, o calor seria suficiente para aquecer a água em volta. Então, a baleia evoluiu para viver com um metabolismo mais lento e temperatura corporal mais baixa.

Mas um corpanzil como o do cetáceo também resultaria em um enorme risco de câncer, por uma simples questão matemática: quanto mais células você tem, maior é o risco de desenvolver uma mutação perigosa. E os problemas ficam maiores o quanto mais se envelhece.

Com base em taxas humanas de câncer, todas baleias deveriam estar repletas de tumores antes mesmo de ficar adultas. No entanto, continuam vivendo por pelo menos mais um século. Isso é um conhecido como o Paradoxo de Peto. Baleias, assim como a toupeira-pelada, adotaram truques evolucionários para lidar com mutações nocivas.

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Image caption Pessoas mais altas têm mais chances de desenvolver câncer

“Esses animais são reais exceções. Contam com mecanismo de supressão de tumores de que nós humanos carecemos” , afirma Magalhaes.

Ele e sua equipe estudaram amostras de material genético de baleias-da-Groelândia e encontraram pistas que podem mostrar o caminho para remédios. Chamou a atenção especificamente uma mudança em um gene chamado ERCC1.

Tal gene supostamente tem um kit de reparos molecular que pode remendar áreas do genoma. Na baleia-da-Groelândia esse gene sofre mutações que tornam esse trabalho ainda mais eficiente, prevenindo o acúmulo de mutações que podem causar câncer.

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A equipe de Magalhães também detectou mudanças em um gene chamado PCNA, envolvido em proliferação de células. Ele participa da formação de uma proteína que funciona como uma espécie de pinça, segurando as máquinas moleculares que causam a multiplicação do DNA. As baleias têm regiões duplicadas do gene, e as mutações parecem ajudar com que ele interaja com outras partes do processo de reparo do DNA.

O desafio para os cientistas agora é descobrir como adaptar as mutações vistas em animais para que ocorram em humanos. O primeiro passo é desenvolver amostras de tecido humano com algumas dessas mutações. “Se mudarmos as proteínas humanas para que se pareçam mais com as das baleias, poderemos ver se elas melhoram o reparo do DNA. E aí usaríamos os genes da baleia em ratos para ver se eles viveriam mais”, afirma Magalhães.

Após esses testes iniciais, o próximo passo seria criar as mesmas mudanças no incrivelmente complexo corpo humano, quiçá com drogas que imitassem os efeitos dos genes. No futuro, terapias genéticas poderiam ajudar a ajustar o DNA de humanos. Em um instante, poderíamos nos beneficiar instantaneamente de mutações que levaram milhões de anos para serem desenvolvidas pelas baleias.

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Image caption O morcego de Brandt

“Não há reações para descartarmos essa possibilidade para o futuro” , afirma Magalhães.

Há um longo caminho de testes. Embora tenhamos relativa proximidade com outros mamíferos em termos evolucionários, algo que funciona em uma baleia ou em um rato pode ter efeito limitado ou nulo no corpo humano. “Você pode sempre achar as diferentes maneiras em que diferentes organismos contêm o câncer, mas se elas serão úteis em terapia é imprevisível” , explica Leonard Nunney, especialista em evolução do câncer na Universidade da Califórnia em Riverside.

As respostas da natureza para o câncer evoluíram de forma apropriada para as circunstâncias únicas de cada organismo. Ainda assim, Nunney diz que novas alternativas para buscar na natureza soluções para problemas médicos são sempre bem-vindas. “Os cientistas estudando o câncer estão começando a reconhecer que a incorporação de ideias evolucionárias pode dar resultados”.

Magalhães se mantém esperançoso. “A história está cheia de especialistas que classificaram alguns avanços de impossíveis, mas foram desmentidos logo depois. As baleias-da-Groelândia são novamente um exemplo. Há 120 anos, quando algumas delas ainda eram crianças, infecções ameaçadoras era comuns na vida das pessoas. Hoje, antibióticos fazem parte dos mais básicos sistemas de saúde.

Cientistas veem a velhice como a grande doença que precisa ser curada. “Não se trata apenas de estender o período de velhice. Queremos pessoas de 70 anos com a saúde de alguém de 50”, afirma Magalhães. Talvez em 2120 nós olharemos para trás com admiração para analisar os primeiros passos rumo a este objetivo.

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Future

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