Os desafios de Macri nas relações políticas e econômicas com o Brasil

Comemoração na Argentina | Foto: EPA Direito de imagem EPA
Image caption Novo presidente da Argentina pode se reunir com Dilma Rousseff mesmo antes de sua posse, em dezembro

O presidente eleito da Argentina, Mauricio Macri, anunciou nesta segunda-feira que o Brasil, "sócio comercial do futuro", será o primeiro país que visitará após sua vitória sobre o candidato de Cristina Kirchner nas eleições do domingo.

Fontes do governo brasileiro e assessores de Macri, como o prefeito eleito de Buenos Aires, Horacio Rodríguez Larreta. disseram que o presidente eleito analisa a possibilidade viajar a Brasília para encontro com Dilma, antes mesmo da posse.

Embora o momento seja de saudações e sinalizações positivas de ambos os lados, não faltam, porém, pontos nevrálgicos nessa relação.

Candidato da oposição, Macri assistiu ao ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, padrinho de Dilma, subir ao palanque de seu rival, Daniel Scioli, ao lado de Cristina. O presidente eleito defendeu, em sua campanha, sanção do Mercosul à Venezuela por manter "presos políticos", medida à qual o governo brasileiro é contrário. E, além disso, os dois países enfrentam problemas bilaterais na área econômica.

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Para analistas, as características e a trajetória do presidente eleito devem levar a uma relação "fluida", como define o ex-embaixador da Argentina no Brasil, Diego Guelar. Ele lembra, por exemplo, dos vários sinais emitidos por Macri de que o Brasil é "prioridade" na área internacional.

Outros, como o escritor e filósofo Santiago Kovadloff, avaliam porém que o presidente eleito "se dará bem com Dilma, mas se sentirá mais confortável na hora de conversar com o partido de Fernando Henrique Cardoso" – o PSDB.

Mercosul

Integrantes do governo brasileiro disseram à BBC Brasil que Macri pode se reunir com a presidente Dilma Rousseff em Brasília antes mesmo da posse, que ocorrerá no dia 10 de dezembro.

Seus assessores ressaltam que sua proposta de que o Mercosul se torne "mais dinâmico", com maior aproximação com outros blocos, será colocada em prática com o Brasil.

"Queremos que o Mercosul avance e estaremos sempre com o Brasil nestas iniciativas", disse um dos auxiliares de Macri na área internacional, Fulvio Pompeo.

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Em uma entrevista recente a jornalistas estrangeiros, o presidente eleito chegou a dizer que sua relação com o Brasil será "melhor" do que a atual.

Oficialmente, Dilma e Cristina se chamam em público de "amigas". No entanto, interlocutores do governo e do empresariado brasileiro costumam reclamar de questões especificas, como as barreiras comerciais implementadas pela Argentina.

Venezuela

Nesta segunda-feira, durante sua primeira entrevista à imprensa após a eleição, Macri reiterou que pedirá que seja acionada a chamada cláusula democrática do Mercosul em sanção à Venezuela. Para ele, o país presidido por Nicolás Maduro mantém "presos políticos" e essa "ilegalidade" precisa terminar.

Ele já havia defendido a medida durante a campanha. Lilian Tintori, mulher de Leopoldo López, opositor de Maduro condenado à prisão, participou da festa que comemorou sua vitória, no domingo.

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Segundo um dos principais interlocutores brasileiros na área de política externa, espera-se que a fala tenha sido parte do "discurso de campanha" de Macri, já que, para que esta cláusula seja acionada, é preciso o consenso do bloco formado por Brasil, Argentina, Paraguai, Uruguai e Venezuela.

"Não é uma medida que um país sozinho pode adotar. A cláusula democrática é um tema multilateral. Temos uma boa relação com a Venezuela, com quem temos mais de 2 mil quilômetros de fronteira, brasileiros morando no país e cerca de 40 ou 50 empresas brasileiras no território venezuelano. Não podemos sair brigando pela rua. Tudo é dialogado", disse à BBC Brasil.

Pedras na economia

Macri tomará posse em um momento em que não são poucos os problemas bilaterais na área econômica.

Direito de imagem Reuters
Image caption Assessores de Macri afirmam que presidente apoiará Brasil em acordo do Mercosul com a União Europeia

"O comércio bilateral registrou queda de entre 35% e 40% nos últimos três ou quatro anos, e essa retração ocorreu não só pelo setor automotivo", disse Raul Ochoa, professor da universidade Tres de Febrero.

Ele lembra que, nos últimos anos, diversas empresas brasileiras deixaram a Argentina insatisfeitas com medidas econômicas locais e diz que Macri pode tentar atraí-las de volta, já que tem insistido que suas prioridades incluem a geração de empregos e investimentos.

Para Ochoa o país deixou de exportar ou reduziu a exportação de produtos como trigo, alho e outros alimentos para o Brasil - como resultado, principalmente, de decisões argentinas.

"Foram erros da própria Argentina, mas existe também o fato de o Mercosul estar estancado", afirmou.

Macri, lembrou o especialista, já sinalizou esperar que o bloco seja revitalizado e passe a se aproximar mais de outros grupos "mais vivos", como a Aliança do Pacífico – formada por Chile, México, Colômbia e Peru, banhados pelo oceano de mesmo nome de olho em uma maior aproximação com os países asiáticos.

Apesar de reiterar que o Brasil é prioridade na sua gestão na área de política externa, o presidente eleito tem feito sucessivos elogios ao Chile, que tem uma já tradicional abertura econômica.

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