Voluntários 'adotam' crianças refugiadas sem pais na Itália

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Image caption Carla Trominno conversa com Taha, 16, sobre seus sonhos para o futuro; ele é um dos menores assistidos pela ONG

"Adotar" uma criança refugiada. É esta a solução que um grupo de italianos criou para responder a uma crise sem precedentes: o desembarque recorde de crianças desacompanhadas entre o vasto número de imigrantes que chegam aos portos da Sicília.

Segundo dados da organização Save the Children, só em 2015, cerca de 11.100 crianças sem pais ou familiares desembarcaram nas costas da Itália. Algumas iniciaram a travessia do mar Mediterrâneo sozinhas e outras perderam suas famílias no percurso.

Recentemente, a Acnur (agência da ONU para os refugiados) alertou que o número de crianças desacompanhadas entre os refugiados tentando alcançar a Europa não para de crescer e deve ser recorde em 2015.

Em setembro, a foto do menino sírio Aylam Kurdi afogado numa praia da Turquia ganhou as manchetes do mundo todo e virou símbolo da crise migratória na qual já morreram milhares de crianças.

"Em 2013, os refugiados começaram a chegar em Siracusa em grande número e, em especial, crianças. Antes disso, pouco se falava no assunto e as organizações do governo trabalhavam sem envolver a sociedade", afirma Carla Trommino, advogada fundadora da ONG AccoglieRete.

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Guardiões

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Image caption Tutora voluntária, acompanha um jovem na retirada de sua identidade italiana

Com sede em Siracusa, a organização é composta por uma rede de voluntários que "doam" suas famílias às crianças refugiadas desacompanhadas. Na prática, isso significa que eles se oferecem para se tornarem guardiões legais desses menores. Antes, o tutor designado era sempre o prefeito ou uma assistente social da cidade em que as crianças desembarcavam na Itália.

"Na época, visitei um centro de acolhida em que 16 crianças egípcias e 17 somalis viviam e dormiam em meio aos outros refugiados adultos. Elas estavam descalças e cheias de sarna", contou Trommino.

Inconformada com a situação que testemunhou, ela e um grupo de amigos advogados criaram a AccoglieRete e conseguiram um acordo com o tribunal da cidade pela tutela das crianças refugiadas.

Desde 2013, a ONG AccoglieRete já assistiu cerca de 600 crianças, com idades entre 11 e 17 anos. A maioria originária da Síria, Gâmbia, Egito, Somália, Senegal, Eritrea e Mali –países afligidos por conflitos armados e extrema pobreza.

No momento, a AccoglieRete conta com 120 tutores e 18 "famílias adotivas" em ação. Qualquer pessoa sem ficha criminal, com moradia em Siracusa ou região e disposta a realizar os treinamentos exigidos pela ONG, pode se tornar um tutor.

A acolhida pode ser integral com a criança morando e vivendo 100% do tempo com a família italiana ou em tempo parcial. Neste segundo caso o apoio acontece por exemplo para a obtenção de documentos de identidade, aulas de italiano e a partilha de atividades sociais, como jogos de futebol ou almoços de família aos domingos.

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Dividindo o mesmo teto

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Image caption Refugiados comemoram o aniversário do menino egípcio Taha, na sede da AccoglieRete em Siracusa

Além de fundadora da ONG, Trommino também já foi tutora de mais de 20 crianças nesses últimos dois anos, entre eles um menino de Gâmbia, que mora com sua família há dois anos.

"De todo meu trabalho como advogada de migrantes por anos, definitivamente a experiência mais rica tem sido esta de viver com Khalifa. Me ensina muito sobre as diferenças e sobre mim mesma", ela disse.

Um dia, o menino lhe contou que rezava todos os dias para que ela se convertesse ao islamismo. "Fiquei espantada e chateada. Respondi que assim como eu respeitava a sua religião ele deveria respeitar o fato de ser católica. Mas só depois entendi que para os muçulmanos a religião é algo absoluto, enquanto para nós é abstrato. Não é uma questão das religiões serem diferentes, mas sim das percepções diferentes que as pessoas têm de suas religiões", Trommino explicou.

Segundo ela, a convivência cotidiana com uma criança refugiada traz desafios culturais e sociais diversos. Outro "filho" egípcio era agressivo e fechado, queria voltar para casa, mas sua família verdadeira não o aceitava de volta.

Um jovem de Bangladesh aprendeu italiano, tirou diploma escolar, abriu seu próprio negócio e hoje sustenta sua família nativa. Outro, do Togo, confessou um dia que não era um menor, mas que, aos 21 anos, mentiu porque temia não conseguir refúgio na Itália.

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Depois dos 18

Com o crescente fluxo de refugiados cruzando o Mediterrâneo nos últimos anos, atualmente a Sicília já conta com dezenas de centros de acolhida especificamente para menores. Muitos estabelecimentos, no entanto, enfrentam graves dificuldades econômicas e gargalos jurídicos.

"Um dos maiores problemas que enfrentamos hoje é a falta de apoio financeiro e legal do governo para continuar assistindo esses jovens depois que eles completam 18 anos", alertou Sara Reitano, educadora do Centro de Assistência ao Menor Estrangeiro Regina Elena, um dos maiores de Catania.

Segundo ela, alguns partem em busca de oportunidades ou de outros países quando completam a maioridade. Outros ficam por não ter para onde ir e continuam recebendo irregularmente um benefício financeiro mensal de 60 euros.

Atualmente, cerca de 60 menores dormem e comem ali diariamente, mas em 2011, durante uma grande onda de desembarque de refugiados nos portos da Sicília, o local chegou a abrigar provisoriamente 110 crianças.

Em um dos corredores do local, um jovem de 20 anos do Togo limpa o chão. Ele se tornou faxineiro do centro há um ano, mas antes era um dos menores que morava ali. "Agora só quero trabalhar e ganhar meu sustento", disse ele em italiano correto e pausado.

Faltam projetos vocacionais para ajudar os jovens a se profissionalizarem, falta dinheiro e falta mão de obra. As paredes estão úmidas e descascadas, as janelas e portas quebradas. Em novembro, os funcionários do centro protestavam em frente à prefeitura por 19 salários atrasados. Após a direção do centro ameaçar fechar as portas, conseguiram chegar a um acordo com as autoridades.

"As instituições do governo encerram toda a relação com os menores quando eles completam 18 anos. Mas nós nunca abandonamos as crianças porque elas se tornam parte de nossa família", explica Carla Trommino da ONG AccoglieRete.

Em muitos casos, os tutores ajudam os jovens a procurar emprego e a arranjar um lugar novo para morar, adiantando o pagamento de três meses aluguel ou emprestando dinheiro para viajarem ou fazerem cursos.

No início de 2015, a ONG AccoglieRete ganhou apoio de peso graças a uma nova parceria com a organização Cesvi, especializada em desenvolvimento e com sede em Bergamo, no norte da Itália. A expectativa agora é de que o modelo de acolhida apoiado em tutores legais voluntários seja ampliado e adotado em outras partes da Sicília e da Itália.

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