A demora de Lula em se pronunciar sobre abertura de impeachment contra Dilma

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Image caption Em sua página no Facebook, Lula, mentor da presidente Dilma Rousseff, compartilhou duas vezes vídeo de pronunciamento de Dilma

O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva, mentor da presidente Dilma Rousseff e estrela maior do PT, só fez na tarde desta quinta-feira sua primeira declaração pública sobre a decisão do presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, de iniciar o trâmite que pode resultar em um impeachment da mandatária da República.

Em sua página oficial no Facebook, Lula compartilhou na noite da quarta-feira duas vezes o vídeo do pronunciamento de Dilma, em que a presidente se diz "indignada" com o movimento de Cunha, claramente uma reação ao posicionamento oficial adotado ontem pelo PT de não evitar a abertura de um processo contra ele no Conselho de Ética da Câmara.

No fim da manhã desta quinta, após contato da BBC Brasil com sua assessoria, o ex-presidente também compartilhou um post do governador da Bahia, o petista Rui Costa, em que ele afirma que “governadores do Nordeste manifestam seu repúdio a essa absurda tentativa de jogar a nação em tumultos derivados de um indesejado retrocesso institucional. (…) Em vez de golpismos, o Brasil precisa de união, diálogo e de decisões capazes de retomar o crescimento econômico, com distribuição de renda”.

Fora o mero compartilhamento dos vídeos e do post de Rui Costa, Lula só foi falar oficialmente sobre o assunto durante entrevista coletiva no Palácio Guanabara, sede do governo do Rio de Janeiro, onde se reuniu com o governador Luiz Fernando Pezão (PMDB).

“O presidente da Câmara, me parece, tomou a decisão de não se preocupar com o Brasil”, afirmou o ex-presidente, em referência a Cunha.

“Aqueles que quiseram fazer o terceiro turno da eleição cassando a presidente Dilma na Justiça Eleitoral agora acharam a possibilidade do terceiro turno com o impeachment, que não tem nenhuma sustentação legal a não ser uma demonstração de raiva, de ódio”, continuou o líder petista.

“A tarefa maior, neste instante, é não permitir que essa loucura que o Eduardo fez ontem tenha seguimento.”

Razões para a demora

Parlamentares petistas ouvidos pela BBC Brasil antes de Lula falar no Rio não souberam explicar também o motivo de seu então silêncio. "Talvez para não botar mais lenha na fogueira", ponderou um. "Mas não acho que seja para proteger Cunha. Agora vamos até o fim da cassação (do presidente da Câmara)", acrescentou.

O deputado Zé Geraldo (PT-PA) – que nos últimos dias deixou explícita em várias declarações a pressão que estava sofrendo para votar a favor de Cunha no Conselho de Ética com objetivo de evitar um processo de impeachment – disse à reportagem que Lula deveria se "manifestar no momento certo" e que terá, "como sempre teve", papel importante nas "rearticulações políticas" neste novo cenário criado com a abertura do trâmite de impeachment.

"O presidente Lula é uma pessoa inteligente e sabe que tem que se manifestar no momento correto. Ontem nós tivemos um pronunciamento muito bem elaborado da presidente da República. O presidente está cumprindo um novo papel. Daqui para frente você tem uma mudança de conjuntura, as novas rearticulações políticas", acrescentou.

Em agosto, um dos momentos em que a pressão pelo impeachment ganhou fôlego, o ex-presidente deu declarações enfáticas de apoio à presidente.

"Gostaria que os que tentam a cada santo dia um golpe para tirar a Dilma aprendessem a respeitar a presidenta. Eu perdi três eleições e tive a paciência de esperar para a quarta. Que eles esperem as eleições de 2018, mas já aviso que vão perder", afirmou em um evento em Montes Claros (MG), no fim de agosto.

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Antes disso, no início daquele mês, afirmou em Brasília, na abertura da Marcha das Margaridas: "Não julguem a Dilma por seis meses de mandato, porque ele é de quatro anos". Na ocasião, também disse que a presidente não era a culpada pela crise, que "nasceu no coração dos Estados Unidos".

Tentativa de acordo

Nas últimas semanas, o ex-presidente teria estado à frente das negociações para tentar fechar um acordo entre PT e Cunha com o objetivo de evitar mutuamente a abertura de processos de cassação contra Dilma e o deputado.

O PT, no entanto, acabou desistindo do acordo, devido ao grande desgaste que ele traria frente à opinião pública. Pesou também a análise de que não valeria ficar eternamente sob a "chantagem" do peemedebista.

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Image caption Bancada do partido acabou fechando posição contra Cunha e, presidente da Câmara, deflagrou o impeachment

Dessa forma, o presidente do partido, Rui Falcão, deu nos últimos dias declarações públicas via Twitter orientando os deputados petistas a não salvarem Cunha de um processo. Segundo a imprensa brasileira, esse movimento foi feito com aval de Lula.

A bancada do partido acabou então fechando posição oficial contra Cunha na tarde de quarta-feira. Em seguida, o presidente da Câmara deflagrou a abertura do processo de impeachment.

O movimento levanta especulações de que o PT deixou Dilma à própria sorte. No entanto, dentro do governo e do partido há uma visão de que pode ser melhor enfrentar o embate político de um processo de impeachment, e quem sabe sair fortalecido dele caso ele não vingue, do que permanecer sob o impasse que essa ameaça constante estava causando.

Obviamente, porém, há o risco real de a batalha ser perdida e Dilma ter que passar o cargo para seu vice-presidente, Michel Temer.

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'#NãoVaiTerGolpe'

Outras lideranças do partido usaram as redes sociais rapidamente para defender Dilma, atacar Cunha e acusar sua decisão como tentativa de golpe.

Imediatamente após a decisão do peemedebista, Rui Falcão publicou no Twitter e no Facebook: "Golpistas não passarão! #NãoVaiTerGolpe #DilmaFica".

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Image caption Rui Falcão, presidente do PT, já se manifestou a favor de Dilma no Twitter

O presidente do PT também compartilhou uma matéria do site do partido. Sob o título de "Petistas saem em defesa de Dilma e garantem luta contra o golpe", o texto traz declarações de diversos parlamentares.

O líder do PT no Senado, Humberto Costa (PT-PE), por exemplo, disse que a atitude de Cunha foi a "chantagem de mais baixo nível que se pode ver numa República".

O senador também atualizou sua imagem de perfil no Facebook para uma foto da presidente quando nova, tirada quando ela foi presa na Ditadura Militar, acompanhada dos dizeres #NãoVaiTerGolpe.

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