'Brasília se tornou versão tropical de Jogos Vorazes', diz 'FT'

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Image caption Artigo assinado por editor de América Latina de jornal britânico citou 'razões políticas' para abertura de processo de impeachment

Em meio aos novos desdobramentos da crise política no Brasil, o jornal britânico Financial Times definiu a capital federal, Brasília, como uma "versão tropical dos Jogos Vorazes", em alusão à série de filmes homônima em que os person agem lutam por sobrevivência.

Segundo o jornalista e editor de América Latina do diário, Jean Paul Rathbone, que assina o artigo, publicado na versão eletrônica do diário, os políticos brasileiros "estão agora mais preocupados em salvar as suas próprias peles do que lidar com uma preocupação mais premente: a economia", escreveu ele.

Na terça-feira, o Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil, a soma dos bens e serviços produzidos pelo país, recuou 1,7% no terceiro trimestre de 2015, o pior para o período desde o início da série histórica, em 1996. Como o resultado, a economia brasileira permanece em recessão (quando há dois trimestres consecutivos de queda).

Rathbone citou "razões políticas" para a abertura do processo de impeachment contra Dilma, diante da escalada de tensão entre o governo e o presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha.

"A razão imediata para o possível impeachment é a acusação de que seu governo maquiou as contas públicas (as chamadas "pedaladas fiscais") – um assunto técnico. Mas a razão para que o processo do impeachment tenha sido lançado agora é puramente política", escreve Rathbone.

"Hábil operador dos bastidores, Cunha esperava que o governo do PT apoiasse sua causa e o protegeria. Quando esse apoio não veio, ele iniciou o processo de impeachment. A oposição, farejando sangue, aderiu ao pleito", acrescenta.

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'Ainda pode piorar'

Em meio à crise política e econômica, o jornalista destacou também que a situação do Brasil "ainda pode piorar".

"A economia está sofrendo sua pior recessão desde 1930. O Congresso está fortemente afetado pela chamada operação Lava Jato que investiga o escândalo de corrupção na Petrobras ─ e um senador (Delcídio Amaral) foi preso na semana passada. E agora foram abertos os procedimentos para dar início ao impeachment da presidente, Dilma Rousseff. Pode ficar pior? A resposta curta é: sim".

Segundo Rathbone, contudo, o "fim de Dilma" não é "iminente".

"O processo de impeachment é longo, sinuoso e altamente legalista; é pouco provável que ele comece devidamente antes de fevereiro. Enquanto isso, Cunha pode perder seu cargo – nesse caso o processo pode ser interrompido. Além disso, mais políticos podem cair devido a acusações de corrupção. Isso pode mudar o equilíbrio de votos e o poder no Congresso de maneiras incontáveis".

O jornalista britânico também diz acreditar que a operação Lava Jato, que investiga o esquema de desvio de verbas na Petrobras, deve gerar benefícios a longo prazo para o Brasil.

"O destemor com que figuras anteriormente intocáveis foram sabatinadas ou mesmo derrubadas por juízes independentes é notável. Certamente, trata-se de um esboço que contrasta com a forma como a corrupção é enfrentada em outros países do Bric".

"A longo prazo, isso vai melhorar a governança no Brasil ─ uma coisa boa. No curto prazo, porém, os custos são imensos".

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