Como a extrema-direita foi de vitoriosa a derrotada na França em apenas uma semana

EPA Direito de imagem EPA
Image caption Marion Marechal-Le Pen, sobrinha de Marine Le Pen, levou 45,2% dos votos em região em que era favorita

No primeiro turno das eleições regionais da França, na semana passada, a extrema-direita saiu como grande vitoriosa: a Frente Nacional (FN) conquistou a maioria dos votos, liderava em 6 das 13 regiões francesas e chegou ao segundo turno em todas elas.

Neste domingo, a situação se inverteu: o partido não conquistou nenhuma das regiões do país [espécies de Estados] e ficou em 3º lugar no geral.

Mas como isso aconteceu em apenas uma semana?

Entre as explicações para a derrota da FN estão o "voto útil" de eleitores de legendas tradicionais, o Partido Socialista do presidente François Hollande e o Republicanos do ex-presidente Nicolas Sarkozy, o maior comparecimento às urnas e a campanha, principalmente da esquerda, contra a Frente Nacional.

Leia também: Para analistas, desconforto com Cunha esvaziou protestos contra Dilma

Nas eleições regionais francesas, não são apenas dois partidos que disputam o segundo turno - para avançar para a segunda etapa, basta conquistar 10% dos votos.

Os socialistas desistiram da disputa em favor do Republicanos nas duas regiões em que a FN tinha mais chances de ganhar - a líder da legenda, Marine Le Pen, e sua sobrinha, Marion Marechal-Le Pen, haviam conquistado cerca de 40% dos votos nas regiões que disputavam.

Direito de imagem EPA
Image caption Apesar de derrota, FN conquistou cerca de 30% dos votos do país

Com a desistência dos socialistas, seus eleitores, estimulados pelo partido, acabaram votando nos candidatos republicanos, praticando o "voto útil".

Leia também: Conferência do clima termina com 'acordo histórico' contra aquecimento global

Marine Le Pen teve 42,2% dos votos, ante 57,8% do candidato republicano.

Já Marion teve 45,2%, ante 54,8% do rival de centro-direita.

Avanço

Após a derrota nas urnas, Marine Le Pen disse que os partidos haviam conspirado para manter a Frente Nacional fora do poder e que a sigla iria "continuar lutando".

"Nada pode nos parar", disse ela. "Ao triplicar nosso número de conselheiros [deputados regionais], seremos a maior força de oposição na maior parte das regiões da França."

Le Pen disse que o partido "perdeu votos das formas mais indecentes por uma campanha de mentiras e desinformação."

Direito de imagem AFP
Image caption Líder do partido, Marine Le Pen, disse que houve 'campanha de mentiras e desinformação'

O republicano Xavier Bertrand, que venceu Marine Le Pen na região de Nord-Pas-de-Calais-Picardie, disse que a França havia dado "uma lição de fazer campanha junto, de coragem". "Aqui nós paramos o progresso da Frente Nacional", afirmou.

Leia também: IDH melhora em 2014, mas crise longa ameaça avanço

Mas o primeiro-ministro Manuel Valls estava menos otimista. Ele disse que "o perigo representado pela extrema-direita não foi embora, longe disso".

Outra razão apontada para a derrota da FN foi o aumento no comparecimento às urnas na comparação com o 1º turno - de 22,6 milhões para 26,2 milhões - e uma intensa campanha da esquerda contra a sigla.

Valls chegou a afirmar que poderia haver uma guerra civil na França caso a Frente Nacional vencesse.

Votação

Apesar de não ter saído vitoriosa em nenhuma região, a Frente Nacional aumentou sua votação no segundo turno. O partido havia conquistado 6,02 milhões de votos no dia 6 de dezembro e, agora, chegou a 6,8 milhões. Mas o percentual de votos teve queda tímida, de 27,73% para 27,36%.

Os Republicanos aumentaram sua votação de 26,65% para 40,63%, e os Socialistas foram de 23,12% para 29,14%.

Os números se referem o quadro de votação com 98% das urnas apuradas.

Direito de imagem AFP
Image caption Primeiro-ministro Manuel Valls chegou a dizer que poderia haver 'guerra civil' caso FN avançasse

A Frente Nacional também elegeu mais conselheiros e, além disso, aumentou sua votação em relação às eleições regionais anteriores, quando conquistou cerca de 10% dos votos.

As eleições na França foram as primeiras realizadas após os ataques em Paris em 13 de novembro, que mataram 130 pessoas.

O grupo autodenominado Estado Islâmico assumiu a autoria dos atentados, o que, de acordo com pesquisas, fortaleceu a Frente Nacional, partido com plataforma nacionalista e anti-imigração.

Leia também: Ex-militar confessa crimes da ditadura em programa de rádio e é preso no Chile

As eleições elegeram os chamados conselheiros e presidentes de regiões nas 13 regiões francesas. Eles têm poderes sobre transporte local, educação e desenvolvimento econômico.

Os Republicanos venceram em sete regiões e os Socialistas em cinco. Na região da Córsega, a vitória ficou com os nacionalistas.