Ataques em Paris aumentam pressão para que EUA rejeitem refugiados sírios

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Image caption Presidente da Câmara dos Representantes, o republicano Paul Ryan defendeu o projeto

Uma semana após os atentados que deixaram 129 mortos em Paris e a um ano da eleição presidencial de 2016, os planos do governo americano de receber refugiados sírios vêm enfrentando crescente resistência de políticos de oposição e até do próprio partido do presidente Barack Obama.

Nesta quinta-feira, a Câmara dos Representantes (equivalente à Camara dos Deputados) aprovou por 289 votos a favor e 137 contra um projeto de lei que aumenta exigências no processo de triagem de refugiados da Síria e do Iraque – região controlada pelo grupo extremista autodenominado "Estado Islâmico", que assumiu a autoria dos ataques na França

Caso o projeto seja transformado em lei, esses refugiados só poderão se estabelecer nos Estados Unidos depois que o diretor do FBI, que é a polícia federal dos Estados Unidos, o secretário de Segurança Interna e o diretor de inteligência nacional garantirem que cada um deles não representa ameaça à segurança do país.

Segundo os autores da proposta, que ainda precisa passar pelo Senado, o objetivo é impedir que terroristas cheguem aos Estados Unidos disfarçados entre os 10 mil refugiados que o país pretende receber até outubro do ano que vem.

Suspeita-se que um dos acusados dos ataques em Paris possa ter chegado à França em meio aos milhares de refugiados sírios que buscam abrigo na Europa. Todos os outros acusados identificados até agora, porém, eram cidadãos europeus.

"Este é um momento em que é melhor estar seguro do que se arrepender depois", disse o novo presidente da Câmara, o republicano Paul Ryan.

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Veto

Obama, que está em viagem na Ásia, já anunciou que pretende vetar o projeto e ressaltou que o processo de triagem para esses refugiados já é rigoroso, podendo levar até dois anos.

Segundo o presidente americano, não é realista pensar que eles possam representar ameça maior que os turistas que chegam ao país a cada dia.

Nesta semana, antes da aprovação do projeto na Câmara, Obama já havia destacado que esses refugiados estão fugindo dos mesmos militantes contra os quais os Estados Unidos e outros países estão lutando.

"Bater a porta em suas caras seria uma traição aos nossos valores", disse Obama, observando que é possível acolher os refugiados e ao mesmo tempo garantir a segurança do país.

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Rejeição

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Image caption EUA planeja receber 10 mil refugiados sírios ao longo do ano que vem

Mas apesar dos esforços da Casa Branca, a lei apresentada por republicanos teve apoio de 47 deputados democratas, o mesmo partido do governo Obama.

A aprovação reflete a crescente rejeição no meio político americano à iniciativa do governo de receber refugiados sírios. Ao longo da semana, 30 dos 50 governadores americanos, a maioria deles republicanos, anunciaram que não permitirão que refugiados sírios se instalem em seus Estados.

Na contramão, o governador do Estado de Washinton, o democrata Jay Inslee, disse que seu Estado está aberto aos refugiados.

O debate também vem dominando a campanha presidencial desde os ataques em Paris. Todos os pré-candidatos que disputam a indicação do Partido Republicano se manifestaram contra o recebimento de refugiados sírios.

Alguns, como o ex-governador da Flórida Jeb Bush e o senador texano Ted Cruz, sugeriram que o país aceitasse somente refugiados sírios cristãos, mas não muçulmanos.

Uma pesquisa de opinião conduzida pela empresa Selzer & Company a pedido da Bloomberg e divulgada na quarta-feira revela que 53% são contra o plano de Obama de receber mais refugiados sírios.

Outros 11% apóiam a chegada de refugiados sírios cristãos, mas não de muçulmanos. Somente 28% são favoráveis ao plano atual, sem alterações.

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Processo rigoroso

Dos mais de 4 milhões de sírios que fugiram de seu país desde o início da guerra, em 2011, somente pouco mais de 2 mil foram recebidos pelos Estados Unidos. Destes, metade são crianças e um quarto são pessoas com mais de 60 anos de idade. Apenas 2% são homens solteiros em idade de combate.

O plano da Casa Branca é receber mais 10 mil refugiados da região ao longo do próximo ano. Em comparação, a Alemanha espera receber 800 mil.

De acordo com o governo americano, o processo de triagem de refugiados sírios é um dos mais rigorosos nos Estados Unidos e leva entre 18 meses e dois anos. Metade dos candidatos tem seu pedido negado.

Após passarem por triagem inicial do Alto Comissariado das Nações Unidas para Refugiados (ACNUR), para ver se preenchem a definição legal de refugiado, os candidatos são enviados a um terceiro país, como Turquia ou Jordânia, enquanto aguardam seu processo.

Eles só entram nos Estados Unidos após completarem todas as etapas terem sido formalmente aceitos.

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Checagem

Entre estas fases, estão coleta e checagem de informações biométrica e biográficas e entrevistas pessoais conduzidas por especialistas em imigração do Departamento de Segurança Interna.

Todas as informações são verificadas em comparação a bancos de dados de órgãos de segurança americanos, como o FBI e o Departamento de Defesa, e internacionais, como a Interpol.

Os candidatos também passam por exames médicos e recebem orientações culturais sobre os Estados Unidos. Na chegada ao país, são submetidos a uma última etapa, na área de imigração do aeroporto.

O governo e outros defensores do programa afirmam que é pouco provável que terroristas escolham passar por esse processo longo e exaustivo em vez de recorrer a alternativas mais fáceis, como entrar no país com visto de turista.

"Não apóio interromper o programa de refugiados", disse o deputado democrata Adam Schiff, ao afirmar que as novas regras previstas no projeto de lei resultariam na interrupção do programa.

"É um processo rigoroso de mais de um ano e muito mais intensivo do que qualquer coisa que vemos com pessoas vindo da Europa sem necessidade de visto."

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