Por que é tão difícil saber o impacto dos bombardeios na Síria?

Rianovosti Direito de imagem RIA Novosti
Image caption A aviação russa fez uma série de bombardeios na Síria

Desde o ano passado a Síria tem sido alvo de bombardeios, levados a cabo tanto por uma coalizão comandada pelos EUA quanto pela aviação russa e por forças leais ao presidente sírio, Bashar al-Assad.

Aliado a uma situação caótica em terra, em que diferentes grupos lutam uns contra os outros, as campanhas aéreas tornam a missão de apurar informações sobre as vítimas do conflito algo praticamente impossível.

A ONU, por exemplo, trabalha com estimativas que ela mesmo admite carecer de alguma precisão - em um relatório divulgado no ano passado, por exemplo, seu Escritório de Direitos Humanos (OHCHR) informou que faltavam informações para checar pelo menos 50 mil relatos de mortes na Guerra Civil síria. A entidade estima que mais de 200 mil pessoas morreram.

Por que é tão difícil?

1. Ausência de cobertura in loco mídia

A morte de jornalistas na linha de frente ou nas famigeradas execuções protagonizadas pelo "Estado Islâmico" reduziu maciçamente a presença da imprensa na Síria.

A maior parte da cobertura da situação no país é feita com base em informações prestadas por autoridades oficiais, como o Departamento de Defesa dos EUA, ou por relatos de supostas testemunhas de atrocidades obtidos pela rede de contatos de organizações de ativistas, como o Observatório Sírio para os Direitos Humanos.

Leia também: Raqqa, a 'capital' criada à força por 'Estado Islâmico' que é alvo de bombardeios aéreos

Siga a BBC Brasil no Facebook e no Twitter

2. A mão de ferro do "Estado Islâmico"

As áreas dominadas pelo grupo extremista muçulmano que se autodenomina "Estado Islâmico" têm sido as mais atingidas pelos bombardeios. No entanto, elas são também as de mais difícil acesso. A "capital", Raqqa, é o maior exemplo: a cidade de 400 mil habitantes tem monitoramento constante da vida dos cidadãos, das restrições ao uso da internet à revistas em plena na rua, em que militantes checam o conteúdo dos celulares dos cidadãos.

Uma simples suspeita de divulgação de informações pode ser punida com a morte. E a intensificação dos bombardeios, sobretudo depois dos atos de terror em Paris e da queda de um avião de passageiros russo, fez com que o "EI" impusesse ainda mais restrições à movimentação de pessoas - suspeita-se que civis estejam sendo usados como escudos humanos.

Direito de imagem AFP
Image caption Situação volátil no solo torna difícil obter informações sobre mortos

3. O interesse por trás da divulgação de informações

As imagens das campanhas aéreas francesas contra alvos do "EI" em Raqqa correram o mundo, mostrando a intensificação dos bombardeios de posições do grupo extremista.

No entanto, relatos da rede de ativistas Raqqa Está Sendo Chacinada Silenciosamente afirmam que apenas instalações abandonadas pelos militantes foram atingidas - ainda que tenha informado que 33 "combatentes" morreram nos ataques mais recentes. Há dúvidas também sobre o número de civis atingidos pelos bombardeios.

Em setembro, por exemplo, autoridades de defesa dos EUA diziam ter confirmado apenas dois óbitos, número contestado pelo Observatório Sírio, que fala em 181.

Direito de imagem AP
Image caption Segundo autoridades americanas, houve apenas dois mortos em mais de um ano de campanha aérea

Leia também: Por que em toda tragédia surgem heróis anônimos?

O número também é contestado pelo site Airwars, projeto de um grupo de jornalistas independentes, que no final de agosto alegou ter evidências de que pelo menos 459 civis, incluindo mais de 100 crianças, teriam morrido.

"Você não pode ter uma campanha aérea dessa intensidade sem que civis sejam mortos. É preciso que eles (a coalizão comandada pelos EUA) sejam mais transparentes", disse um dos coordenadores do site, Chris Woods, ao jornal Guardian.