Impeachment, sim ou não?: Para empresários, importante é que decisão seja 'rápida'

Cunha e DIlma Direito de imagem Agencia Brasil
Image caption Presidente da Câmara, Eduardo Cunha e presidente Dilma Rousseff: embate político está prejudicando a economia

Impeachment: sim ou não? A questão que deve dividir a sociedade brasileira nos próximos meses também está causando cisão entre empresários e investidores. Mas, entre eles, parece haver certo consenso entre eles de que, para os negócios, independentemente do resultado desse processo, o essencial é que ele seja rápido.

"O aval para uma abertura do processo de impeachment é só o último capítulo dessa novela da crise política que está afetando duramente a economia desde o início do ano", disse à BBC Brasil Carlos Pastoriza, presidente da Associação Brasileira de Máquinas e Equipamentos (Abimaq).

"Precisamos virar essa página para avançar nas reformas e projetos que podem trazer alguma melhora para a economia. Por isso, o essencial é que esse processo termine rápido, seja o resultado um afastamento da presidente ou o arquivamento das denúncias."

O presidente da Associação Nacional dos Fabricantes de Veículos Automotores (Anfavea), Luiz Moan, chegou a sugerir a suspensão do recesso no Congresso para acelerar o processo, tema que também está em debate em Brasília. "As questões políticas estão corroendo a economia", disse, ao comentar os resultados para o setor automotivo do mês de novembro.

Para Moan, o acolhimento do processo de impeachment pelo presidente da Câmara dos Deputados, Eduardo Cunha, é "mais um fato que só pode trazer prejuízo para a economia brasileira".

"(É preciso) que as instituições sejam respeitadas, mas que haja uma definição o mais rápido possível, porque a economia não aguenta mais", reclamou.

Para Pastoriza, é difícil estimar, hoje, como um eventual processo de afastamento da presidente repercutiria na economia, mas, em sua opinião, seria "menos pior" se Dilma Rousseff permanecesse no cargo.

"Acho que do ponto de vista dos negócios tirar um presidente no meio do mandato sempre pode ser problemático. Um novo governo traria novas interrogantes. Ninguém sabe ao certo como seria a condução da economia", diz ele.

"Por outro lado, é natural que os empresários estejam divididos, ainda mais nesse ambiente de polarização que estamos vivendo. Se a sua empresa está afundando porque seus consumidores e as oportunidades de negócio desapareceram, é compreensível que você defenda essa solução (saída da presidente)."

Pró-impeachment

Um grande empresário brasileiro com investimentos na América Latina parece fazer parte desse grupo.

"Com a situação como está (com o atual governo), temos um futuro muito incerto. Tenho inveja dos argentinos porque eles acabaram de votar por uma mudança", disse esse empresário à BBC Brasil, sob condição de anonimato, ao comentar a vitória, nas eleições presidenciais argentinas, do ex-prefeito de Buenos Aires Maurício Macri, que é visto como um político liberal (ele se define como "pró-investimentos").

Paulo Skaf, presidente da Federação das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp), que foi candidato a governador pelo PMDB - partido de Cunha e do vice-presidente Michel Temer -, também parece acreditar que um novo governo, com Temer à frente, seria capaz de retomar a confiança dos empresários e investidores.

"Olha, no dia seguinte que foi aceito o pedido de processo de impeachment o dólar caiu e a bolsa subiu", disse Skaf, ao ser questionado se o processo de decisão sobre o possível afastamento da presidente poderia agravar a crise econômica.

"A indústria não está feliz com essa bagunça generalizada em nosso país. Agora, uma coisa é certa: você não tem como corrigir a crise econômica sem corrigir a crise política, porque o governo brasileiro perdeu a confiança tanto do povo, da sociedade brasileira quanto da comunidade internacional. E a Fiesp faz parte da sociedade brasileira."

Em uma palestra para dezenas de investidores brasileiros e argentinos em Buenos Aires, Rubens Ricupero, ex-ministro da Fazenda do governo Itamar Franco, também defendeu que a saída de Dilma melhoraria as perspectivas para a economia brasileira.

"Com o governo atual não acho que temos saída possível", comentou com jornalistas. "Acho que a Dilma está sendo habilidosa ao apelar ao sentimento das pessoas e dizer que é honrada, que não cometeu corrupção. Mas o menos traumático (para o país e a economia), como disse Fernando Henrique, seria ela renunciar."

Já para André Perfeito, economista-chefe da Gradual Investimentos, apesar de o mercado ter reagido positivamente ao acolhimento do processo de impeachment em um primeiro momento, esse entusiasmo tende a se dissipar uma vez que se dê conta das incertezas sobre as condições de uma eventual Presidência de Temer para lidar com questões como a deterioração das contas públicas e a falta de crescimento.

"A questão é que os problemas seriam os mesmos. O próprio partido do vice-presidente está envolvido nesses casos de corrupção (revelados pela Lava Jato). E não dá para ter certeza que Temer estaria comprometido com o ajuste fiscal em um ano eleitoral (em 2016 haverá eleições para prefeitos e vereadores). Pessoalmente, acho mais seguro que o PT conduza esse processo de ajuste recessivo, porque se estiver na oposição terá mais condições de mobilizar movimentos sociais e sindicatos contra os cortes".