Gâmbia: o país que se converteu ao islamismo para escapar da falência

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Image caption O controverso presidente Jammeh decretou medida anticonstitucional

A Gâmbia é um pequeno país da África Ocidental onde a maioria de seus 1,9 milhão de habitantes segue a religião muçulmana (94%).

Mas ainda que essa crença proíba o consumo de álcool, a principal empresa nacional é uma cervejaria. Muçulmanos e cristãos casam-se entre si, o que também contraria o livro sagrado Corão, e o presidente de Gâmbia, Yahya Jammeh, acredita em magia negra.

E isso leva a uma outra pergunta: por que a Gâmbia há duas semanas declarou ser uma república islâmica ─ apenas a segunda entre as dezenas de nações do continente?

O discurso oficial de Jammeh, que acumula 21 anos na presidência, é de que a proclamação foi feita para livrar a Gâmbia do passado colonial britânico ─ algo anunciado pelo próprio líder em rede nacional por meio do único (e estatal) canal de TV do país.

Sanções

Para analistas internacionais, porém, trata-se de uma tática que poderia garantir investimentos para o país, mais precisamente aportes vindos das ricas nações árabes do Golfo Pérsico, como o Catar e os Emirados Árabes Unidos.

Isso porque Gâmbia há algum tem sofrido sanções do Ocidente por causa de denúncias de violações de direitos humanos.

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Embora não tenha sido atingido pela recente epidemia de ebola na África, o país sofreu impactos no turismo, uma de suas principais fontes de renda e responsável por 20% do PIB, segundo um relatório da CIA, a agência de inteligência dos Estados Unidos.

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Image caption Decreto presidencial obriga o uso do véu no funcionalismo público

Endividado, o pais gastou 31% de sua arrecadação no último ano fiscal com pagamentos de juros.

Antes da decisão de Jammeh, a Mauritânia era o único país islâmico da África. Embora o continente tenha uma população de mais de meio bilhão de muçulmanos, o continente não vê países adotando a Sharia, o código legal e ético com base no Corão.

A Gâmbia, inclusive, tem uma constituição que determina o Estado laico ─ algo prontamente lembrado pelos opositores do presidente.

Jammeh, que assumiu o poder em 1994 com um golpe militar, prometeu respeitar a presença de outras religiões.

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Mas o ano de 2016 começou com um decreto presidencial exigindo que mulheres no funcionalismo público usassem véus, independentemente da religião que seguissem. A polêmica fez com que o governo voltasse atrás.

Gâmbia

Capital: Banjul

1.9 milhão

de habitantes

  • 48,4 % da população vive abaixo da linha da pobreza

  • 213 É a posição do país em um ranking de renda per capita reunindo 230 nações

  • 20% do PIB é proveniente de remessas de imigrantes no exterior

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Em duas décadas como governante, Jammeh despertou a preocupação da comunidade internacional com algumas práticas excêntricas. E letais: em 2009, o presidente determinou a prisão de mil gambianos, sob a acusação de bruxaria. Os prisioneiros foram, então, obrigados a ingerir "poções de cura" e alguns morreram intoxicados.

Dois anos antes, Jammeh provocou ainda mais polêmica ao dizer ter encontrado uma cura herbal para o vírus HIV ─ um coquetel que apenas ele poderia ministrar à população.

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A agricultura é a principal atividade econômica do país, mas menos da metade do território cultivável é produtivo, o que força o país a depender de ajuda financeira do Ocidente. Em 2014, no entanto, a Gâmbia perdeu um aporte de US$ 14,2 milhões (R$ 57,5 milhões em valores atuais) da União Europeia depois de um relatório da ONG Human Rights Watch apontar abusos de direitos humanos.

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Image caption Jammeh assumiu o poder por meio de um golpe militar, em 1994

"A conversão de Gâmbia é uma tentativa desesperada de Jammeh de se manter no poder. Quer agradar aos países islâmicos porque sabe que, sem dinheiro, não poderá continuar governando", afirma Baba G. Jallow, historiador de origem gambiana da Universidade La Salle, nos EUA.

Para se tornar um país islâmico, porém, a Gâmbia vai precisar mudar a Constituição de 1969 e adotar a Sharia, o que representaria uma brusca alteração nos costumes e tradições nacionais. E na própria conduta do presidente.

"A caça às bruxas, por exemplo, vai contra o Islã, assim como acreditar em poderes de cura", acrescenta Jallow.

A adoção da Sharia também significa proibir a venda de álcool, o que afetaria ainda mais o turismo ocidental.

O mais preocupante, porém, é a imposição religiosa em um país acostumado a promover a igualdade entre as crenças.

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