O que está em jogo na queda de braço entre UE e Grã-Bretanha

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Image caption O presidente francês, François Hollande, foi um dos mais atuantes nas negociações, para impedir direitos especiais aos bancos britânicos

Foram necessários dois dias de intensas negociações envolvendo diretamente chefes de governo para que a União Europeia aceitasse conferir um "status especial" ao Reino Unido, com o que pretende convencer os cidadãos britânicos a manter o país no bloco.

Embora o primeiro-ministro britânico, David Cameron, tenha dito que o acordo de sexta-feira deu à Grã-Bretanha "o melhor dos dois mundos", numa referência ao fato de o país fazer parte do bloco ao mesmo tempo em que se distingue dos demais membros, há ceticismo no lado europeu.

O presidente do Conselho Europeu, Donald Tusk, que comandou as conversas em Bruxelas, disse ao fim do encontro que os presentes concordaram em "sacrificar parte de seus interesses pelo bem comum, para mostrar unidade". E deixou a sensação de que todos perderam.

Há muitas razões para isso. Mais do que ter que sacrificar interesses, os líderes europeus temem que o acordo abra espaço para uma UE à la carte, com outros países pedindo exceções às regras comuns a fim de acomodar interesses nacionais.

Outra preocupação é que aceitar as exigências de Londres por mais autonomia e tratamento especial em questões envolvendo imigrantes fortaleça partidos nacionalistas e populistas, em franca ascensão na Europa.

Durante as negociações em Bruxelas, o vice-presidente do partido francês de extrema direita Frente Nacional, Florian Philippot, disse que estava "observando o que acontece com a Grã-Bretanha com interesse e ansiedade".

A renegociação das relações com a UE é "um processo que estamos propondo há muito tempo", afirmou.

Não é à toa que o presidente francês, François Hollande, foi um dos mais implicados nas reuniões de quinta e sexta-feira.

Queda de braço

Nas conversas, a França conseguiu evitar que Londres ganhasse poder de veto sobre as decisões da zona do euro, união monetária da qual não faz parte.

"A Grã-Bretanha queria um status particular (para seu mercado financeiro). Não posso aceitá-lo. Isso significaria que os bancos franceses ou de outras nacionalidades europeias não teriam as mesmas obrigações ou facilidades que outros só porque estão em Londres", explicou Hollande.

Mas o ponto mais difícil do acordo diz respeito às restrições que a Grã-Bretanha exigiu poder aplicar aos benefícios sociais pagos a trabalhadores de outros países europeus residentes em seu território.

Em período de grande fluxo migratório, os recém-chegados terão que contribuir durante quatro anos com a previdência britânica antes de ter acesso às mesmas ajudas que os trabalhadores locais.

A restrição foi taxada de discriminatória pela maioria dos países, mas acabou sendo aceita por um período máximo de sete anos, contra os 13 pedidos pelo primeiro-ministro britânico.

Os países do centro e do Leste da UE – liderados pela Polônia, principal exportador de mão de obra ao mercado britânico – evitaram que o corte em benefícios para filhos de imigrantes que vivem no exterior fosse retroativo.

A medida será aplicável imediatamente para os recém-chegados e, a partir de 2020, para os 34 mil requerentes já existentes.

Nessa data, a medida poderá ser adotada também por todos os demais países da UE, como exigia Dinamarca, com o apoio da Alemanha.

Com tantas divergências, o compromisso final só foi possível porque os 28 membros do bloco concordam que a saída da Grã-Bretanha teria um custo ainda mais elevado para todos.

Londres: prejuízos econômicos

Para os britânicos, abandonar a UE significaria perder as facilidades de mobilidade laboral, cooperação em programas de investigação e desenvolvimento e participação em intercâmbios acadêmicos com outros países europeus.

Seu país também perderia o acesso livre a um mercado de 440 milhões de consumidores.

Um estudo publicado pela entidade Open Europe em março de 2015 afirma que todos os principais setores de exportação britânicos seriam inicialmente prejudicados e que o país perderia 2,2% de seu PIB até 2030 caso não fechasse tratados comerciais com a UE.

"Dos bens exportados pela Grã-Bretanha à UE, 35% estariam sujeitos a impostos superiores a 4%", afirma a análise, elaborada com base em pesquisas e entrevistas com empresários e associações de comerciantes.

O setor financeiro, que atrai cerca de 50% dos investimentos estrangeiros diretos no país, ficaria "particularmente vulnerável".

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Image caption O premiê David Cameron anuncia a data do referendo sobre a UE

"A UE poderia aumentar as barreiras (para ingressar em seu mercado) com novas regras sobre as quais a Grã-Bretanha não teria poder de voto."

Por outro lado, o estudo também vê benefícios potenciais com o desligamento da UE se Londres assinar acordos comerciais com parceiros sensíveis para outros países europeus.

Por exemplo, as montadoras de automóveis britânicas poderiam se beneficiar de um pacto com a China, improvável para a UE devido à oposição da Alemanha.

Já a indústria de uísque escocês, que responde por 25% das exportações britânicas no setor alimentar, seria favorecida com um acordo com a Índia, grande consumidora da bebida, que atualmente taxa as importações do produto britânico a 150%. E um acordo como esse, entre britânicos e indianos, só seria possível fora da UE.

"No entanto, isso significaria expor as empresas e os trabalhadores britânicos a novos níveis de concorrência de países com baixos custos", ressalta a Open Europe.

A pesquisa envolveu os oito principais setores de exportação de bens e serviços britânicos: finanças, seguros, serviços profissionais, automotivo, espacial, maquinaria, químico e alimentação, tabaco e bebidas.

Segundo o Open Europe, esses setores respondem juntos por metade de todas as exportações britânicas para a UE.

UE: menos peso internacional

Quanto à União Europeia, os efeitos da separação se veriam mais claramente nas relações internacionais, de acordo com analistas.

O diretor do Instituto Jacques Delors, Yves Bertoncini, observa que, com a saída da Grã-Bretanha, a UE perderia 13% de sua população e 16% do PIB, o que resultaria em um "menor peso diplomático e militar" no cenário internacional.

"Em uma UE sem a Grã-Bretanha, só a França, como membro permanente do Conselho de Segurança da ONU, teria uma perspectiva realmente global de política externa e de segurança", opina o diretor de política exterior do Centro para a Reforma Europeia (CER, na sigla em inglês), Ian Bond.

O analista também afirma que a partida do único membro anglo-saxão poderia dificultar as relações entre a União Europeia e os Estados Unidos.

Mas Bertoncini minimiza: "Seria uma amputação, já que a Grã-Bretanha é um membro importante. (A UE) cortaria um braço, mas não as pernas, porque as duas pernas são a Alemanha e a França".

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