De onde vem o hábito humano de fofocar?

  • Melissa Hogenboom
  • BBC Earth
Desde pequenos, gostamos de partilhar informações sobre nossas vidas e as de outras pessoas

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Desde pequenos, gostamos de partilhar informações sobre nossas vidas e as de outras pessoas

Não espalha, tá? E, se alguém perguntar, nunca diga que fui eu que contei. Mas fofocar é um comportamento peculiar e íntimo, e isso dificulta muito saber de onde surgiu esse hábito tão comum entre os humanos.

As histórias sobre as possíveis origens da fofoca são interessantes porque se entrelaçam com a nossa própria evolução: como aprendemos a cooperar e nos tornamos mais sociáveis.

Explicando de maneira simples, a fofoca é uma ferramenta social que usamos para discutir as idas e vindas cotidianas das pessoas que nos cercam.

É verdade que muitas vezes, trata-se de algo malicioso. Mas, para cientistas, é também uma coisa positiva, uma espécie de “argamassa” que une um grupo social.

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Cérebro maior

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Chimpanzés criam laços sociais com afagos, e a fofoca seria uma maneira de ampliar essa comunicação

Para a fofoca ter surgido, primeiramente precisamos de uma forma básica de linguagem. A origem desta também é difícil de pontuar, já que ela não deixa fósseis.

Nosso ancestral comum com os primatas seria uma espécie mais rudimentar, com um cérebro limitado, o que significa que eles se comunicavam com grunhidos e vocalizações semelhantes aos dos atuais chimpanzés.

Novas pesquisas, no entanto, revelam que a comunicação entre símios é mais sofisticada do que se pensava. Chimpanzés integrados a um grupo que já vivia no zoológico de Edimburgo, na Escócia, rapidamente aprenderam vocalizações com novos significados, como “maçã”, por exemplo.

Segundo Katie Slocombe, da Universidade de York, na Grã-Bretanha, essas vocalizações contêm informações importantes e nos dão pistas de como a linguagem humana evoluiu.

Além de desenvolver habilidades linguísticas, nossos ancestrais também tiveram que desenvolver um cérebro maior, necessário para imaginar, processar e articular as informações sobre nosso entorno.

O Homo erectus surgiu há 1,8 milhões de anos e tinha um cérebro bem maior que seus antepassados. Ele foi o primeiro humanoide a deixar a África e colonizar partes da Europa e da Ásia.

Seu cérebro passou a permitir a organização de sociedades cada vez mais complexas, o que conduziu à evolução de uma linguagem mais complexa.

Compartilhando conhecimento

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Até hoje, tribos costumam usar as noites para contar e ouvir histórias

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Mas há outros componentes nessa história, porque os primeiros humanos também precisavam de outras habilidades para sobreviver.

Para dominar a caça e a colheita, eles precisavam aprender a cooperar. E a maneira mais eficiente de fazer isso é compartilhando informações sobre o papel de cada indivíduo. Ou seja, fofocar sobre os outros.

Essa é a teoria defendida por Klaus Zuberbuehler, da Universidade de St. Andrews, na Grã-Bretanha. “Conforme nossos ancestrais foram deixando as florestas para as áreas de savana, mais abertas, aumentou a necessidade de trabalharem juntos para conseguirem caçar com sucesso. Isso forjou um alto grau de trabalho em equipe e compartilhamento de informações pessoais”, explica.

Essa vontade de partilhar informações pode ser notada nas crianças de hoje. Desde muito cedo, elas destacam fatos de suas vidas e de suas famílias e amigos.

“Foi esse aspecto social e de apoio, típico da natureza humana, que permitiu que a fofoca surgisse”, afirma Zuberbuehler.

Para ele, a fofoca não surgiu entre nossos ancestrais como uma extensão da necessidade de aliciar um ao outro. O cientista aponta para evidências de que o ser humano é capaz de “se unir intencionalmente”, dividindo informações para chegar a um objetivo comum, muitas vezes de longo prazo, enquanto símios tendem a cooperar apenas para atender a suas necessidades imediatas e individuais.

Em torno da fogueira

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Cientistas acreditam que um dia poderão identificar o 'DNA da fofoca', ligado à linguagem

Mas como qualquer boa história, esta aqui também tem uma reviravolta surpreendente.

Isso porque outra teoria começou a ganhar força: a de que a fofoca evoluiu como consequência da capacidade do homem de controlar o fogo.

Entenda: durante o dia, os primeiros humanos passavam boa parte do tempo tentando se manter vivos, procurando comida e abrigo enquanto tentavam escapar de predadores. De noite, só lhes restava dormir.

Mas ao aprender a fazer fogo, talvez há cerca de 1 milhão de anos, o homem transformou as horas de escuridão. Mais aquecidos e seguros em torno de uma fogueira, os humanoides tiveram a oportunidade de se comunicar de maneira mais livre e sobre assuntos menos sérios.

Alguns estudos recentes sustentam essa ideia, mostrando que as conversas em tribos de hoje mudam do dia para a noite. Por exemplo, de dia, os Kalahari, que vivem no deserto de Botsuana, falam sobre assuntos práticos. De noite, conversam de maneira diferente e adoram contar e ouvir histórias.

E uma boa história é sempre base para uma boa fofoca.

O DNA da fofoca?

Mas determinar a origem exata da fofoca pode ser uma tarefa árdua, já que se trata de algo de natureza efêmera. Alguns indícios podem surgir conforme estudamos mais o DNA de nossos ancestrais.

Cientistas já sequenciaram o genoma do homem de Neandertal e o de seu parentes mais próximo, o hominídeo de Denisova. E reconhecem que os neandertais possuem uma versão de um gene essencial para a fala, que nós também temos.

Mas até conseguirmos provar algo concretamente, a origem da fofoca será algo como a própria fofoca: uma mistura de fatos e especulações.