Como é viver em lugares que buscam a independência

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Image caption Barcelona é uma das cidades europeias que mais atrai moradores estrangeiros

Ao longo da História, divergências culturais, linguísticas e políticas levaram os moradores de várias regiões do mundo a tentar a independência de seus governos centrais. Recentemente, líderes da Catalunha prometeram uma separação definitiva do resto da Espanha, e, em 2014, a Escócia realizou um referendo que acabou reprovando sua saída da Grã-Bretanha.

Episódios que acabaram não trazendo mudanças drásticas, como o que ocorreu na Escócia, não significam que os habitantes deixem de ter orgulho dos aspectos culturais e geográficos que os tornam diferentes.

Conversamos com alguns cidadãos dessas regiões independentistas sobre como essa visão afeta seu cotidiano – e como os futuros acontecimentos podem trazer impacto em suas vidas.

Catalunha, Espanha

A Catalunha já é uma comunidade autônoma na Espanha, e em setembro de 2015 elegeu um líder regional pró-independência que prometeu chegar a esse objetivo em 18 meses.

Entre aqueles que moram nessa região do nordeste da Espanha, as atitudes variam muito. "Minha filosofia é a de que a vontade do povo deve prevalecer", afirma Elina Nykaenen, nascida na Finlândia e hoje diretora de uma organização de expatriados em Barcelona.

Outros hesitam mais em dar seu apoio, já que uma possível independência da Catalunha abriria discussões sobre sua participação na União Europeia e o impacto que isso teria nas condições dos trabalhadores. Paúl Conde, mexicano que também atua com expatriados em Barcelona, afirma que muitas empresas já estão deixando a capital catalã por temer as possíveis mudanças.

Apesar das incertezas, a cidade continua sendo um destino cada vez mais popular entre estrangeiros. O preço dos imóveis subiu por causa desse influxo, mas os moradores acreditam que a capital ainda é barata em comparação com o resto da Europa.

Um dos problemas para os expatriados, no entanto, parece ser a integração com os locais. "Pode ser difícil se aproximar dos catalães ou ser aceito por eles. Muitos parecem incomodados com os estrangeiros morando aqui", diz Nykaenen. Por isso, investir em aprender o idioma e a cultura catalãs pode valer a pena.

O bairro de Gracia, a 4 quilômetros do centro, é bastante popular entre expatriados. "É cheio de praças onde crianças, pais, avós e vizinhos se reúnem todas as tardes, além de ser também uma parte mais boêmia e artística da cidade", explica a finlandesa. Já a Vila Olímpica e o Poble Nou, a leste, são escolhidos por aqueles que querem viver perto do mar.

Escócia, Grã-Bretanha

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Image caption Apesar de terem rejeitado independência, escoceses se orgulham de suas diferenças culturais

Em setembro de 2014, um referendo perguntou aos cidadãos escoceses se a nação deveria se tornar um Estado independente. Quase 45% disseram que sim, enquanto 55% votaram para permanecer na Grã-Bretanha.

Mas mesmo aqueles que optaram pelo "não" por motivos econômicos ainda sentem uma forte independência cultural. "Os escoceses são muito orgulhosos de sua cultura e de seu patrimônio, e isso é expressado das maneiras mais sutis", conta Mark Ware, canadense que preside um grupo de expatriados em Edimburgo, a capital escocesa. "As pessoas valorizam as tradições locais, suas comidas e os escoceses que brilham pelo mundo afora."

Enquanto os moradores de Edimburgo são extremamente bem-educados, para Ware eles tendem a ser mais distantes com os estrangeiros e mais moderados de que seus conterrâneos de Glasgow, a maior cidade da Escócia.

Ware mora em Morningside, no sudoeste de Edimburgo. "O bairro é bem tranquilo à noite, mas fica perto do centro e tem um comércio bem variado", explica.

O afluente bairro de Stockbridge, o histórico Bruntsfield e o simpático Marchmont, com suas casas vitorianas, também estão entre os mais cobiçados.

Groenlândia, Dinamarca

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Image caption Nuuk concentra um terço dos 60 mil habitantes da Groenlândia, que quer ser mais autônoma

Assim como a Escócia é um país dentro da Grã-Bretanha, a Groenlândia é um território autônomo do Reino da Dinamarca.

Apesar de a ilha ser habitada desde a pré-História, noruegueses e islandeses se estabeleceram ali no ano 986 a.C.. O lugar se tornou colônia dinamarquesa em 1814.

Em 2008, os habitantes da Groenlândia votaram e conseguiram mais autonomia. Hoje eles próprios controlam seu sistema judiciário, o uso dos recursos minerais, a aviação e a elaboração de suas leis. A Dinamarca se encarrega de questões como política externa e defesa.

Mas a pequena população da ilha dificulta a quebra dos laços com Copenhague. "É claro que quero que sejamos o mais independentes possível", diz Janus Chemnitz Kleist, nativo de Nuuk e guia turístico. "Isso é muito difícil na prática, porque somos poucos e nosso sistema de bem-estar social depende muito do dinheiro dinamarquês e dos dinamarqueses que trabalham aqui."

Os groenlandeses continuam falando em obter a independência total, enquanto mantêm que sempre terão uma relação estreita com a Dinamarca. A maioria dos moradores fala dinamarquês e inglês, apesar de a língua inuit kalaallisut ser o idioma oficial desde 2009.

A diminuta população também significa que o território tem diferenças culturais bem marcantes. "Todo o mundo se conhece, mesmo em Nuuk, a maior cidade da Groenlândia", conta Line Ehlig, dinamarquesa que morou ali. "Todos os cidadãos vivem como se estivessem em uma grande comunidade, independentemente de sua origem. A maioria dos dinamarqueses não tem 50% da simpatia dos groenlandeses."

Quase um terço dos 60 mil habitantes da ilha vive em Nuuk, a capital. Os dinamarqueses continuam a desembarcar em busca de salários mais altos e oportunidades nas indústrias da agricultura e do petróleo.

A maior parte das empresas se situa no centro de Nuuk. O bairro de Qinngorput, a 3 quilômetros a leste, é mais popular entre jovens e famílias com crianças pequenas.

Québec, Canadá

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Image caption Montreal é a maior cidade de Québec e atrai estrangeiros que não falam francês

Por pouquíssimos votos, a província canadense de Québec esteve perto de se tornar uma nação soberana em 1995, quando eleitores compareceram em massa às urnas para dar sua opinião sobre o assunto. Apesar de o "não" à independência ter ganho com 50,58% dos votos, Québec continua sendo uma região com uma sólida autonomia cultural e política.

Enquanto o resto do Canadá é uma "nação de colonos", com estrangeiros de todo o mundo, Québec tem um clima bastante diferente, por causa de suas raízes francesas.

"A língua francesa e o estilo de vida e educação franceses só existem nesse pedaço do Canadá, e isso dá ao local um sentido de 'cultura' que outras partes do país não têm", explica Christian Scott, mexicano que hoje vive em Montreal e trabalha para uma start-up de turismo que une viajantes a moradores locais.

A ênfase no idioma francês é levada a sério e, por lei, toda a sinalização precisa ser feita nessa língua. Mas Montreal, a maior cidade de Québec, também é acolhedora para quem só fala inglês.

O forte desejo de independência dos québecois faz deles pessoas mais cheias de garra e mais livres em suas ideias. "Isso permite que o local tenha um rico circuito cultural e artístico. Há mais artistas per capita em Montreal do que em qualquer outro lugar do Canadá", afirma Susanna Oreskovic, colega de Scott na start-up.

O bairro mais interessante para quem quer explorar esse lado artístico é o Plateau, a 3 quilômetros do centro de Montreal. Já Rosemont-La Petite Patrie é uma área mais francófona e mais acessível. Notre-Dame-de-Grâce e Mile End são bairros onde o inglês é mais popular, e que por isso atraem mais estrangeiros.

Taiwan, China

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Image caption Recente eleição presidencial fez a questão da independência voltar à pauta em Taipei

Em janeiro, o Partido Democrático Progressista venceu as eleições em Taiwan, colocando novamente sob os holofotes a questão da independência do país em relação à China.

Por causa da delicadeza do assunto, muitos habitantes preferem não se pronunciar. Mas cada vez mais, a população se identifica etnicamente como taiwanesa e não chinesa.

É fácil falar de política em Taipei, a capital de Taiwan. "Durante as eleições há comícios, cartazes, faixas e bandeiras nacionais por toda a parte", conta Jason Warren, imigrante americano. "Sempre ouço dos moradores locais que Taiwan e os Estados Unidos têm o mesmo amor pela democracia e pelo debate de ideias."

Além de política, os habitantes de Taipei adoram as opções gastronômicas da cidade, com seus milhares de restaurantes representando cozinhas de todo o mundo.

Warren vive no bairro de Da'na, a 3 quilômetros do centro, e circula essencialmente a pé. Quem busca ficar perto de lojas e restaurantes descolados podem ficar na área próxima à Universidade Nacional de Taiwan ou no bairro de Zhongxiao Dunhua.