Médico que socorreu feridos descreveu ‘cena de guerra’ no Bataclan

Direito de imagem
Image caption O doutor Denis Safran foi um dos primeiros a entrar no Bataclan. Foto: reprodução de imagem transmitida pelo canal France 2

"Eram ferimentos de guerra", afirma o professor Denis Safran, médico que atua nas operações de uma tropa de elite da polícia francesa, se referindo às vítimas do atentado na casa de shows Bataclan, em Paris, na sexta-feira, onde morreram 89 pessoas.

Safran, que já havia atuado no ataque contra o supermercado judaico em Paris, em janeiro, participou de toda a operação no Bataclan, utilizando os mesmos tipos de proteção dos policiais, como colete à prova de balas e capacete.

Ele foi um dos primeiros a entrar na casa de shows com a Brigada de Busca e Intervenção (BRI, na sigla em francês), quando os atiradores ainda estavam vivos, mas não se sabia, nesse primeiro momento, onde eles estavam ou se haveria explosivos no local.

"Só havia ferimentos hemorrágicos a balas, em grande número. É o tipo de situação que encontram os médicos de guerra. Na França, não estamos habituados a esse tipo de cena", disse o médico à BBC Brasil.

Leia também: 'Não sabíamos de nada': irmão de acusado diz que pais estão em estado de choque

Siga a BBC Brasil no Facebook

Apesar de exercer a medicina há 44 anos e de já ter participado de inúmeras operações policiais, Safran, que também atua como consultor para o Ministério do Interior, diz "jamais ter visto cenas como essas".

"Havia tantos corpos misturados no chão, mortos em meio a feridos pedindo socorro", conta o médico.

"Já vi muitos feridos graves na minha carreira, mas não um número tão grande."

Direito de imagem AP
Image caption Ataque no Bataclan deixou quase 90 mortos

Logo ao entrar no local, ele diz ter ficado chocado com o número de mortos, "muito jovens", de feridos em estado muito grave e de potenciais vítimas, já que os dois terroristas vivos, que estavam no 1° andar da casa de shows, poderiam continuar atirando ou causar uma explosão.

Leia também: Mineradora não entrega água suficiente para cidade afetada por lama, diz prefeita

O terceiro terrorista, que tinha ficado no no térreo, já havia sido abatido por um policial. Ele foi o único que não detonou sue cinto de explosivos.

Na urgência, para tentar salvar vidas, Safran conta que precisou pular os corpos de pessoas já falecidas.

"Era uma cena de execução. Ferimentos a bala na cabeça, no tórax, nas costas. As pessoas foram assassinadas metodicamente", disse Safran à BBC Brasil.

"Fiquei chocado ao ver tantas vítimas tão jovens", diz. O número de feridos encaminhados a ele era tão grande que o médico ficou sobrecarregado.

Operação militar

"Somos obrigados a estabelecer prioridades para tentar salvar os que podem ser salvos."

A triagem dos feridos, diz o médico, é feita de "maneira militar", com critérios claros: a natureza e gravidade dos ferimentos e as chances imediatas de sobrevivência, afirma Safran.

As equipes de socorro médico só puderam entrar no Bataclan ao término do cerco policial, que acabou quando os dois "kamikazes" restantes detonaram seus cintos de explosivos.

"O resgate médico só pode entrar quando a área já está totalmente segura. Se houver novos tiros ou explosões, as equipes podem morrer também e elas são essenciais nessas situações."

Ele também auxiliou os reféns a escapar. "Disse aos menos inválidos para levantar e fugir." Outros foram retirados pelo telhado, onde haviam conseguido se esconder.

Alguns reféns chegaram até mesmo a quebrar o teto de um dos banheiros e se esconder no forro.

Leia também: 'Gay da favela não usufrui de avanços. Ainda estamos lutando pela vida', diz ativista transexual

Safran afirma que a tomada de reféns no supermercado judaico Hyper Cacher, em janeiro, foi uma operação mais simples.

Isso porque, diz o professor, no supermercado houve menos mortos (quatro) e feridos e havia também apenas um terrorista, Amedy Coulibaly.