Temendo ataques, fiéis de mesquita nos EUA rezam com proteção policial

Image caption Ataque recente nos EUA com forte suspeita de participação de extremistas islâmicos deixou comunidade muçulmana acuada no país

Fiéis que chegavam para a oração do meio-dia à maior mesquita dos arredores de Washington se deparavam na última quarta-feira com uma policial loira, de uniforme preto e armada com uma pistola automática.

Postada à entrada do estacionamento da mesquita Dar Al-Hijrah em Falls Church, Virginia, ela fazia a segurança do edifício a pedido dos próprios religiosos, que vivem dias tensos desde o ataque que matou 14 pessoas na Califórnia, na semana passada.

"Há um medo generalizado na comunidade e tivemos de aumentar a segurança", explica à BBC Brasil o imã Johari Abdul-Malik.

Ele diz que a mesquita pediu proteção policial depois dos atentados em Paris, em novembro, e que renovou o pleito por causa do crescimento da "retórica anti-muçulmanos" após a matança na Califórnia.

Em resposta ao ataque, que segundo investigadores foi promovido por extremistas islâmicos, o pré-candidato do Partido Republicano à Presidência Donald Trump defendeu que os Estados Unidos impeçam a entrada de muçulmanos no país.

A fala recebeu duras críticas dentro e fora dos Estados Unidos, mas deixou temerosos muitos seguidores da fé que moram no país. Na quinta, o Conselho de Relações Islâmico-Americanas foi evacuado em Washington após receber correspondência com mensagem de ódio.

Segundo o imã Abdul-Malik, a própria mesquita Dar Al-Hijrah (terra da migração, em árabe) sofreu nos últimos dias dois "pequenos ataques" realizados por "pessoas mentalmente instáveis", que acabaram detidas.

Na quarta, cerca de 70 fiéis - quase todos estrangeiros - compareceram à mesquita para a terceira das cinco orações diárias. A maioria deixou o local rapidamente e não quis dar entrevistas - muitos pareciam desconfortáveis e receosos.

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'Desconfiança'

Image caption Imã da mesquita Masjid Muhammad diz que declarações de Trump são 'retrocesso'

A Dar Al-Hijrah fica numa área residencial do subúrbio de Washington que abriga uma numerosa comunidade muçulmana. Perto dali, uma avenida concentra restaurantes e lojas frequentados pelo grupo, formado em sua maioria por imigrantes e refugiados somalis, etíopes, afegãos, paquistaneses e árabes.

"Já lidamos com muita desconfiança no dia a dia, e declarações como essa criam ainda mais divisão", diz à BBC Brasil um jovem argelino que trabalha como motorista e pediu para não ser identificado.

De pele clara e olhos verdes, ele diz que raramente é discriminado, mas que amigas que usam véu disseram que vêm encarando mais olhares desconfiados no metrô nos últimos dias.

Para o jovem motorista, a fala de Trump "é a melhor propaganda para os radicais". "Eles vão dizer: 'estão vendo como os americanos nos odeiam? Nossa única opção é combatê-los.'"

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Críticas

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Image caption Na disputa pela Presidência, Donald Trump lidera a disputa entre os republicanos
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Image caption Por suas declarações, Trump foi comparado a nazistas

Nos últimos meses, outros políticos republicanos fizeram declarações sobre muçulmanos que geraram críticas. O neurocirurgião Ben Carson afirmou que eles deveriam ser proibidos de assumir a Presidência dos Estados Unidos.

O senador Chris Christie disse que o país deveria fechar as portas para todos os refugiados sírios, e o senador Rand Paul defendeu a aprovação de uma lei que suspenderia a concessão de vistos para refugiados de 30 países de maioria islâmica.

Em editorial publicado nesta quinta-feira, o "The New York Times" criticou a postura de Trump e de outros pré-candidatos republicanos. Segundo o jornal, o empresário e seus concorrentes têm provocado "sérios danos" à reputação do país no exterior ao distorcer "sua mensagem de tolerância e boas vindas".

Trump diz que as críticas a sua proposta partem de quem "se nega a reconhecer o tremendo perigo e a incerteza" associados à entrada de muçulmanos no país.

As declarações dos políticos republicanos também provocaram reações entre muçulmanos americanos.

Imã da Masjid Muhammad, mesquita frequentada principalmente por fiéis nascidos no país, Talib Shareef disse à BBC Brasil que comentários como o de Trump e de Carson fazem os Estados Unidos "andarem para trás".

"Não é do interesse do país e nem de alguém que busca seu mais alto cargo se indispor com 1,7 bilhão de pessoas", ele afirma, citando estimativa para o total de muçulmanos no mundo (nos EUA, são entre 5 e 12 milhões).

A mesquita em que ele prega foi erguida em 1930 no centro de Washington pela Nação do Islã, grupo integrado por americanos negros convertidos.

Ao se tornar muçulmanos, eles diziam resgatar a religião de antepassados africanos escravizados e levados à força para os Estados Unidos. Acusada por críticos de promover o "supremacismo negro", a agremiação teve entre seus integrantes o boxeador Muhammad Ali e o ativista Malcolm X (1925-1965).

Com a morte em 1975 de seu principal líder, Elijah Muhammad, a Nação do Islã desmantelou a milícia que mantinha e se aproximou do islã sunita tradicional, reduzindo a desconfiança que gerava entre desafetos e autoridades.

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Reações

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Image caption Empresário foi alvo de protestos da comunidade muçulmana

Líderes da Masjid Muhammad e de outras mesquitas afro-americanas começaram a dialogar com representantes de outras religiões, e Shareef diz que os Estados Unidos passaram a dar mais valor à contribuição de muçulmanos para a formação do país.

"Muçulmanos estão nesta terra antes de ela se tornar um país, e a primeira nação a reconhecer nossa independência foi o Marrocos, país de maioria muçulmana até hoje", ele diz, citando ainda uma escultura de Maomé na Suprema Corte e comentários elogiosos ao Corão feitos por Thomas Jefferson, um dos "pais fundadores" dos Estados Unidos.

Com os atentados de 11 de setembro de 2001, porém, o imã diz que a maré se inverteu.

"Qualquer pessoa que parecesse muçulmana passou a ser visada indiscriminadamente. Vimos mulheres serem atacadas, pessoas serem esfaqueadas", ele lembra.

"Ainda estamos tentando voltar ao nível pré-11 de Setembro".

Para Shareef, o combate ao extremismo islâmico deve se dar em duas frentes. Numa delas, os governantes devem estar atentos às necessidades de seus mais cidadãos mais vulneráveis.

"Todas as pessoas têm aspirações, querem poder dar seu melhor, mas para isso precisam de atenção, saber que serão protegidas. O Estado Islâ (grupo extremista que controla partes da Síria e Iraque) seduz seus membros dizendo: 'una-se a nós que te daremos uma uma esposa, uma família, autoridade. Eles dão a validação que falta a essas pessoas."

Ele diz que a radicalização também deve ser combatida dentro do islã.

"Precisamos de um Renascimento dentro da religião, para que alguns líderes mudem suas visões".

Shareef defende que acadêmicos e autoridades islâmicas se reúnam em conferências para discutir traduções e interpretações do Corão.

"Se nós que fomos escravizados, expulsos de nossa terra e sofremos incomparáveis injustiças abraçamos o islã e rejeitamos o extremismo, não há razões para que outros grupos saiam por aí matando e pregando a violência em nome da fé".

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