Fotógrafo registra Londres vista do interior de um ônibus de dois andares

George Georgiou Direito de imagem George Georgiou
Image caption Fotógrafo andava em ônibus que instigavam sua curiosidade

Por mais de dez anos, George Georgiou passou boa parte do seu tempo no carro. Ele, que é descendente de gregos nascido em Londres, e sua mulher, a também fotógrafa Vanessa Winship, dirigiram pela Ucrânia, Georgia, Turquia e EUA – e tiraram fotos em todos lugares por onde passaram.

Há três anos, Georgiou decidiu voltar para casa. Ele foi morar em Folkestone, na Inglaterra. Ao voltar a Londres para visitar, Georgiou pegou um dos famosos ônibus vermelhos de dois andares da cidade.

Ao olhar pela janela, conta, se espantou com o "profundo estado de fluxo" de sua cidade. Ele sempre considerara Londres sua casa, mas agora se assustava com a quantidade de ruas, as multidões inquietas, casas sendo construídas e a agitada rotina.

"De repente, Londres havia virado o lugar mais internacional da Terra”, diz. "Havia se aberto para pessoas que não têm herança ou ligação com Londres, a não ser a de querer fazer de Londres sua casa. Ver tantas pessoas morando junto e, principalmente, fazendo isso dar certo - me pareceu algo muito poderoso."

"Percebi que, para muitas, muitas pessoas, Londres havia virado a última parada, o destino final de uma longa jornada, o Santo Graal do sonho ocidental", diz. “Queria tentar entender isso: o jeito como as pessoas dividem a cidade, os movimentos diários, os ritmos e rituais da cidade.”

Direito de imagem George Georgiou
Image caption Inspiração foi "ver tantas pessoas morando juntas na cidade e fazendo isso funcionar"
Direito de imagem George Georgiou
Image caption De ônibus, fotógrafo capturava ritmo de vida de Londres
Direito de imagem George Georgiou
Image caption Pessoas não sabiam que estavam sendo retratadas

E assim nasceu o Last Stop, ou “última parada”. Feito totalmente por meio de financiamento coletivo, trata-se de um registro fotográfico de Londres feito da perspectiva dos icônicos ônibus londrino.

Momentos passageiros

Ao chegar em Londres, Gergiou entrava no primeiro ônibus que instigava sua curiosidade. “Queria explorar a cidade toda”, diz, “do centro ao subúrbios. Norte, sul, leste e oeste.”

Ele passava até 12 horas por dia em ônibus, do início até o ponto final. “Ás vezes eu via um destino que eu não conhecia, ou só conhecia o nome do lugar no mapa”, explica. “Minha curiosidade sempre me fazia escolher aquele ônibus e ir com ele até o fim da linha.”

Ele sentava em qualquer assento livre e olhava pelo visor da câmera que ficava em seu colo, para que as pessoas retratadas não soubessem disso.

Georgiou começou a ver suas fotografias como “microdramas”. Cada uma congelou um momento importante na vida de desconhecidos – pegos de forma passageira e aleatória pelo movimento do ônibus.

Direito de imagem George Georgiou
Image caption George costumava ir até o fim da linha, fotografando moradias populares, por exemplo
Direito de imagem George Georgiou
Image caption O fotógrafo às vezes estava tão perto que poderia encostar nas pessoas retratadas
Direito de imagem George Georgiou
Image caption O voyeurismo era parte do trabalho de George - mas, para ele, isso também é parte de viver em uma cidade

“Via pequenas cenas que poderiam ter saído de uma novela”, conta. “Uma pequena interação ou dinâmica, um abraço, uma briga, uma olhar, ou um momento de total solidão. Eu me pegava inventando histórias para as pessoas que havia fotografado”, afirma.

Em uma imagem, um casal aparece rigidamente oposto ao outro, dando as mãos mas mantendo a distância. Em outra, uma mulher velha parece trocar um cigarro por algo com dois jovens. Um briga explode em um restaurante. Um sem-teto acorda confuso de um sonho, em uma rua molhada. Crianças correm atrás de bolas no quintal de um conjunto habitacional. Um idoso tropeça em uma rua movimentada.

As fotografias de Last Stop estão invadindo a intimidade deles.

Georgiou, sentado à janela, estava muitas vezes “perto suficiente para tocar” a pessoa fotografada, diz. Somente o vidro da janela e a lente da câmera o separavam de seus objetos acidentais.

Dramas a distância

Há um elemento de voyeurismo nisso, uma certa exploração de momento privados em lugares públicos.

“Mas o aspecto de voyeurismo é crucial para a experiência da cidade”, diz.

“Em uma cidade, sempre estamos olhando a vida de outras pessoas. Todos fazemos isso, mas esse voyeurismo é o que faz viver em uma cidade algo tão bonito; toda essa humanidade e histórias e dramas sem fim. É por isso que amo a experiência de Londres, esse pequenos e aleatórios encontros, microdramas vistos de longe, deixando que preenchamos os vazios.”

Direito de imagem George Georgiou
Image caption Fotografias exploram como pessoas podem estar sozinhas, mas não isoladas, em espaços públicos
Direito de imagem George Georgiou
Image caption Regras de interação estão mudando, diz fotógrafo

O que é surpreendente, diz Georgiou, é o quanto foi intuitivo entender grande parte desses momento. "Com minha câmera, posso congelar esses dramas", diz. "Mas, ao olhar para trás, todos sabemos o que está acontecendo. Podemos reconhecer a emoção na foto instintivamente."

Last Stop não é só sobre pessoas. Quando Georgiou se estabelecia no segundo andar do ônibus, ele se permitia ter uma visão mais ampla, situando os microdramas em um contexto maior.

Essa triangulação entre retratos da rua, estudos de contexto e a paisagem é um aspecto importante do projeto.

"As regras de interação e proximidade estão mudando naquilo que o antropólogo francês Marc Augè chama de 'não lugares'", escreve ele na introdução de Last Stop. "Esses espaços públicos são projetados para que as pessoas se movam sozinhas mas sem isolamento, no contexto de uma cidade histórica orgânica com tradições profundas, onde o velho e o novo se entrelaçam."

Após uma campanha bem-sucedida de financiamento coletivo, Georgiou publicou Last Stop de forma independente, vendendo cópias pela internet. As fotografias foram publicadas usando uma ferramenta que permite ver as imagens na ordem que a pessoa quiser. Todas as vezes que passamos as páginas, uma nova sequência de imagens é exibida.

"Eu queria achar uma forma de me manter fiel à experiência de ver tudo pela janela do ônibus - a possibilidade de descobrir coisas novas ao acaso que existe por trás desses microdramas, de como nos nos acostumamos a dividir espaço com tantas pessoas, tantas vidas separadas e complexas", diz Georgiou.

"Porque eu sou parte desse ritmo e comunidade", acrescenta. "É minha comunidade, minha segurança, minha casa."

Leia a versão original desta reportagem (em inglês) no site BBC Culture.