Análise: Quais podem ser as consequências do ataque para os muçulmanos na Europa?

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Image caption Tributo diz 'Solidariedade contra a covardia e com as famílias das vítimas', diante de restaurante parisiense alvo de ataques

Os sangrentos ataques em Paris, nesta sexta-feira à noite, podem representar um ponto de inflexão para a Europa em um momento delicado de sua história.

Eles potencialmente geram um fator de união (como sempre ocorre neste tipo de tragédia) em relação ao tema mais delicado do momento nas relações entre os países do continente: a formulação de uma política comum em relação à onda de imigração proveniente de países de maioria muçulmana.

Nunca se tornou mais urgente a busca de uma solução comum. Neste momento, a reação na França é, como não poderia deixar de se esperar, de intensa comoção e choque. O próximo passo, que já se faz ouvir em meio às lágrimas e o sangue, será a busca de culpados.

Agora que o grupo autodenominado "Estado Islâmico" reivindicou a autoria do ataque, o natural é que a maior parte da opinião pública pressione as autoridades para que tomem alguma atitude contra os muçulmanos como um todo – punindo-os coletivamente, ante a dificuldade de sempre de separar-se os muçulmanos não radicalizados dos que o são.

Dada a escala do massacre, é muito possível que essa visão prevaleça no gabinete do presidente François Hollande, em vez da visão comedida de não escalar a "guerra" contra os muçulmanos em um país em que tantos seguem a religião.

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E a reação mais fácil nesse sentido seria fechar as fronteiras. Não de forma emergencial, como foi anunciado pelo próprio Hollande após o ataque. Mas eliminar a concessão de refúgio, fechar de forma indeterminada a entrada dos sírios e afegãos que atravessam o continente em um dos maiores movimentos de migração da história recente. Negar-se a receber mais imigrantes, por ora.

Como esse movimento de um dos países maiores países da Europa Ocidental afetaria a reação de seus vizinhos – especialmente a Alemanha – em relação à imigração?

Cúpula

É auspicioso o momento em que ocorre o ataque – ao final de uma semana que teve a cúpula dos países europeus e africanos, em que os europeus tiveram novamente a oportunidade de discutir a saída comum.

Nela, foram contrapostas as visões já conhecidas. A visão da Alemanha, defensora de que os imigrantes sejam distribuídos entre os países europeus seguindo um regime de cotas, e a britânica, que prega que os imigrantes recebam ajuda e eventual refúgio antes de arriscarem a vida na travessia entre Turquia e Grécia.

Não houve avanços. A Europa permanece dividida. Mas surgiram mais sinais que, com o ataque na França, devem ser agravados.

Por exemplo: a Suécia, o país que, proporcionalmente à população, mais concedeu refúgio a imigrantes entre janeiro e junho, anunciou durante a reunião a reintrodução de checagem de fronteiras – tornando-se mais um país a colocar em xeque as regras do Espaço Schengen, de livre circulação no espaço da União Europeia.

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Image caption Merkel e Stefan Logven, governantes da Alemanha e Suécia; Europa não consegue acordo sobre como lidar com a imigração

A direita europeia

Também é necessário ver os ataques sob o contexto de crescimento dos partidos de direita em vários países da Europa. E, na França em especial, da Frente Nacional, de Marine Le Pen.

A semente da xenofobia que alimenta esses partidos já há muito desabrochou e gera frutos. Que efeito um ataque dessa magnitude em território francês teria sobre esse sentimento?

É natural imaginar que, na França e em países vizinhos, as mortes apenas reforcem os argumentos desses partidos de que uma resposta mais contundente precisa vir, de alguma forma.

Que não se leve em conta que a França já é um dos que menos concedem asilo em relação ao total da população (ganhando apenas de Finlândia e Reino Unido), segundo levantamento da Eurostat, a agência estatística europeia.

E a corda, como diz a sabedoria popular, sempre tende a arrebentar do lado mais fraco – neste caso, os imigrantes.

O fim do multiculturalismo?

E os muçulmanos que já estão na França, o que podem esperar após o ataque?

Pensando friamente, não há muito que Paris possa fazer além do que já fez após o episódio da Charlie Hebdo. Mais do mesmo: aumento da segurança nas ruas, uso de inteligência para tentar frear os agressores antes que eles possam agir.

A população não muçulmana pode dar mais ímpeto para políticos que pregam uma saída radical. Marine Le Pen, assim, reforçaria sua posição para as ainda distantes eleições presidenciais de 2017.

É claro que se espera também a reação contrária, com milhares tomando as ruas para inocentar os muçulmanos e pedir paz. Mas também, em vista de um segundo e ainda mais traumático ataque, é inegável que a posição dos pacifistas se torna mais fragilizada.

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Image caption Presidente francês François Hollande determinou fechamento de fronteiras em caráter emergencial

De qualquer forma, um debate que há muito está na raiz das sociedades europeias deve voltar à tona com tudo: o debate sobre a sustentabilidade do modelo de multiculturalismo adotado nas grandes cidades europeias.

Em um discurso em 2010, Merkel disse que o multiculturalismo era "profundamente fracassado". A controvérsia tomou o país, com o então presidente, Christian Wulff, retrucando que o Islã já havia se tornado parte da cultura alemã. Cinco anos depois, o país recebe de braços abertos milhares de sírios e o "fracasso profundo" não gerou medidas claras de Merkel para proteger ou resgatar o que seria um "espírito alemão".

Em 2011, foi a vez do primeiro-ministro britânico, David Cameron, que se manifestou a favor do fim do "multiculturalismo de Estado", alegando que os muçulmanos deveriam se adaptar aos valores do país. Novamente, o debate rendeu e, em 2012, em vista dos quebra-quebras em Londres durante o verão, analistas chegaram a falar que o multiculturalismo estava "morto".

Ainda assim, Londres continua sendo uma das cidades mais multiculturais do mundo.

Pode um ataque dessa magnitude pode levar a medidas radicais para que os muçulmanos "amem ou deixem" os países não muçulmanos que adotaram como lar? Se sim, quais medidas seriam essas? E elas trariam resultado?

Em meio a tantas dúvidas, difícil imaginar um cenário em que os muçulmanos possam sair ganhando.

*O jornalista brasileiro Rafael Gomez é mestre em Estudos da Rússia e da Europa Oriental pela Universidade de Birmingham, Reino Unido.