O Oscar reflete a diversidade da população dos EUA?

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Image caption Indicados nas categorias de atuação; ausência de diversidade racial despertou críticas

Antes mesmo do início da cerimônia de entrega do Oscar, na noite deste domingo, uma coisa já era certa: os vencedores de todas as categorias de atuação da 88ª edição do Oscar seriam brancos.

Isso porque, pelo segundo ano consecutivo, todos os indicados a Melhor Ator, Atriz, Ator Coadjuvante e Atriz Coadjuvante eram brancos.

Os prêmios acabaram ficando com Leonardo DiCaprio (O Regresso), Brie Larson (O Quarto de Jack), Mark Rylance (Ponte dos Espiões) e Alicia Vikander (A Garota Dinamarquesa), respectivamente. Alejandro González Iñárritu ficou com o prêmio de melhor direção por O Regresso, e Spotlight levou a estatueta de melhor filme.

Mas o fato de todos os indicados em atuação serem brancos foi motivo de controvérsia desde a divulgação da lista de concorrentes ao principal prêmio do cinema mundial.

Há muitas críticas sobre o fato de nomes como Michael B. Jordan, do bem-sucedido blockbuster Creed – Nascido para Brilhar, Idris Elba, que interpreta um carismático líder militar no filme sobre crianças-soldados Beasts of No Nation, da Netflix, e Will Smith, que estrela o longa Um Homem Entre Gigantes, só para citar alguns exemplos, tenham sido ignorados pela Academia.

Esses críticos apontam a composição do grupo de votantes como uma possível razão para a falta de reconhecimento das interpretações de atores e atrizes negros.

Dos 6 mil membros habilitados a votar, 94% são brancos.

A polêmica levou nomes importantes do showbiz – entre eles o cineasta Spike Lee e a atriz Jada Pinkett Smith (mulher de Will Smith) – a anunciarem um boicote à premiação deste domingo.

Além disso, uma campanha nas redes sociais reclama dessa falta de diversidade nas nomeações usando a hashtag #OscarsStillSoWhite (“#OscarsAindaTãoBrancos”, em tradução literal), reconstruindo a #OscarsSoWhite (“OscarsTãoBrancos”) popularizada no ano passado.

Será, porém, que essa é uma crítica justa? No passar dos anos, quanto o Oscar tem refletido da diversidade racial americana? Trata-se de uma premiação racista? Ou será que apenas reflete a composição da indústria cinematográfica?

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Image caption Idris Elba em 'Beasts of no Nation'; ator foi considerado 'ignorado' pela Academia

A Universidade do Sul da Califórnia divulga anualmente um estudo que reflete a diversidade étnica e de gênero no cinema americano e no Oscar.

Para isso, o estudo analisa a proporção de atores, diretores e outros profissionais de diferentes origens étnicas. Com a série histórica de 2006 a 2013, é possível ter um retrato de quão Hollywood têm refletido, ao menos neste século, essa diversidade.

Os resultados talvez sejam surpreendentes.

Latinos e asiáticos sub-representados

Atores negros estão, em média, levemente sub-representados no cinema dos Estados Unidos.

Uma análise dos prêmios já concedidos pelo Oscar desde 2000 mostra que pouco mais de 9% das indicações foram para eles, que hoje representam 12,6% da população americana, segundo o Census Bureau.

É certamente verdade que atores brancos estão super-representados quando o assunto são as indicações – o grupo que corresponde a 62% da população recebeu 88% das vagas nas disputas desde 2000, e 95% em todo o século passado. Mas não necessariamente isso ocorre às custas dos colegas de trabalho negros.

O fato é que a população latina é que é dramaticamente sub-representada na indústria cinematográfica.

Embora diretores como Alfonson Cuarón (vencedor por Gravidade) e Alejandro González Iñárritu (que levou o Oscar por O Regresso e também venceu com Birdman ou A Inesperada Virtude da Ignorância no ano passado) tenham sido premiados recentemente, latinos foram indicados a prêmios de atuação apenas sete vezes – 2% do total de vagas – desde 2000, embora esse grupo corresponda a 17% da população dos Estados Unidos, segundo os dados oficiais.

O dado não inclui atores espanhóis, como Javier Bardem (indicado três vezes) e Penelope Cruz (duas).

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Image caption Alejandro González Iñarritu ganhou novamente como diretor, mas latinos são sub-representados na festa

Nenhum ator latino ganha um Oscar desde 2000, quando Benicio del Toro levou uma estatueta (se desconsiderarmos a queniana Lupita Nyong’o, nascida no México, vencedora em 2014 por 12 Anos de Escravidão).

Isso talvez ocorra porque apenas 5,8% de todos as papéis com falas foram destinados a atores latinos, segundo o estudo da Universidade do Sul da Califórnia, que analisou 109 filmes lançados pelos maiores estúdios em 2014.

Americanos de origem asiática têm um destino parecido. Segundo o Census Bureau, eles são 5% da população, mas mais da metade dos principais lançamentos de Hollywood no ano passado não tem personagens com falas asiáticos ou americanos com essa origem, aponta o estudo da universidade.

A questão do gênero

Mas há ainda outro grupo que talvez esteja ainda em maior desvantagem que os latinos e os asiáticos.

E talvez isso seja ainda mais surpreendente, uma vez que não se trata de uma minoria que está nessa situação, mas sim a maioria.

Mulheres são hoje por volta de 51% da população dos Estados Unidos, mas conseguiram apenas cerca de 30% dos papéis nos principais longas lançados por Hollywood, segundo o estudo da Universidade do Sul da Califórnia, que analisou os 600 filmes com melhor bilheteria entre os anos de 2007 e 2013.

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Image caption Mulheres também são preteridas em papéis principais - mais uma distorção de Hollywood